
21 Julho 2009
Somos, de facto, um grande povo

19 Julho 2009
Na aldeia portuguesa de Banguecoque
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Estes são os luso-siameses de hoje. Ao contrário do que aconteceu nas restantes lusotopias do Sudeste-Asiático, onde as populações de ascedência portuguesa sofreram declínio acentuado, graças à acção convergente dos regimes coloniais britânico (Birmânia) e francês (Camboja), mas também - importa dizê-lo sem rebuço - de muita incompreensão e repetidas tentativas do clero francês e italiano para erradicar a lembrança das raízes portuguesas, na Tailândia os luso-descendentes mantêm dignidade social e profissional. Encontro um médico, um oficial da armada, um professor universitário e um botânico. Na sua maioria evitam os negócios, essa especialização em fazer dinheiro; logo, suspeita aos olhos de pessoas como estas. Gente servidora do Estado, trabalha maioritariamente nos ministérios, lembrando o tempo em que eram funcionários do Rei e especialistas no quadro do "feudalismo siamês" que aqui dava pelo nome de Sakdina. Ontem como hoje falta-lhes a abastança, mas reconhece-lhes no tom, na educação e na atitude um longo historial familiar.
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Uma hoalang vietamita e um luso-siamês
Tinham-me pedido uma curta palestra. Mas o que dizer a pessoas que sabem mais que eu ? Estas pedras vivas falam com naturalidade de um bisavô diplomata, de um tetravô general, de um remoto antepassado que fora servidor no palácio. Por eles passou, durante muitas décadas, a intermediação entre os europeus que aqui chegavam e as autoridades. Foram intérpretes, responsáveis portuários, comandantes da marinha, remadores das barcas reais, secretários do Rei e do Uparat (o segundo Rei), serviram o Phraklang (equivalente a ministro do comércio) e, depois, com o advento do Estado Moderno e burocrático, sobreviveram graças à inteligência, lealdade à coroa e reputação impoluta. Limitei-me - ver aqui - uma palestra de uma hora sobre generalidades que com simpatia foi escutada. Depois, uma longa conversa sobre coisas comuns. À cabeça, naturalmente, Portugal.
A aldeia católica encontra-se dividida em duas paróquias: a de S. Francisco Xavier, habitada por "vietnamitas" aqui chegados durante as duras perseguições anti-católicas da dinastia Nguyen contra os hoalang e a paróquia de Nossa Senhora da Conceição. Na paróquia, a fachada fluvial é habitada por luso-siameses e nas traseiras da igreja vivem os luso-cambojanos. O bairro foi, durante muito tempo conhecido por Ban Khamen (Aldeia Khmér), mas os dois grupos miscigenaram-se e hoje dessa separação étnica subsiste apenas na diferenciação dos espaços - estar perto do rio, estar longe do rio - e no tom de pele mais escuro próprio de alguns "luso-cambojanos"..jpg)
Passamos pela igreja. A missa das quatro da tarde terminara e os padres preparavam-se para rezar a missa das cinco. O pároco ofereceu-me uma medalha com uma Nossa Senhora da Conceição. No interior da igreja, uma trintena de fiéis aguardava o início do serviço litúrgico. Um idoso sentado numa cadeira de rodas disse-me ter oitenta e seis anos. Desfiava as contas de um rosário de vidro verde e ostentava uma dignidade senhorial que me impressionou. Lembrei-me de um velho amigo dos meus pais, o Senhor Fonseca, goês que abandonou Goa por Lourenço Marques em 1961, pois queria morrer português em terra portuguesa. Ontem como hoje, o espírito de resistência do velho Oriente tornado português.
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Boaventura Ruansaman Maytrirak, que foi embaixador do Sião em Roma
Seguimos para o cemitério. Está superlotado e, agora, com um sorriso os meus anfitriões dizem-me só ser possível ali conseguir a última morada nos "condomínios", ou seja, nos gavetões. Desfiam o parentesco de todos os que ali repousam o sono eterno.
António da Cruz, que morreu no dia 11 de Outubro de 1899
António da Costa (1879-1965)
Um Francisco, oficial da Real Força Aérea da Tailândia
Seis da tarde. Não dera pela passagem do tempo. Um café, bolinhos e a marcante gentileza do líder da comunidade em acompanhar-me até ao limite da aldeia. Para este passeio levei comigo um amigo francês, que compreende bem o que isto significa, pois é francês nascido na Argélia, como eu sou português nascido em Moçambique. No autocarro que me trouxe ao centro disse-me: "que gente tão amável. Note-se: vivem no seu mundo e não noutro mundo". Não pude dizer mais nada. Eles vivem no seu pedaço de Portugal. Se eu mandasse, dava-lhes de imediato a cidadania portuguesa.
17 Julho 2009
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