21 Julho 2009

Somos, de facto, um grande povo


Tenho recebido dezenas de emails a propósito das pequenas crónicas que aqui vou publicando sobre as comunidades luso-descendentes do Sudeste-Asiático. Do Vaticano, acabo de receber tocante mensagem de um jovem sacerdote de trinta anos, italiano de nascimento mas "português do coração" (sic) que se excede em imerecidos elogios a esta tribuna, que só aceito por nas suas palavras encontrar o reconhecimento da Igreja pelo esforço quase inumano deste pequeno povo que foi - e é - o maior entre os pequenos povos do Ocidente. Da Alemanha, um pequeno texto, da mão de um arquitecto que "aprendeu a falar português após ter visitado Goa, pois quem fez aquela cidade e a manteve durante meio milénio merece ser conhecido".


Com efeito - as estatísticas não mentem - Portugal realizou o impossível: sobreviveu quase um milénio no escalvado e quase improdutivo canto extremo ocidental da Europa, construiu o Brasil numa dimensão quase continental, resistiu à corrida ao continente africano e aí deixou cinco estados, manteve-se na Ásia até ao limiar do terceiro milénio, arrancou a ferros Timor dos braços da Indonésia muçulmana. Os povos revelam-se na adversidade. A grandeza de Portugal só se revelou quando se finaram as grandes gestas náuticas, as retumbantes vitórias militares e a riqueza da casas da Mina e da Índia. Quando o Império iniciou o seu ocaso, não foram nem os príncipes nem os eclesiásticos purpurados que mantiveram a vida nos Concelhos, que animaram os hospitais e as Misericórdias, que reuniram fazendas e sangue para refazer os panos de muralha. Até mesmo quando o inimigo sobre nós triunfou e quando por cavalheirismo de guerra permitiu que os Homens Bons reunissem família e pecúlio e zarpassem para terras portuguesas, nos mais pequenos rincões ficaram os pobres aos quais coube resistir silenciosa e teimosamente.


Resistir parece ser o segredo da longevidade portuguesa. Mal governados - por vezes, até, governados por irresponsáveis criminosos - os portugueses souberam transformar as mais clamorosas derrotas em vitórias testemunhais. Como aqui disse há tempos, somos um pouco como os judeus: quanto mais nos reduzem, nos esquecem e desprezam, há uma não sei que força misteriosa que nos impele a continuar, a ficar e deixar marca. Pessoas há que no transcurso das suas vidas mudaram três vezes de terra, só para se manterem em terra portuguesa. Aqui lembro, uma vez mais, os goeses. Abandonaram Goa em 1961, saltaram o Índico e estabeleceram-se em Moçambique. Em 1975, novamente fizeram as malas e aportaram a Lisboa. Caramba, que outro povo é capaz de se sacrificar a tal ponto ?


Recebo, feliz, a notícia da candidatura de um português à presidência da Argentina. Mário das Neves é um desses homens que encontramos aos centos ao longo da história ultramarina portuguesa. De origem humilde, nascido em terra distante, parecia condenado ao enclave social, mas eis que subiu a pulso, venceu eleição após eleição, tornou-se estimado pela probidade e intransigência perante a corrupção, quiçá o maior flagelo da América dita latina mas que é, só o pode ser, América Ibérica, pois os italianos não a descobriram, não a edificaram e dela parece só terem tirado vantagem. É uma lição para todos. Vencer é uma questão de teimosia e vontade !

19 Julho 2009

Na aldeia portuguesa de Banguecoque


O convite veio há dias: "queremos que cá venha no próximo domingo para falarmos sobre os portugueses que aqui vivem há mais de duzentos anos". No trabalho de investigação que realizo em Banguecoque desde finais de 2007, tenho lido e folheado muitos milhares de páginas de livros e jornais, muitos documentos manuscritos e mapas existente em bibliotecas e arquivos, mas raramente se proporciona ter acesso às pessoas que hoje representam a comunidade luso-descendente que subsiste na Tailândia. Encontro-os esporadicamente e com eles troco impressões em iniciativas promovidas pela nossa embaixada ou pelas autoridades que neste país respondem pela cultura. Em jantares, convívios e espectáculos por ocasião do 10 de Junho, em conferências ou até em visitas ao parque arqueológico de Ayuthia (antiga capital) tenho sempre o prazer de encontrar os líderes dessa comunidade resistente que obstinadamente se mantém neste outro lado do mundo.


Percorro as vielas da aldeia - terreno inalienável da Igreja - e vou deparando a cada passo com marcas dessa afirmação de soberania católica. Em cada casa, orgulhosos e públicos, o nome da família que a habita e um crucifixo. Flores à janela, azulejos, um rosário pendendo na porta assinalam que ali há um eco do Portugal distante. É um velho mundo, um bandel em plena capital da Tailândia. Ali respira-se um catolicismo militante. Toda a comunidade, estimada em 3000 pessoas distribuídas por 130 famílias, vive para si, casa entre si, transmite memórias e mitos familiares.
É com incontida satisfação que dizem "bão dia, como está ?" e me mostram a escola dirigida pelos padres da paróquia. Ali estudam centenas de miúdos e, caso raro num país em que quase 90% da população é budista, na Escola da Conceição 70% dos alunos são católicos e são Fonsecas, Costas, Cruzes, filhos, netos, bisnetos e tetranetos de Rosas, Marias, Jesus, Antónios e Josés. No auge do fascismo tailandês, em finais da década de 30 e durante a guerra, foram particularmente visados pela repressão do governo de Phibun Songkram. Perderam o direito aos nomes de família, aos nomes cristãos, às procissões e festividades. Porém, se o bilhete de identidade lhes fixava nomes thais, continuavam a charmar-se entre portas pelos nomes de baptismo.

Estes são os luso-siameses de hoje. Ao contrário do que aconteceu nas restantes lusotopias do Sudeste-Asiático, onde as populações de ascedência portuguesa sofreram declínio acentuado, graças à acção convergente dos regimes coloniais britânico (Birmânia) e francês (Camboja), mas também - importa dizê-lo sem rebuço - de muita incompreensão e repetidas tentativas do clero francês e italiano para erradicar a lembrança das raízes portuguesas, na Tailândia os luso-descendentes mantêm dignidade social e profissional. Encontro um médico, um oficial da armada, um professor universitário e um botânico. Na sua maioria evitam os negócios, essa especialização em fazer dinheiro; logo, suspeita aos olhos de pessoas como estas. Gente servidora do Estado, trabalha maioritariamente nos ministérios, lembrando o tempo em que eram funcionários do Rei e especialistas no quadro do "feudalismo siamês" que aqui dava pelo nome de Sakdina. Ontem como hoje falta-lhes a abastança, mas reconhece-lhes no tom, na educação e na atitude um longo historial familiar.


Uma hoalang vietamita e um luso-siamês

Tinham-me pedido uma curta palestra. Mas o que dizer a pessoas que sabem mais que eu ? Estas pedras vivas falam com naturalidade de um bisavô diplomata, de um tetravô general, de um remoto antepassado que fora servidor no palácio. Por eles passou, durante muitas décadas, a intermediação entre os europeus que aqui chegavam e as autoridades. Foram intérpretes, responsáveis portuários, comandantes da marinha, remadores das barcas reais, secretários do Rei e do Uparat (o segundo Rei), serviram o Phraklang (equivalente a ministro do comércio) e, depois, com o advento do Estado Moderno e burocrático, sobreviveram graças à inteligência, lealdade à coroa e reputação impoluta. Limitei-me - ver aqui - uma palestra de uma hora sobre generalidades que com simpatia foi escutada. Depois, uma longa conversa sobre coisas comuns. À cabeça, naturalmente, Portugal.

A aldeia católica encontra-se dividida em duas paróquias: a de S. Francisco Xavier, habitada por "vietnamitas" aqui chegados durante as duras perseguições anti-católicas da dinastia Nguyen contra os hoalang e a paróquia de Nossa Senhora da Conceição. Na paróquia, a fachada fluvial é habitada por luso-siameses e nas traseiras da igreja vivem os luso-cambojanos. O bairro foi, durante muito tempo conhecido por Ban Khamen (Aldeia Khmér), mas os dois grupos miscigenaram-se e hoje dessa separação étnica subsiste apenas na diferenciação dos espaços - estar perto do rio, estar longe do rio - e no tom de pele mais escuro próprio de alguns "luso-cambojanos".
Passamos pela igreja. A missa das quatro da tarde terminara e os padres preparavam-se para rezar a missa das cinco. O pároco ofereceu-me uma medalha com uma Nossa Senhora da Conceição. No interior da igreja, uma trintena de fiéis aguardava o início do serviço litúrgico. Um idoso sentado numa cadeira de rodas disse-me ter oitenta e seis anos. Desfiava as contas de um rosário de vidro verde e ostentava uma dignidade senhorial que me impressionou. Lembrei-me de um velho amigo dos meus pais, o Senhor Fonseca, goês que abandonou Goa por Lourenço Marques em 1961, pois queria morrer português em terra portuguesa. Ontem como hoje, o espírito de resistência do velho Oriente tornado português.

Boaventura Ruansaman Maytrirak, que foi embaixador do Sião em Roma

Seguimos para o cemitério. Está superlotado e, agora, com um sorriso os meus anfitriões dizem-me só ser possível ali conseguir a última morada nos "condomínios", ou seja, nos gavetões. Desfiam o parentesco de todos os que ali repousam o sono eterno.

António da Cruz, que morreu no dia 11 de Outubro de 1899

António da Costa (1879-1965)

Um Francisco, oficial da Real Força Aérea da Tailândia

Seis da tarde. Não dera pela passagem do tempo. Um café, bolinhos e a marcante gentileza do líder da comunidade em acompanhar-me até ao limite da aldeia. Para este passeio levei comigo um amigo francês, que compreende bem o que isto significa, pois é francês nascido na Argélia, como eu sou português nascido em Moçambique. No autocarro que me trouxe ao centro disse-me: "que gente tão amável. Note-se: vivem no seu mundo e não noutro mundo". Não pude dizer mais nada. Eles vivem no seu pedaço de Portugal. Se eu mandasse, dava-lhes de imediato a cidadania portuguesa.

17 Julho 2009

20 milhões com os olhos em Portugal


Dizem as estatísticas que o noticiário sobre as actividades da família real tailandesa bate todos os recordes de audiência, conseguindo 30% de ranking diário, ou seja, seja de 20 milhões de telespectadores. Emitido à mesma hora pela totalidade dos canais de televisão, dá conta ao país das cerimónias de Estado, recepções, inaugurações, visitas ao estrangeiro e iniciativas caritativas em que o Chefe de Estado, a rainha e os príncipes reais tomam parte. Hoje, foi a vez da Princesa Chao Fa Chulabhorn Walailak, terceira na linha sucessória e reputada bioquímica envolvida na investigação e combate ao cancro. A visita de trabalho que actualmente desenvolve em Espanha e Portugal tem sido motivo de algum interesse por parte de amigos que vou encontrando. Aqui fica, pois, o curioso apontamento retirado em directo da pantalha.


Say Fan (música composta por SM o Rei da Tailândia)

15 Julho 2009

Saber viver num país pobre ou temos de voltar aos anos 60




Cada vez que abro os jornais portugueses acessíveis em linha assalta-me a surpresa de não me reconhecer em nada do que se passa [ou não passa] no país onde vivi durante trinta e tal anos. Ria-se a oposição do faz-de-conta em que se dizia viver Portugal nos anos de Salazar: os concursos para a mais prendada costureira, a quermesse da Cruz Vermelha, a chegada da frota bacalhoeira da Terra Nova, a benção do novo Super Constellation da linha Lisboa-Luanda, a inauguração de uma exposição da SNBL, a visita de graduados da Mocidade Portuguesa ao Chefe de Estado, a inauguração do Pavilhão Francês na Feira Popular, a passagem por Lisboa de uma estrela da Cinecittà. Dir-se-ia que no fim dos anos 50 e inícios de 60 Portugal queria viver para si e que a presença na OTAN, na EFTA, nas Nações Unidas e suas organizações não passava de obrigação imposta pelo novo quadro das relações internacionais emergente no pós-guerra.


Depois, nos anos 60, o bucolismo virgiliano sofreu uma metamorfose: os noticiários encheram-se de referências ao desenvolvimento tecnológico, ao investimento estrangeiro em Portugal - importa lembrar a fixação da Mitsui, da Hoechst, da Mitsubishi, da Plessey, da Philips, da Central Data, da Texas, da Grunding, da Lever, da Colgate, da Solvay, da Secil e Siemens, da IBM e da Westinghouse (ou EFACEC) - às parcerias entre o capital português e grupos económicos e industriais europeus, à fúria das obras públicas - do Metro, dos portos e aeroportos - das barragens e planos de irrigação. A capacidade industrial chegou a crescer 20% ao ano e o rendimento nacional por habitante cresceu em média 10% entre 1963 e 1973. Portugal estava em guerra em três teatros de operações e em cinco frentes de combate, mas continuava a crescer economicamente. Lisboa foi, em inícios da década de 70, o destino obrigatório de grandes congressos e reuniões de trabalho de profissionais dos mais variados ramos de actividades. A classe média urbana crescia em riqueza e consumo, a banca transformou-se em actividade lucrativa, a terciarização bateu recordes de crescimento.


Depois, quisemos brincar ao socialismo. Nacionalizaram-se a banca e os seguros, inventou-se o papão das multinacionais e dos "intermediários parasitas", afungentamos o capital europeu e norte-americano, desmantelou-se a indústria pesada e metalomecânica, impediu-se a transição das indústrias propedêuticas para estádios mais exigentes de aplicação tecnológica e qualificação, condiciou-se a procura e a concorrência e deu-se rédea solta ao poder do funcionalismo público, que cresceu de 200.000 (1966) para 700.000 (2000). O dinheiro da rodos chegado da Europa entreteve a ilusão do crescimento. A este acrescentou-se o sonho do dinheiro barato, do crédito sem restrições, dos gastos sobre gastos do Estado e da nova elite dirigente - que cresceu de 5000 quadros superiores dirigentes para cerca de 100.000 comensais cativos [no parlamento, nos ministérios, nas secretarias de Estado, na Câmaras Municipais, nas fundações, nas Forças Armadas] - ao ponto de se perder o controlo da dívida pública.


Agora, não há dinheiro fácil, não há empresas portuguesas, nem marcas portuguesas, nem investimento português ou estrangeiro que se consigam lobrigar na complexidade crescente da trama económica global. Perdemos em Portugal, perdemos no "espaço económico português", perdemos na corrida à fixação de novas tecnologias, perdemos cérebros e vamos, lenta e inapelavelmente, voltando aos concursos de costureiras, às inaugurações de nada, às visitas de estrelas de cinema "em busca de sol e praia". Não deixa de ser significativo o facto de, a partir de finais da década de 90, Portugal regredir cada ano nas estatísticas da OCDE e do Banco Mundial. Corremos o grave risco de sermos ultrapassados pela totalidade dos Estados do ex-bloco comunista e de, acorrentados à fatalidade espanhola, dependermos das flutuações e ritmos da economia vizinha.


Como se vê, a política não é uma prioridade. Sem economia, a política reduz-se a um fazer de conta de vida e a uma liturgia vazia. Começo a compreender, finalmente, que Portugal ganha muito pouco por se manter agarrado ao regime e de estarmos condicionados pela imobilidade e trama de privilégios que este foi tecendo. Há quem queira o fim do regime. Porém, o fim do regime não é - não pode ser, não deve ser - o fim da democracia, mas a substituição de um modelo imperfeito por um novo quadro institucional que faça crer aos portugueses que somos um país pobre. Viver na pobreza não quer dizer que sejamos miseráveis; quer, sim, dizer que devemos viver na exacta medida das nossas possibilidades, que devemos premiar o esforço e o trabalho, que devemos ter os melhores a dirigir, que se deve restaurar o princípio da poupança e dos sacrifícios. Viver modestamente não quer dizer que vivamos em penúria, mas que sejamos os primeiros a reconhecer que o tipo de figurino que nos impuseram se transformou na maior causa de frustração para quantos acreditaram poder viver como europeus ricos e ociosos.



Tony de Matos: Vendaval Passou

14 Julho 2009

A grande mentira da tomada da Bastilha


Les vainqueurs de la Bastille ont eu quatre-vingt-dix-huit morts. C’est beaucoup moins une victoire du peuple qu’une victoire de la canaille. La faction d’Orléans s’y est activement employée, encore que l’événement ait dépassé son attente. Paris n’est pas très fier : il éprouve surtout de l’angoisse. Des bandits et des filles dansent dans le jardin du Palais-Royal autour des têtes coupées, d’un paquet d’entrailles attaché à une perche et d’un cœur entouré d’œillets blancs. Ils chantent :

« Ah ! il n’est pas de fête

Quand le cœur n’y est pas ! »

L’abominable saturnale épouvante le vrai peuple. Le Comité permanent fait circuler sans arrêt des patrouilles par les rues dépavées où de loin en loin se dressent des barricades. Les cloches des églises sonnent le tocsin et par instants on entend le canon. Les gens se cachent dans leurs caves. Ils croient que les régiments étrangers sont arrivés pour noyer la ville dans le sang
.

12 Julho 2009

Cidades de mortos: cemitérios de Banguecoque











Lugares votados ao abandono, última morada antes do esquecimento e da poeira. Os vivos que os enterraram também já partiram, pelo que os túmulos deixaram de ter qualquer função memorial. Os mortos a enterrarem os seus mortos. Em Sillom - artéria comercial da capital - ainda há dois ou três destes locais escapados ao camartelo e à sanha das empresas imobiliárias. São cemitérios cristãos, chineses e farsis, os únicos existentes na Tailândia budista que crema os seus mortos. Histórias mudas de comunidades migrantes, gente que nesta terra fez fortuna e se impôs. Depois, o silêncio guardado por matilhas de ferozes cães que fizeram das cidades dos mortos o seu reduto na selva da grande cidade de betão.


Te Decet Hymnus (Verdi, Requiem)

10 Julho 2009

Os groynks voltam a atacar


Os peritos do Pentágono - os mesmos que planearam a Baía dos Porcos e a brilhante campanha vietnamita, os que decantaram as armas de destruição massiva em camiões cisterna no Iraque e envolveram-se no vespeiro afegão - andam em polvorosa com os "cyber ataques" que os norte-coreanos andam a preparar contra os sítios-web de "hotéis e bibliotecas universitárias" nos EUA. A infantilidade americana é coisa que mete medo, pois limita-se a projectar o universo dos super-heróis Iron Man, Spider Man, Silver Surfer, Fantastic e Ghost Rider ao tabulado das relações internacionais. Já estou a ver na CNN um Pinsky ou um Zmersky, da Cathodic Protection Inc. ou da Waxman Systems Electronics & Integrated Solutions a aconselharem as últimas soluções Anti-Piracy. Um consultor da Zerbasky Foundation for Security Studies afirma que foram detectadas intensas comunicações de Darloks, Klakons, Wraps e outras monstruosidades silicóides-helicóides e que um informador obteve provas concludentes do envolvimento da famigerada Dark Shadow Sinarchy, dirigida por Zarkov&Goblinsky, a terrível organização que há meses concebeu e executou a partir da selva amazónica o mega-ataque de raios cósmicos de partículas beta minus UX33 contra a Kangaroo Mother Care Foundation, com sede em Mechanicsburg.


Orchestral Synthesis

09 Julho 2009

Outros portugueses

Católicos birmaneses (c.1890)
"I had only to go fifty yards from my gate to find myself among houses inhabited by the Castros and da Silvas. In the middle of the quarter was a Catholic church, not the original church, wich with its baroque façde would have been striking to see in such place, but a later barn of a building without architectural features. (...) The Portuguese, through intermarriage with the local residents, were hardly to be distinguished from them physically, nor retained their own language, but they were still Catholics. (...) A few were educated, spoke english, wore European clothes, and held minor government posts, but the majority were fishermen, not owners of the great fish traps wich were a feature of the locality (...). If I asked why they chose that profession, they would say "the sea called us", as if some memory of the intrepid navigators, who were their ancestors, still lingering with them. Sometimes they would sing sea shanties in a language which they did not understand, nor anyone could understand, but which seemed to be a Portuguese so corrupted that it had become a ringmarole.
(...) For church on Sundays they had a European jacket and trousers; and the woman did their hair in a fashion different from any used by local people (...)"

COLLINS, Maurice. Into Hidden Burma: an autobiography. London: Faber&Faber,1936


Rom Sai da Kauf

08 Julho 2009

Pelam-se por ditadores ou o que fazem as pessoas para que os comboios cheguem à hora certa

É evidente existir uma clara diferença entre o poder personalizado e o poder confundido com um homem, demarcação que o século dos ditadores (o século XX) permite estabelecer sem grande dificuldade. No fundo, o poder dos ditadores é copiado, roubado, macaqueado do poder dos reis, sendo que aquele é um puro acto de banditismo político, exercido através de coação sobre os concorrentes, enquanto o poder personalizado dos reis se confunde com a ideia de bem comum corporizada num chefe de Estado dinástico.

Roger Caillois, num luminoso texto integrado no seu Instintos e Sociedade, que data dos anos 30, entendera com precisão a clara relação estrutural existente entre os bandos criminosos e os "partidos únicos": lealdade canina ao líder, distribuição de favores e castigos na proporção do apagamento da personalidade de quem integra a seita-partido, inimputabilidade dos decisores, aceitação de um dogma que proibe qualquer movimento crítico, uma moral interna ao grupo que colide com a normatividade pré-existente, o desprezo pela ética dos corpos sociais e profissionais, obrigando-os a exercer a suas funções ao arrepio dos respectivos critérios deontológicos - os médicos que torturam e matam, os polícias que aterrorizam, os juízes que se limitam a condenar, os jornalistas que mentem, os artistas que se transformam em propagandistas, os gestores que destroem a lógica empresarial, os padres que facultam informações sobre as confissões, os militares que se pretorianizam - e, não menos importante, a total anulação da cidadania, substituída pela confusão entre o Estado e a seita-partido. Quem não serve o partido é inimigo do Estado; logo, só há cidadãos conquanto membros da seita.

Anda por aí, sobretudo pelas bandas das esquerdas, um fascínio quase vergonhoso pela recuperação dos "aceleradores da história" ou pelos solitários do poder: é o culto em torno de Chávez e Morales, Lugo e Ahmadinejad, a desculpabilização "compreensiva" de Mugabe e dos Castro, lembrando um tempo em que a esquerda só tinha palavras doces para Tito, Mao, Estaline e Che, exercendo campanha contra os "fantoches do imperialismo e do capitalismo", fossem estes Konrad Adenauer, Ludwig Erhard, Margaret Thatcher, Van Thieu, Park Chung Hi, Anwar Al Sadat...

No fundo, o que as pessoas querem e sonham é um poder que as não obrigue a pensar e a duvidar, que as reduza a serviçais iludindo a sua escravidão em nome de um "projecto comum" que horizontalize a sociedade e que as transforme em laboriosas formigas. A propósito da crise nas Honduras - onde um homem quis destruir a constituição e lançar o país no caos socialista invocando a legitimidade da eleição (Hitler também a tinha) - encontro múltiplos exercícios de disfarçada apologia dos ditadores. É o que sempre disse: não há como um bom ditador para fazer sair da casca os bons totalitários escondidos sob o manto do palavreado "democrático".


Adolf Hitlers Lieblingsblume

06 Julho 2009

Conversa de hospital


Um súbito febrão levou-me às urgências do hospital. Temi o tal vírus, mas não passou de falso rebate. Na sala de espera, conversa mole com um americano rotundo e suado praguejando "fuck the thais fucking fuckers" e outras pérolas daquela esmerada educação com que os comedores de pipocas, mcdonalds e french fries semeiam o discurso, invariavelmente sobre dinheiro e sobre as maravilhas dos states. Pensei tratar-se de um taberneiro ou de um taxista reformado. Mas não; à saída, entregou-me um cartão que o indentificava como "general manager" de uma companhia de advogados. Se assim são os advogandos, posso imagirnar o nível [ou falta dele] dos taberneiros e dos taxistas. A criatura levantou-se, foi atendido e logo voltou com a boca cheia de comentários soezes a respeito da médica que o assistira.

Levara para o hospital uma maravilhosa obra de Shway Yoe - ou antes, Sir James George Scott (1851-1935) - intitulada The Burman: his life and notions. Ao abri-la, tentando esquecer o mostrengo acabado de sair, li: "the best thing a Burman can wish for a good Englishman, is that in some future existence, as a reward of good works, he may be born a Buddhist and if possible a Burman". Ora, nem mais. Como sempre digo, qualquer pobre camponês do Laos ou do Camboja é, sem exagero, mais civilizado que o maior banqueiro de NY.


Poesia khmer

Géneros

05 Julho 2009

Dignidades parlamentares





Coreia do Sul, Somália, Taiwan, Turquia e México, ou a derrocada das ilusões rousseaunianas do Povo-Rei, o lento resvalar para a oclocracia.

04 Julho 2009

Novamente o escaravelho estercorário

Os cornos com que Pinho brindou os parlamentares são, sem tirar, o espelho daquilo a que aqui em tempos chamei de raleficação galopante do ethos português. É evidente, gente ordinária, imunda e canalha sempre existiu, detendo até a maioria no censo dos bípedes implumes. No pressuposto que a nobreza de atitudes, a correcção e a afabilidade só se decantam após porfiado esforço de expulsão dos demónios que habitam desde o primeiro dia o coração dos homens - a hominização não joga, decididamente, com humanização - e aceitando de barato que a maioria dos hominídios jamais chega aos umbrais da humanidade, devemos viver em constante sobreaviso e nunca abandonar o radical e são pessimismo sobre a natureza das criaturas com as quais nos cruzamos.

Acontece, porém, que o reles, o canalha e o roncante viveram sempre no zoo das formas imperfeitas de humanidade, ficando de fora na copa, no jardim, na estrebaria, invisível, inaudível e, logo, incapaz de induzir exemplo. Porém, as coisas mudaram. Onde antes havia uma elite carregando o peso da responsabilidade e daquelas virtudes cardinais da justiça, da temperança, da fortaleza e da prudência, que não são teologais, mas virtudes éticas, às quais se acrescentavam a paciência, a caridade, a modéstia e a generosidade, hoje temos o império da escumalha impondo a norma. Não é, pois, de estranhar que a canalha, que sempre foi canalha e disso jamais se libertará, tenha encontrado no mundo moderno e seus mitos igualitários o argumento de ouro para impor a sua lei. Se a canalha sempre foi maioria, por que razão não não deverá o mundo viver ao ritmo dessa maioria ?

Alguns, inadvertidos, julgaram que bastava dar mais dinheiro, mais consumo, mais objectos e, até, mais diplomas universitários para atenuar o peso da canalha. As coisas são como são: a canalha cresceu em receitas, em viagens aos Brasis, em apartamentos, em trapos, em computadores e telemóveis, subiu aos ministérios, envergou as vestes talares e as togas da magistratura, dominou as academias militares, fez-se polícia, conquistou os media, fez cinema, escreveu livros mas não se conseguiu libertar da ontologia canalha. Para o escaravelho estercorário - aquele que arrasta por montes e vales a sua imensa bola de esterco - o mundo é o vasto horizonte onde, sem barreiras, a bola de esterco se agiganta, é admirada e aplaudida pelos escaravelhos concorrentes na corrida à maior obra.

O gesto de Pinho é um verdadeiro manifesto. Onde antes havia canalha nas tabernas, nas docas, nas ínvias ruelas e nas esquinas onde se remoíam as biliosas segregações ácidas da inveja solitária e da fúria da insignificante e odiosa pequenez, hoje temos a canalha a dirigir bancos, universidades e parlamentos. Abro a maioria dos blogues e aí vejo o triunfo da impunidade canalha. A educação formal não responde, decididamente, a esta praga. Não é por se ensinar um hominídio a abrir um computador, a investir na bolsa, a cobrir-se de trapos de "marca" e conduzir Mazeratti que se diliu a mortal influência da canalha. Creio que melhor seria que a escola ensinasse meia dúzia de coisas essenciais - não insultar, não apostrofar, não invejar, respeitar o trabalho alheio, as leis e as autoridades, amar a pátria - que fingir que liberta as pequenas e adoráveis crianças do inapelável chamamento da canalha ao facultar-lhes as biologias, as matemáticas, as linguísticas, as informáticas e as robóticas, as economias e as filosofias teóricas. A cloaca maxima transbordou e inundou Roma até aos píncaros do Quirinal !
Confesso que não invejo Pinho. Aquele parlamento transformou-se numa verdadeira escola de grosseria capaz de quebrar a resistência emocional ao mais coriáceo dos homens. Contudo, a melhor resposta à canalha é o desprezo. Se Pinho se tivesse levantado, arrumado os papéis e saído, esperando que a canalha se amansasse, teria dado uma lição de civismo e dignidade. Mas não, julgou que respondendo à canalha com um gesto canalha anularia o efeito das provocações. Aprende-se com a vida todos os dias da vida.

03 Julho 2009

Bizarrias tailandesas: A&B ou a arte de sobreviver em época de crise

Três ou quatro vezes por semana frequento uma biblioteca para os lados de Sukhumwit, uma das maiores avenidas de Banguecoque (e do mundo) que se estende por mais de 400km, do coração da capital tailandesa a Trat, perto da fronteira cambojana. Antes das nove da manhã, vou ao café das irmãs A&B. Há cerca de seis meses disseram-me que o negócio ia de mal a pior, sem clientes, muitos credores, rendas em atraso, bancos batendo à porta com ameaças de despejo. Há menos turistas; logo, as receitas foram minguando com o arrastar da crise que o senhor Madoff teve a gentileza de espalhar pelo mundo.


Mas o cafézinho tinha que sobreviver e vai daí recorreram a uma terapia de choque. A&B mudaram da noite para o dia, cobriram as cabeças com perucas flamejantes, vestiram a condizer e o negócio começou de novo a prosperar. Hoje de manhã lá estavam infatigáveis a correr de mesa em mesa a atender uma clientela inteiramente masculina (pudera) que parecia lá estar mais pelo simpático serviço que pelo café matinal. Os tailandeses são assim: despem-se de medos e medinhos e lutam pelo dia-a-dia com criatividade, mas sem nunca se precipitarem no ridículo ou no reles. É um povo que merece ser copiado.

02 Julho 2009

A falsa Aliança Democrática com fado e tudo


O Presidente da Real Associação de Lisboa, João Matos e Silva, fundador do CDS, acaba de enviar a Paulo Portas carta anunciado desfiliação do partido por considerar a inclusão do vão PPM de Câmara Pereira na coligação AD à CML um insulto aos monárquicos, dadas as posições que o fadista tem assumido em relação à figura do Chefe da Casa Real Portuguesa, Senhor Dom Duarte de Bragança; logo, uma gratuita agressão à esmagadora maioria dos monárquicos portugueses que ao Senhor Dom Duarte tributam o respeito devido aos sucessores legítimos dos reis de Portugal. Com efeito, a direcção do actual PPM tem desenvolvido ao longo dos últimos meses inaceitável campanha contra o Chefe da Casa Real. Nesta sórdida campanha, que se diz à boca cheia cumprir a agenda anti-monárquica das celebrações republicanas de 2010, não faltam adjectivos soezes - difamação pura - e o envolvimento de pessoas que nunca tiveram qualquer actividade monárquica conhecida, para não referir outras cujo percurso é, no mínimo, suspeito.

O PPM - o verdadeiro PPM de Ribeiro Telles - que se bateu sempre por um projecto lisboeta livre das negociatas e especulação mafiosa, nada tem a ver com este "ppm" sem ideias e sem quadros. Fazer crer aos lisboetas que a Aliança Democrática se restaura com a inclusão de tal partido sem votos e sem cérebros é uma impostura.

Felizmente, não estarei em Lisboa para votar nessas eleições, pois, tão claro como a água, não votaria jamais nessa "AD". Sempre admirei Santana Lopes e o seu "PPD", que creio ter sido repetidamente injustiçado e traído pelo PSD do arranjismo e do trepadorismo. Pena é, no caso vertente, que Santana Lopes não tenha sido devidamente esclarecido e esteja a avalizar a inclusão de um microscópico partido sem votantes e sem o apoio daqueles (os monárquicos) que diz representar.