14 fevereiro 2015

Inaceitável ocultação



Faz hoje 70 anos que morreu a capital do barroco. Não, não foram as hordas asiáticas de Estaline; foram os americanos e os britânicos

Ninguém evoca os 100.000 mortos de Dresden ? Sete milhões de quilos de bombas incendiárias sobre uma cidade aberta - ou seja, sem defesa, esperando simplesmente que os seus inimigos marchassem sobre ela e a ocupassem pacificamente, como o haviam sido Bruxelas (1940), Paris (1940), Roma (1943 e 1944), Atenas (1941 e 1944) - , cidade onde funcionavam centros de acolhimento da Cruz Vermelha Internacional, lugar de abrigo para dezenas de milhares crianças fugidas aos bombardeamentos de Berlim ou ao avanço do Exército Vermelho, depósito para bens patrimoniais móveis (bibliográficos, arquivísticos, museológicos) ali colocados para preservação da alma cultural da Alemanha.

Foi um bombardeamento desnecessário, um crime premeditado, friamente executado, tão grave, pois, como quaisquer outros crimes contra a humanidade. É tempo da Europa deixar de separar os mortos, as vítimas e os sofrimentos e de fundar uma memória não selectiva entre aqueles que morreram "porque sim" e aqueles que morreram "porque não". Só a cultura da paz e a compreensão da inutilidade da violência, alicerçada sobre o respeito, poderá finalmente dar por encerrado esse capítulo negro da história europeia que foi a Segunda Guerra. Folheio a imprensa dita de referência e constato que o número de vítimas recenseadas já vai em 22 mil. Ora, se assim continuarmos, dentro de uma década dir-nos-ão que Dresden nunca existiu. Não contem com gente de bem para pactuar com genocídios, quaisquer genocídios.

2 comentários:

Rui F Santos disse...

bom vê-lo e tê-lo de volta com a verve característica, certeira e honesta.
cumps,
RHS

elmano disse...

Muito bem lembrado e acintosamente comentado. Relembro o universo absurdo tão magistralmente retratado por Kurt Vonnegut Jr. em Slaughterhouse-Five.
NE