04 novembro 2014

A "sífilis" de Dom Luís ou de médico e louco, todos temos um pouco



Hoje, ao sair de casa, recebi o Destak. Para além de publicidade, aquele que poderia ser um jornalinho formativo, oferece pouco mais que sumário noticiário requentado; um verdadeiro desperdício de papel, ofendendo a consciência ambientalista de qualquer um.

Ora, entre a frioleira ali estampada, vinha um textinho sobre o último livro de Paulo Drumond Braga - que até tem obra interessante e séria - sobre as doenças dos nossos reis. Diz o Doutor Braga de forma apodítica ter falecido Dom Luís em consequência da sífilis. Não havendo nosografias de D. Luís, interroguei-me sobre a pertinência de tal atrevimento. Sabemos que a sífilis terciária, último estádio da doença, se caracteriza pela exibição de padecimentos insusceptíveis de ocultação, tais como, cegueira, dermafitoses, paralisia, espasmos e até loucura. O diagnóstico feito pelo Doutor Braga - que eu saiba não pode exercer medicina, pois não é médico - contraria todas as evidências. Dom Luís, que sofria de cancro na bexiga, deslocou-se à Europa em busca de tratamento. No decurso dessa longa digressão, sofrendo dores lancinantes, não deixou de oferecer a sua presença a todas as homenagens que lhe foram prestadas, dando provas de enorme coragem e presença de espírito. Outra prova que refuta liminarmente a suspeita de sífilis foi-nos dada por Fialho de Almeida, que era médico e (ainda) republicano. Dias após o falecimento do Rei, Fialho escreveu um texto (republicado pelo meu pai há duas décadas) que não alude a qualquer vestígio de sífilis. Fialho era médico e republicano, pelo que não teria deixado de sugerir a causa do óbito. Intrigado, folheei as causas da morte dos reis de Portugal, de Montalvão Machado, não havendo ali a mais leve alusão. Assim, depreendo tratar-se de inverdade que pretende assentar arraiais de verdade histórica. Não ceder ao sensacionalismo parece ser, pois, ponto de honra deontológico para qualquer historiador. Infelizmente, não foi o caso.

03 novembro 2014

Reis, ayatollahs e comunistas no Irão: nada de novo nos últimos 2000 anos




Dizia hoje um destes comentadeiros Rel. Int. de serviço que o Irão constitui um estranho caso, porquanto ali travou-se uma "atípica" luta sem quartel entre os fundamentalistas "totalitários" e "medievais", seguidores dos ayatollah's, e os militantes do partido comunista Tudeh. Terminou com o queixume à la carte do politicamente correcto: "os defensores da democracia e da economia de mercado parecem ainda minoritários". Surpreende-me que tais comentadeiros não se dêem ao trabalho de compulsar os sete volumes da The Cambridge History of Iran, a grande obra de referência editada desde a década de 60 pela insuspeita Cambridge. 
Ali poderiam, sem risco de emissão de cheques carecas, aperceber-se que no Irão a vida política sempre esteve polarizada entre o poder religioso, o poder régio e recorrentes explosões de violência popular.

O Xá Reza Pahlavi foi deposto pela acção conjugada da fronda dos Ayatollahs e da subversão armada do Partido Comunista. Nada de novo. No Irão antigo dos Partos e Sassânidas - ou seja, no Irão pré-islâmico - os sacerdotes mazdeístas disputaram o poder aos reis, sendo o chefe dos magos, primaz do Zoroastrismo, um fazedor e destruidor de reis apoiado pela nobreza regional. Por volta do século V da nossa era, apareceu um profeta chamado Mazdak, talvez um maniqueísta (seguidor de Maniqueu) cuja doutrina proclamava o total despojamento e a criação de uma sociedade igualitária assente na propriedade colectiva dos bens de produção. Este movimento, a que os historiadores com toda a propriedade crismam de "comunista", causou terríveis devastações entre a nobreza terra-tenente. Para pôr fim à anarquia, ressurgiu o poder arbitral do Shah-in-Shah (Rei de Reis, ou seja, imperador), que domesticou o clero mazdeísta, reduzindo-lhe o poder temporal, e suprimiu a revolta comunista.

Assim, o Irão do futuro não será certamente "liberal e democrático" à ocidental, mas uma monarquia que restabelecerá a preeminência do poder régio, compelindo a hierarquia xiíta às suas funções na esfera religiosa e impedindo o ressurgimento do Partido Comunista.