31 maio 2014

Desamor

Atribui-se um valor excessivo à coerência, sem que muitas vezes nos demos conta que a mudança acontece em tudo e que nós mesmos não somos quem éramos há meses, anos ou décadas atrás. Dizia-me ontem um antigo amigo - antigo porque a amizade, exposta à erosão, se reduziu a mero conhecimento - que as suas opiniões políticas haviam mudado radicalmente, e que disso só tomara consciência quando o seu velho mundo de afectos desabara. De marxista, considera-se hoje conservador.

Torna-se difícil racionalizar o desamor. A tomada de consciência do desamor pode ser brutal; porém, seria tolo pensar que deixamos de gostar brutalmente. Há, sim, um esvaziamento insidioso e silencioso, que mal se revela, mas explode subitamente. Há quem fuja psicologicamente do terrível momento em que se exige lavrar o atestado de morte da auto-representação que cada qual foi construindo. Estes rituais de morte e passagem para uma nova vida não deviam ser fonte de incómodo e mal estar, mas de alívio e apaziguamento. Não é, pois, necessário recorrermos ao Yi Jing para explicar a mudança do mundo político europeu. Aconteceu, mas estava a acontecer há muito, sem que a generalidade disso se tivesse apercebido. No passado domingo, acordaram subitamente. Ora, deviam ter sido mais sensíveis e ter prestado mais atenção à intuição que à razão.

28 maio 2014

Onde param os fascistas ?


Wolfgang Schäuble, o Torquemada das finanças europeias, definiu ontem a Frente Nacional de Marine Le Pen como "um partido fascista". Corrijamos. Se há um grande angariador de votos "fascistas" na Europa, esse será certamente Schäuble, cujo entendimento da acção governativa se reduz ao mais estrito barbarismo financeiro. 
Para lá da completa ausência de formação humanística - seria pedir muito a um homem de contas - Schäuble reuniria todas as condições para receber o apodo de fascista, conhecidas que são as suas posições belicistas (apoio à invasão do Iraque e da Líbia), as assunções liberticidas (defesa da manutenção de Guantanamo, defesa da detenção de suspeitos de terrorismo sem mandado, defesa entusiástica de políticas de reconhecimento biométrico) e, até, o apoio a práticas expeditas de repressão, tal como a eliminação de suspeitos de "terrorismo". 
Para mais, o pequeno ditador parece ter-se especializado no ataque a tudo e a quantos reclamem a defesa do interesse nacional dos Estados no processo de construção europeia. Não foi Schäuble quem ameaçou o Reino Unido de severas represálias, caso os britânicos persistissem em contrariar o sonho alemão da Europa ? Não são consabidos o profundo desprezo que vota aos "povos do sul" e a ideia de que a Europa é o Norte e o Centro, sendo que o Sul ali está apenas para lhe diminuir a riqueza, embotar a irradiação, mendigar-lhe favores imerecidos ? Quem é o fascista ?