10 maio 2014

A cultura agrilhoa


A cultura liberta, mas a cultura também agrilhoa. Há quem persista em exaltar a crença iluminista da libertação pela cultura. Nada de mais enganador. As pessoas mais intolerantes, mais fanáticas e perigosas que conheci ao longo da vida eram, quase todas, "pessoas cultas".


Goebbels, sem dúvida uma inteligência de excepção, muda abruptamente de semblante ao saber que o fotógrafo da Life (Alfred Eisenstaedt) era judeu. Lembro-me de um episódio infelicíssimo em que fui premiado com uma destas atitudes. Certo dia, convidado pelo Miguel Esteves Cardoso, participei num jantar de apoio à candidatura do MEC ao Parlamento Europeu. Sentaram-me numa mesa e tinha à minha frente o João Aguiar (que Deus o tenha). Após os protocolares apertos de mão, vi-o olhar fixamente para o cartão com o meu nome, que os promotores haviam colocado no lugar que me haviam destinado. Subitamente, o JA levantou-se, atirou o guardanapo para cima da mesa e pôs-se a vociferar, apontando para a mesa e repetindo "eu não me sento com gente desta". Era o tempo da Nova Monarquia e das terríveis perseguições contra nós movidas. Como um qualquer sacerdote brâmane, terá pensado que este pária lhe sujaria o bom nome.

08 maio 2014

Generais de orçamento

Mais de uma dezena de oficiais generais abandonou esta quarta-feira as instalações do Instituto de Estudos Superiores Militares (IESM) como sinal de protesto pela presença do ministro da Defesa, José Pedro Aguiar-Branco, no lançamento do último livro do general Loureiro dos Santos, "Reflexões sobre Estratégia VII - Tempos de crise". (...) "Os generais, todos eles na reserva ou na reforma, estavam presentes para a referida cerimónia, ao fim da tarde, mas deixaram a sala quando se aperceberam da chegada do ministro e de que ele poderia intervir, o que não chegou a acontecer". in Expresso, 6-5-2014

É evidente que os senhores generais na reforma - todos capitães por ocasião do 25 da Silva - não se preocupam com a modernização, com a operacionalidade e prontidão das FA's. Em Portugal, salvo raríssimas excepções, todas as revoltas castrenses são ditadas por questões bem menos nobres que a salvação da pátria. Eis, em síntese, o estado a que chegámos: a brigada do reumático dando por inegociáveis os cortes nas reformas e não querendo participar nos sacrifícios impostos aos restantes portugueses. Boa ética patriótica, sem dúvida.

05 maio 2014

Propagandas


O herói de Kiev. Há dois meses, o trepador de Kiev, então preparando-se para apear a bandeira russa do topo de um edifício, foi aplaudido pelas costumeiras sirenes da intoxicação como a face da nova geração de freedom fighters da democracia. Ora, eis hoje o valente escalador envergando o seu melhor uniforme de trabalho.