02 maio 2014

Getúlio Vargas: 60 anos do Brasil sem rumo


Cumprem-se em 2014 seis décadas sobre a morte de Getúlio Vargas. Pediu-me um amigo, docente numa universidade brasileira, que sobre Getúlio escrevesse umas linhas, destacando as similitudes (hoje muito contestadas) entre o Estado Novo de Vargas e o Estado Novo de Oliveira Salazar. Contentar-me-ei em enviar-lhe dentro de dias umas quantas linhas sobre as relações luso-brasileiras no período que medeia entre o pré-guerra e a primeira saída de Getúlio do poder, em 1945.

Quando, por força das perseguições hitlerianas, Stefan Zweig se estabeleceu no Brasil, foi tomado de verdadeiro entusiasmo por aquele país de dimensões continentais e riquezas inexauríveis que o condenavam ao melhor dos futuros. Em homenagem ao país-irmão, escreveria Brasil, País do Futuro. O entusiasmo de Zweig era claramente suscitado por Getúlio Vargas, estadista a quem o Brasil terá ficado a dever a finalização jurídica e administrativa do Estado, até então jugulado pelo apetite das oligarquias localistas. Autoritário e ditatorial na sua fase inicial (1930-45), Getúlio - que gozava de apoio popular incontestado - voltaria ao poder democraticamente em 1950. Foi graças a Getúlio que o Brasil, até aí uma enorme plantação de café e borracha, ascendeu à plena independência económica. A criação da siderurgia e, mais tarde da PETROBRAS, caboucos da industrialização em programa de nacionalismo desenvolvimentista, permitiriam àquele país furtar-se da colonização económica norte-americana. Se as grandes realizações materiais incluíram as obras públicas, a criação da indústria pesada, a rede hidroeléctrica, a agro-indústria e a mineração voltadas para o mercado mundial, nas realizações imateriais ou intangíveis poderão elencar-se o modelo de ensino aplicado, o estímulo à investigação científica e tecnológica, a criação de um corpo de quadros técnicos que dispensaram a ingerência da assessoria estrangeira. Vargas assinalou o caminho. Infelizmente, o Brasil parece não ter tido capacidade para acompanhar o visionarismo daquele homem de excepção. 

Perdeu-se o rumo, a racionalidade e, sobretudo, a voz de comando. De Getúlio parece só não terem gostado os paulistas, os integralistas e os comunistas: os paulistas, derrotados na Revolução de 1932, perderam o monopólio de poder que exerciam sobre o Estado desde a implantação da república; os integralistas de Plínio Salgado e os comunistas de Prestes por se lhes ter escapado a oportunidade de ouro para ali ensaiarem as respectivas utopias. Vargas foi o centro, o justo termo, congraçador de vontades, o protector dos pobres e o promotor de elites respeitadas e respeitadoras.

27 abril 2014

Não fugir da morte


Lembro-me que aqui louvei há tempos a dignidade com que Vasco Graça Moura se quis despedir do país que serviu. Fê-lo em acto público, como os romanos antigos, de sapatos calçados, de pé, sem queixumes, lágrimas ou a mais leve sombra de auto-comiseração. Na altura, muitos amigos afirmaram que não, que VGM estava para ficar, que era injusto convocar a proximidade do passamento. Sei que a generalidade dos cristãos, que deviam saber conviver com a certeza da morte - pois até a exaltam como passagem para a vida eterna - continuam aterrorizados perante o chamamento inevitável, demonstrando afinal que perante esse derradeiro mistério são pouco menos que pagãos. Para quem já conviveu com a morte e com a dor, esse momento final não se cerca dos terrores que angustiam os entusiastas da vida. Prepararmo-nos para a morte devia ser, pois, um dos pilares da educação de qualquer adulto. Sem isso, continuaremos sempre infantis. Por mim, não tenho qualquer medo. Medo é perder a dignidade. 

Neste dia em que VGM partiu, deixo-lhe como tributo de gratidão o mais belo poema de heroísmo. Vasco Graça Moura morreu como homem. Poucos o sabem fazer, sobretudo os falsos moralistas, os falsos combatentes, os falsos homens de "convicções".

Se

Se consegues manter a calma
quando à tua volta todos a perdem
e te culpam por isso.

Se consegues ter confiança em ti
quando todos duvidam de ti
e aceitas as suas dúvidas

Se consegues esperar sem te cansares por esperar
ou caluniado não responderes com calúnias
ou odiado não dares espaço ao ódio
sem porém te fazeres demasiado bom
ou falares cheio de conhecimentos

Se consegues sonhar
sem fazeres dos sonhos teus mestres

Se consegues pensar
sem fazeres dos pensamentos teus objectivos

Se consegues encontrar-te com o Triunfo e a Derrota
e tratares esses dois impostores do mesmo modo

Se consegues suportar
a escuta das verdades que dizes
distorcidas pelos que te querem ver
cair em armadilhas
ou encarar tudo aquilo pelo qual lutaste na vida
ficar destruído
e reconstruíres tudo de novo
com instrumentos gastos pelo tempo

Se consegues num único passo
arriscar tudo o que conquistaste
num lançamento de cara ou coroa,
perderes e recomeçares de novo
sem nunca suspirares palavras da tua perda.

Se consegues constringir o teu coração,
nervos e força
para te servirem na tua vez
já depois de não existirem,
e aguentares
quando já nada tens em ti
a não ser a vontade que te diz:
"Aguenta-te!"

Se consegues falar para multidões
e permaneceres com as tuas virtudes
ou andares entre reis e pobres
e agires naturalmente

Se nem inimigos
ou amigos queridos
te conseguirem ofender

Se todas as pessoas contam contigo
mas nenhuma demasiado

Se consegues preencher cada minuto
dando valor
a todos os segundos que passam

Tua é a Terra
e tudo o que nela existe
e mais ainda,
tu serás um Homem, meu filho!

Rudyard Kipling