06 março 2014

A Rússia, tão amiga de Portugal como a Grã-Bretanha


O "mundo russo", expressão vaga que remete para uma falsa ideia cunhada nos meados do século XIX - limite impreciso entre a Ásia e a Europa - persiste em semear a perplexidade entre os analistas ocidentais. Da Rússia, supostamente exterior à nossa (des)ordem civilizacional, teima-se em afirmar não pertencer ao Ocidente, ser inimiga do Ocidente e, até, ser mais "asiática" que europeia. É sabido que a intelligentsia russa cultiva do país um conjunto de ideias, antigas de quase dois séculos, de nacionalismo, eslavismo, pan-russismo e que desde Tolstoi e  Dostoievsky os ocidentais se tenham deixado inebriar pelo exótico, pelo misterioso e esfíngico carácter de uma cultura aparentemente incompatível com o ser e os modos das sociedades europeias atlânticas. Contudo, se atentarmos na acidentada história política russa, verificamos, não sem algum espanto, que desde o Dezembrismo (1825) - ou até antes, desde Catarina a Grande - a Rússia quer ser europeia, quer ser reconhecida como tal e pugna por um concerto dos Estados europeus. 

No que nos toca e para quem leu essa importante mas quase esquecida história das Relações entre Portugal e a Rússia no século XVIII, de Rómulo de Carvalho, tornou-se claro que deste o primeiro quartel do século XVIII a Rússia deixou de ser um mistério. A Rússia e Portugal mantêm relações diplomáticas desde 1776 e ali viveram ao longo de décadas largas dezenas de homens de negócios portugueses, animando relevante fluxo comercial que tantos lucros gerou. Ali, também, militares portugueses (Pamplona Corte-Real, Gomes Freire de Andrade, Caetano Teixeira e Sousa e tantos outros) assistiram os exércitos russos na guerras contra o Turco, deixando impressivo sulco nas reformas castrenses de Catarina II. Há dois anos, preparando o meu A Campanha da Rússia, solicitei à Academia Russa documentação desconhecida entre nós sobre a intensidade das relações entre Portugal e aquele império durante as guerras napoleónicas. Ali ficou demonstrado - e copiosamente posto em evidência - que entre S. Petersburgo e a Corte do Rio se manteve uma aliança leal no combate ao violento projecto de unificação da Europa por Napoleão e que, derrotado Napoleão, foi graças à Rússia que Portugal se sentou em Viena com todas as honras devidas a um Estado no pleno uso das suas faculdades soberanas.

Para Portugal, potência marítima agora reduzida à exiguidade de Estado-cliente de uma União Europeia que quase nos despreza, as relações com a Rússia são importantes; mais, constituem elemento de equilíbrio evitando a vassalização ou a manipulação ditada pela incapacidade de podermos contrariar a relação de forças existente. Ao longo das últimas semanas, entre os disparates seguidistas das Necessidades e os quase infantis protestos de lealdade aos EUA - que quase sempre nos recusaram qualquer papel na preservação da aliança euro-atlântica - ficou de manifesto exposto não existir nos corredores da nossa diplomacia nem na política externa portuguesa informação, bom-senso e inteligência requeridas para o saudável e necessário aprofundamento das boas relações de Portugal com a Federação Russa.