03 novembro 2014

Reis, ayatollahs e comunistas no Irão: nada de novo nos últimos 2000 anos




Dizia hoje um destes comentadeiros Rel. Int. de serviço que o Irão constitui um estranho caso, porquanto ali travou-se uma "atípica" luta sem quartel entre os fundamentalistas "totalitários" e "medievais", seguidores dos ayatollah's, e os militantes do partido comunista Tudeh. Terminou com o queixume à la carte do politicamente correcto: "os defensores da democracia e da economia de mercado parecem ainda minoritários". Surpreende-me que tais comentadeiros não se dêem ao trabalho de compulsar os sete volumes da The Cambridge History of Iran, a grande obra de referência editada desde a década de 60 pela insuspeita Cambridge. 
Ali poderiam, sem risco de emissão de cheques carecas, aperceber-se que no Irão a vida política sempre esteve polarizada entre o poder religioso, o poder régio e recorrentes explosões de violência popular.

O Xá Reza Pahlavi foi deposto pela acção conjugada da fronda dos Ayatollahs e da subversão armada do Partido Comunista. Nada de novo. No Irão antigo dos Partos e Sassânidas - ou seja, no Irão pré-islâmico - os sacerdotes mazdeístas disputaram o poder aos reis, sendo o chefe dos magos, primaz do Zoroastrismo, um fazedor e destruidor de reis apoiado pela nobreza regional. Por volta do século V da nossa era, apareceu um profeta chamado Mazdak, talvez um maniqueísta (seguidor de Maniqueu) cuja doutrina proclamava o total despojamento e a criação de uma sociedade igualitária assente na propriedade colectiva dos bens de produção. Este movimento, a que os historiadores com toda a propriedade crismam de "comunista", causou terríveis devastações entre a nobreza terra-tenente. Para pôr fim à anarquia, ressurgiu o poder arbitral do Shah-in-Shah (Rei de Reis, ou seja, imperador), que domesticou o clero mazdeísta, reduzindo-lhe o poder temporal, e suprimiu a revolta comunista.

Assim, o Irão do futuro não será certamente "liberal e democrático" à ocidental, mas uma monarquia que restabelecerá a preeminência do poder régio, compelindo a hierarquia xiíta às suas funções na esfera religiosa e impedindo o ressurgimento do Partido Comunista.

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