11 setembro 2014

A União Europeia, epifenómeno da independência escocesa


A Europa das Nações, que teve em De Gaulle um intransigente paladino, deixou de ter defensores. Lembro que, até à década de 80, a exaltação da Europa se fazia citando Coudenhove-Kalergi e Otto von Habsburgo. Tratava-se, bem entendido, de um ideal de fraternidade fundado no bom-senso e na necessidade da cooperação entre Estados fabricados pela história, mas ninguém questionava a diversidade, as tensões, os interesses por vezes divergentes dos Estados. Subitamente, ainda Maastricht não fora assinado, entrou de rompante a expressão "Europa dos cidadãos", logo acoplada à "Europa das regiões". Quando a actual União Europeia desvelou finalmente o seu rosto, todos compreendemos que o principal objectivo desta União era (e é) o de destruir os Estados. Para atingir tal objectivo, importava reescrever a história e até teorizar sobre a "acidentalidade" dos Estados ainda hoje existentes. Nasceu, assim, a teoria da inevitabilidade do ocaso do Estado-nação. Porém, antes que fosse lavrada certidão de nascimento do "povo europeu", importava partir os Estados nas suas especificidades endógenas, quebrando-lhes a unidade mercê do apontar das especificidades, dos regionalismos, dos micro-interesses. Aquilo a que se assiste na Escócia e na Catalunha, mas igualmente na Bélgica, na Córsega e em Itália é - aceitemos de barato - uma prodigiosa obra de engenharia que visa partir os Estados existentes, desagregá-los para, sobre os cacos, inventar a unidade e decretar a cidadania europeia. Só não vê quem não quer. Lamento que no PSD, no CDS e no PS ninguém se atreva questionar os respectivos líderes sobre o problema e que o debate sobre o lugar e o papel de Portugal na Europa não tenha lugar nas "universidades de verão" que tais partidos têm vindo o organizar neste fim de estação. No fundo, entre a mentira de uns e a cobardia de todos, o resultado é o mesmo: são todos cúmplices na destruição da nação portuguesa. Se amanhã o Algarve, a Madeira ou os Açores exigirem a tal "especificidade", já sabem. Depois não se queixem.

6 comentários:

Amélia Saavedra disse...

Certeiro... é a máxima "dividir para reinar"... e quanto aos partidos, já sabe... os partidos estão... partidos... e não unem, claro está, mas antes partem... e bem...

txticulos disse...

Os bávaros também estão interresados no referendo escocês
http://www.thelocal.de/20140910/why-some-bavarians-want-a-scottish-yes

Duarte Meira disse...

A Europa das Nações, que teve em De Gaulle um intransigente paladino,NÃO deixou de ter defensores: eu sou um deles e é precisamente em nome do princípio da auto-determinação das nacionalidades que saúdo os referendos à nação escocesa e catalã.

Se eles quiserem, espero que venham a ser um daqueles "Estados forjados pela História", de que fala. O direito a isso que teve o nosso português é o mesmíssimo direito que têm escoceses, catalães, corsos, flamengos e todos quantos se reconhecerem como entidade nacional (que não é o mesmo que "regiões"). E mesmo no caso destas, por que não? A Madeira e os Açores não tinham em 1975 bons motivos para ameaçar com a independência?...

De resto, o que o Miguel Castelo Branco diz sobre a "engenharia social" também não deixa de ter actual e pertinente razão de ser, mas isso tanto afecta as nações como as regiões. Não obstante, a tudo sobrepesa a questão de princípio que referi.

Lionheart disse...

Tem toda a razão. Em particular, já não há pachorra para aturar aquele nacionalismo escocês pacóvio. Só o sotaque daquela gente irrita profundamente. Nesta altura os ingleses já devem estar pela raiz dos cabelos, mas controlam-se para não espantar os outros. Mas se aquilo corre mal e o "Sim" ganha, ai, a casa vem abaixo. Depois seriam os ingleses a exigir a Cameron que não cedesse uma "polegada" à Escócia. Os escoceses não estão a ver bem as coisas, embora tenha havido políticos escoceses a alertar que as negociações para a independência seriam muito duras (ao contrário das balelas que o "Salmão" tem dito) por causa da má vontade na Inglaterra contra à Escócia.

E vejamos, a Escócia neste momento está na maior. Tem autonomia lá para as coisinhas deles, não tem que se preocupar com a Defesa e com a política externa, para o qual também nem tem nada a contribuir, por isso querer mais do que isto é uma idiotice. Para além de ficarem mais pobres como "independentes", os escoceses ainda teriam de levar com uma Inglaterra "inimiga". Basta recordar o que foi a história entre estes dois países antes da união no séc. XVIII.

Parece-me que o Não vai ganhar com algum conforto, até porque as últimas sondagens propiciaram o "esticão" que era preciso para mobilizar o eleitorado. O maior risco era que se a participação fosse modesta, o Sim poderia ganhar por falta da comparência desejada dos unionistas, já que quem quer a mudança está sempre mais mobilizado. Aí depois queria ver como é que eles descalçavam a bota...

Já a Catalunha é um caso mais complicado e aqui curiosamente a Merkel até se pronunciou recentemente contra a independência desta região, quando visitou a Espanha. Claro que os alemães podem dizer uma coisa em público e fazer outra em privado. Pelo menos tinham a fama de financiar os partidos regionais na Reino Unido e na Espanha, como o SNP e a CiU, não sei. Mas 2 milhões de pessoas nas ruas de Barcelona é muita gente. Ali a população deve ser claramente pela independência.

Bmonteiro disse...

«um ideal de fraternidade fundado «um ideal de fraternidade fundado no bom-senso»
Ausente em parte incerta.
Quando o rei vai nu, aclamado pela plebe.
“O fim do Império Romano»
« O lento declínio da superpotência»
Adrian Goldsworthy
“Prefácio”
A Grã-Bretanha tem sido um lugar deprimente nesta última década. Ministros incompetentes, corruptos ou descaradamente falsos agarram-se ao poder como lapas, inicialmente negando tudo, e por fim pedindo desculpas e esperando que isso seja suficiente.
A burocracia e a regulamentação continuam a crescer depressa, enquanto a eficiência básica das instituições decresce, tornando-as incapazes de resolver as tarefas aparentemente mais simples.
O tom arrogante de muita legislação governamental condiz certamente com os decretos
imperiais do Período Romano Tardio.
PS: assim vai o senso das europas.

zazie disse...

Completamente certo