31 maio 2014

Desamor

Atribui-se um valor excessivo à coerência, sem que muitas vezes nos demos conta que a mudança acontece em tudo e que nós mesmos não somos quem éramos há meses, anos ou décadas atrás. Dizia-me ontem um antigo amigo - antigo porque a amizade, exposta à erosão, se reduziu a mero conhecimento - que as suas opiniões políticas haviam mudado radicalmente, e que disso só tomara consciência quando o seu velho mundo de afectos desabara. De marxista, considera-se hoje conservador.

Torna-se difícil racionalizar o desamor. A tomada de consciência do desamor pode ser brutal; porém, seria tolo pensar que deixamos de gostar brutalmente. Há, sim, um esvaziamento insidioso e silencioso, que mal se revela, mas explode subitamente. Há quem fuja psicologicamente do terrível momento em que se exige lavrar o atestado de morte da auto-representação que cada qual foi construindo. Estes rituais de morte e passagem para uma nova vida não deviam ser fonte de incómodo e mal estar, mas de alívio e apaziguamento. Não é, pois, necessário recorrermos ao Yi Jing para explicar a mudança do mundo político europeu. Aconteceu, mas estava a acontecer há muito, sem que a generalidade disso se tivesse apercebido. No passado domingo, acordaram subitamente. Ora, deviam ter sido mais sensíveis e ter prestado mais atenção à intuição que à razão.