27 abril 2014

Não fugir da morte


Lembro-me que aqui louvei há tempos a dignidade com que Vasco Graça Moura se quis despedir do país que serviu. Fê-lo em acto público, como os romanos antigos, de sapatos calçados, de pé, sem queixumes, lágrimas ou a mais leve sombra de auto-comiseração. Na altura, muitos amigos afirmaram que não, que VGM estava para ficar, que era injusto convocar a proximidade do passamento. Sei que a generalidade dos cristãos, que deviam saber conviver com a certeza da morte - pois até a exaltam como passagem para a vida eterna - continuam aterrorizados perante o chamamento inevitável, demonstrando afinal que perante esse derradeiro mistério são pouco menos que pagãos. Para quem já conviveu com a morte e com a dor, esse momento final não se cerca dos terrores que angustiam os entusiastas da vida. Prepararmo-nos para a morte devia ser, pois, um dos pilares da educação de qualquer adulto. Sem isso, continuaremos sempre infantis. Por mim, não tenho qualquer medo. Medo é perder a dignidade. 

Neste dia em que VGM partiu, deixo-lhe como tributo de gratidão o mais belo poema de heroísmo. Vasco Graça Moura morreu como homem. Poucos o sabem fazer, sobretudo os falsos moralistas, os falsos combatentes, os falsos homens de "convicções".

Se

Se consegues manter a calma
quando à tua volta todos a perdem
e te culpam por isso.

Se consegues ter confiança em ti
quando todos duvidam de ti
e aceitas as suas dúvidas

Se consegues esperar sem te cansares por esperar
ou caluniado não responderes com calúnias
ou odiado não dares espaço ao ódio
sem porém te fazeres demasiado bom
ou falares cheio de conhecimentos

Se consegues sonhar
sem fazeres dos sonhos teus mestres

Se consegues pensar
sem fazeres dos pensamentos teus objectivos

Se consegues encontrar-te com o Triunfo e a Derrota
e tratares esses dois impostores do mesmo modo

Se consegues suportar
a escuta das verdades que dizes
distorcidas pelos que te querem ver
cair em armadilhas
ou encarar tudo aquilo pelo qual lutaste na vida
ficar destruído
e reconstruíres tudo de novo
com instrumentos gastos pelo tempo

Se consegues num único passo
arriscar tudo o que conquistaste
num lançamento de cara ou coroa,
perderes e recomeçares de novo
sem nunca suspirares palavras da tua perda.

Se consegues constringir o teu coração,
nervos e força
para te servirem na tua vez
já depois de não existirem,
e aguentares
quando já nada tens em ti
a não ser a vontade que te diz:
"Aguenta-te!"

Se consegues falar para multidões
e permaneceres com as tuas virtudes
ou andares entre reis e pobres
e agires naturalmente

Se nem inimigos
ou amigos queridos
te conseguirem ofender

Se todas as pessoas contam contigo
mas nenhuma demasiado

Se consegues preencher cada minuto
dando valor
a todos os segundos que passam

Tua é a Terra
e tudo o que nela existe
e mais ainda,
tu serás um Homem, meu filho!

Rudyard Kipling

2 comentários:

Álvaro Queirós disse...

vou partilhar,,, obrigado.

Maria disse...

Vasco Graça Moura no seu campo d'acção foi um Herói. Além do ilustre escritor, tradutor e poeta de primeiríssima água, defendeu intransigentemente a Língua Portuguesa, enfrentando os seus adulteradores que mais não são do que traidores à Pátria. Fê-lo com desusada Valentia e não poucas vezes contra-atacou os seus detractores com exacerbado vigor porém justo porque demonstrativo do seu elevado Patrotismo. Que Deus o tenha em descanso.

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O poema "IF" é lindíssimo. Mas aqui permito-me salientar um pormenor, ele é tanto mais belo quanto a sua leitura seja feita na língua que lhe deu origem (mesmo em francês, ainda que muito bonito, perde algo do seu valor, embora menos do que em português) apenas e só porque a tradução retira-lhe a profundidade que só aquela consegue transmitir ao revelar a essência nele contida.