14 janeiro 2014

Maquiavel chinês para politólogos portugueses


Maquiavel e Hobbes parecem esgotar as referências dos nossos politólogos e historiadores das ideias sempre que se impõe uma reflexão sobre o exercício do poder autoritário - do Príncipe ou do Estado - e sempre que se procura definir o pensamento realista por oposição a outras formulações decantadas a partir da ética. Simplificados injustamente, Hobbes e Maquiavel possuem, contudo, uma espessura e legibilidade muito mais complexa, prevalecendo a tendência para omitir a restante obra dos dois autores. O estudo das ideias políticas continua, infelizmente, muito limitado no tempo e no espaço, tributária de uma tradição intelectual ocidental que persiste em confundir o Ocidente com o mundo, e que só raramente abre mão desse complexo de superioridade para autorizar - à falta de correspondente ocidental - um ou outro texto clássico chinês, indiano ou árabe. Entre estes, o Livro da Guerra, de Sun Tzu, só ganhou aceitação académica em finais do século XX, sobretudo quando aplicado à análise da gestão estratégica. 

É pouco, muito pouco, pois as tradições teóricas chinesa e indiana, talvez mais ricas, variadas e fecundas que a Ocidental, continuam por traduzir, estudar e comparar. Vem isto a propósito de uma obra magna, já conhecida no Ocidente desde 1928, mas raramente glosada nos compêndios de Ciência Política. O Livro do Príncipe Chang (ou Chang), tem conhecido traduções de eminentes sinólogos, havendo discrepâncias entre as várias versões disponíveis, pois se umas procuram a tradução literal - muito difícil, posto o carácter metafórico do chinês poético Antigo - outras, mais simplificadas, dão primazia às ideias nela contidas. Possuo a versão de Jean Lévi, mas consultei também a de Duyvendak, surgindo a primeira como mais relevante para o escopo da reflexão dos politólogos.

Obra de actualidade chocante, escrita há mais de dois mil anos por um obscuro letrado, tão falhado como Maquiavel na sua carreira, O Livro do Príncipe Shang - ou simplesmente Shang Yang - constituiu um verdadeiro catálogo do modus operandi do governante bem sucedido, confiscando o ambíguo direito de se poder arrogar a fundador da primeira teoria científica da manipulação de massas, do exercício do poder pelo terror, da supressão da capacidade intelectual reactiva, do policiamento e denúncia como importante trave da governação, dos campos de concentração e/ou de trabalho, da exportação da conflitualidade interna pela guerra externa...

A ler, pois, e a integrar urgentemente na bibliografia destinada aos futuros polítologos.

1 comentário:

António Bettencourt disse...

Muito obrigado pela indicação. Desconhecia. Já o consegui tirar da net e já dei uma vista de olhos. Parece-me muito interessante.