11 novembro 2014

O "palácio de Erdogan"

Para a psicologia burguesa, que tudo converte em negócio, a construção de palácios é manifestação de megalomania. Não nos esqueçamos que o ódio contra as monarquias se construiu com esse tipo de argumentos filhos do despeito. Contudo, se conhecermos minimamente a tradição edificadora dos regimes que acreditam numa dimensão superior da governação - e nesses incluo os regimes tradicionais europeus anteriores a 1789 - a edificação de "palácios" não tinha por objectivo o usufruto desses edifícios pelos seus ocupantes. Mais, no Oriente, quer nos países tributários da herança indiana, quer nos Estados islâmicos, a construção de tais monumentos constitui uma deferência para com as populações da região/província/cidade onde são edificados. O Rei da Tailândia tem casa em cada uma das 76 (setenta e seis) províncias. Em Portugal, tal também acontecia, havendo paços reais em Lisboa, Sintra, Mafra, Évora, Santarém, Portalegre, Leiria, Coimbra, Guimarães, etc. Os célebres "palácios" de Saddam era, assim, afirmações de proximidade do autocrata e não, como presumem os comedores de hambúrgueres, um insulto ao seu povo. Há que começar a ler e parar, de vez, com estas indignidades que só ficam mal a quem as escrevinha.

04 novembro 2014

A "sífilis" de Dom Luís ou de médico e louco, todos temos um pouco



Hoje, ao sair de casa, recebi o Destak. Para além de publicidade, aquele que poderia ser um jornalinho formativo, oferece pouco mais que sumário noticiário requentado; um verdadeiro desperdício de papel, ofendendo a consciência ambientalista de qualquer um.

Ora, entre a frioleira ali estampada, vinha um textinho sobre o último livro de Paulo Drumond Braga - que até tem obra interessante e séria - sobre as doenças dos nossos reis. Diz o Doutor Braga de forma apodítica ter falecido Dom Luís em consequência da sífilis. Não havendo nosografias de D. Luís, interroguei-me sobre a pertinência de tal atrevimento. Sabemos que a sífilis terciária, último estádio da doença, se caracteriza pela exibição de padecimentos insusceptíveis de ocultação, tais como, cegueira, dermafitoses, paralisia, espasmos e até loucura. O diagnóstico feito pelo Doutor Braga - que eu saiba não pode exercer medicina, pois não é médico - contraria todas as evidências. Dom Luís, que sofria de cancro na bexiga, deslocou-se à Europa em busca de tratamento. No decurso dessa longa digressão, sofrendo dores lancinantes, não deixou de oferecer a sua presença a todas as homenagens que lhe foram prestadas, dando provas de enorme coragem e presença de espírito. Outra prova que refuta liminarmente a suspeita de sífilis foi-nos dada por Fialho de Almeida, que era médico e (ainda) republicano. Dias após o falecimento do Rei, Fialho escreveu um texto (republicado pelo meu pai há duas décadas) que não alude a qualquer vestígio de sífilis. Fialho era médico e republicano, pelo que não teria deixado de sugerir a causa do óbito. Intrigado, folheei as causas da morte dos reis de Portugal, de Montalvão Machado, não havendo ali a mais leve alusão. Assim, depreendo tratar-se de inverdade que pretende assentar arraiais de verdade histórica. Não ceder ao sensacionalismo parece ser, pois, ponto de honra deontológico para qualquer historiador. Infelizmente, não foi o caso.

03 novembro 2014

Reis, ayatollahs e comunistas no Irão: nada de novo nos últimos 2000 anos




Dizia hoje um destes comentadeiros Rel. Int. de serviço que o Irão constitui um estranho caso, porquanto ali travou-se uma "atípica" luta sem quartel entre os fundamentalistas "totalitários" e "medievais", seguidores dos ayatollah's, e os militantes do partido comunista Tudeh. Terminou com o queixume à la carte do politicamente correcto: "os defensores da democracia e da economia de mercado parecem ainda minoritários". Surpreende-me que tais comentadeiros não se dêem ao trabalho de compulsar os sete volumes da The Cambridge History of Iran, a grande obra de referência editada desde a década de 60 pela insuspeita Cambridge. 
Ali poderiam, sem risco de emissão de cheques carecas, aperceber-se que no Irão a vida política sempre esteve polarizada entre o poder religioso, o poder régio e recorrentes explosões de violência popular.

O Xá Reza Pahlavi foi deposto pela acção conjugada da fronda dos Ayatollahs e da subversão armada do Partido Comunista. Nada de novo. No Irão antigo dos Partos e Sassânidas - ou seja, no Irão pré-islâmico - os sacerdotes mazdeístas disputaram o poder aos reis, sendo o chefe dos magos, primaz do Zoroastrismo, um fazedor e destruidor de reis apoiado pela nobreza regional. Por volta do século V da nossa era, apareceu um profeta chamado Mazdak, talvez um maniqueísta (seguidor de Maniqueu) cuja doutrina proclamava o total despojamento e a criação de uma sociedade igualitária assente na propriedade colectiva dos bens de produção. Este movimento, a que os historiadores com toda a propriedade crismam de "comunista", causou terríveis devastações entre a nobreza terra-tenente. Para pôr fim à anarquia, ressurgiu o poder arbitral do Shah-in-Shah (Rei de Reis, ou seja, imperador), que domesticou o clero mazdeísta, reduzindo-lhe o poder temporal, e suprimiu a revolta comunista.

Assim, o Irão do futuro não será certamente "liberal e democrático" à ocidental, mas uma monarquia que restabelecerá a preeminência do poder régio, compelindo a hierarquia xiíta às suas funções na esfera religiosa e impedindo o ressurgimento do Partido Comunista.

23 setembro 2014

Trabalho de prontuário, de fonética e de enciclopédia precisa-se


Há duas semanas, o nosso Primeiro-Ministro, no discurso de encerramento da universidade de verão do PSD, afirmou que o tempo da "autárcia" (sic) havia terminado. Vá lá, não ter dito autarquia parece denotar algum domínio conceptual, mas acusa falta de convívio com as regras da fonética, não conseguindo operar o raciocínio analógico de democracia (e não democrácia), de gerontocracia (e não gerontocrácia), anarquia (e não anárquia). Não foi, pois, um erro palmar, mas podia ser evitado. 

Nuno Rogeiro, no interessante programa semanal que anima com Martim Cabral, referia-se aos "dignatários" (em vez de dignitários), parecendo não fazer a associação entre dignitário e dignidade. Tratou-se de um erro de simpatia que exige correcção tout court. 

Hoje, Adriano Alves Moreira, na crónica que assina no DN, alude à singularidade dos micro-Estados, nomeadamente o "Arquiducado" do Luxemburgo. Neste particular, trata-se de um erro de informação secundário, dado o Luxemburgo ser um Grão-Ducado ( Großherzogtum) e não um Arquiducado (Erzherzogtum); erro menor, sem dúvida bem menor que o cometido, por exemplo, por um excelente académico português, o Professor Veríssimo Serrão, que num dos últimos volumes da sua História de Portugal aludia às relações entre Portugal e a "República do Canadá". 

É evidente que todos erramos e que as pessoas referidas se situam naquele grupo restrito e culto com obrigações e responsabilidades acrescidas na formação de públicos. Não cabe apenas à escola e aos consultórios da língua reparar faltas e erros no manuseio da língua. Cabe a cada um armar-se das maiores cautelas e evitar semear o erro. O erro assume características virais: uma vez propagado, espalha-se incontrolavelmente.

11 setembro 2014

A União Europeia, epifenómeno da independência escocesa


A Europa das Nações, que teve em De Gaulle um intransigente paladino, deixou de ter defensores. Lembro que, até à década de 80, a exaltação da Europa se fazia citando Coudenhove-Kalergi e Otto von Habsburgo. Tratava-se, bem entendido, de um ideal de fraternidade fundado no bom-senso e na necessidade da cooperação entre Estados fabricados pela história, mas ninguém questionava a diversidade, as tensões, os interesses por vezes divergentes dos Estados. Subitamente, ainda Maastricht não fora assinado, entrou de rompante a expressão "Europa dos cidadãos", logo acoplada à "Europa das regiões". Quando a actual União Europeia desvelou finalmente o seu rosto, todos compreendemos que o principal objectivo desta União era (e é) o de destruir os Estados. Para atingir tal objectivo, importava reescrever a história e até teorizar sobre a "acidentalidade" dos Estados ainda hoje existentes. Nasceu, assim, a teoria da inevitabilidade do ocaso do Estado-nação. Porém, antes que fosse lavrada certidão de nascimento do "povo europeu", importava partir os Estados nas suas especificidades endógenas, quebrando-lhes a unidade mercê do apontar das especificidades, dos regionalismos, dos micro-interesses. Aquilo a que se assiste na Escócia e na Catalunha, mas igualmente na Bélgica, na Córsega e em Itália é - aceitemos de barato - uma prodigiosa obra de engenharia que visa partir os Estados existentes, desagregá-los para, sobre os cacos, inventar a unidade e decretar a cidadania europeia. Só não vê quem não quer. Lamento que no PSD, no CDS e no PS ninguém se atreva questionar os respectivos líderes sobre o problema e que o debate sobre o lugar e o papel de Portugal na Europa não tenha lugar nas "universidades de verão" que tais partidos têm vindo o organizar neste fim de estação. No fundo, entre a mentira de uns e a cobardia de todos, o resultado é o mesmo: são todos cúmplices na destruição da nação portuguesa. Se amanhã o Algarve, a Madeira ou os Açores exigirem a tal "especificidade", já sabem. Depois não se queixem.

28 agosto 2014

O Paraíso não é uma orgia: as virgens do paraíso islâmico

Correm pela net centos de vídeos alusivos ao tema. Trata-se, na maioria dos casos, de traduções intencionalmente falsificadas, algumas de claro conteúdo libidinoso destinadas a fazer crer que os Houri (companheiros e companheiras) prometidos por Alá aos mártires e aos que entraram no Paraíso se destinam a satisfazer a volúpia sexual. Ora, as suras corânicas referem-se a esses seres de forma respeitosa e cortês, pondo de relevo as suas qualidades de pureza, virgindade, inteligência e erudição; nunca aludindo a qualquer forma de sexualidade.

Naturalmente, a segunda natureza do texto - a alegórica - socorre-se do elogio às prendas físicas (beleza, olhos redondos, perfeição física) para dar relevo às qualidades espirituais desses seres. O paraíso de Alá não é, pois, um serralho, um lupanar ou uma orgia. O paraíso islâmico é um jardim verde, sossegado e harmonioso.Outro tema relacionado é o do estatuto das mulheres. Se as mulheres do tempo (terrenas) são temidas pelo seu "espírito vazio" e pelo erotismo, as huris (seres paradisíacos) são honradas (i.e. virgens), racionais, instrumentos de Deus e não beneficiando dos prazeres corporais. 

Há que ter tino e alguma elevação, evitando o despenhadeiro no reles. Infelizmente, a generalidade das pessoas compraz-se com o rasca. O tema é tão indecente para os muçulmanos como os centos de estórias a respeito da "vida sexual" de Jesus de Nazaré e dos "filhos" que teve de Maria Madalena. 

Ver: Hamz, Livro do Amor, III, 7.

31 julho 2014

Os nacionalistas das causas alheias

As últimas semanas tornaram notória a existência entre nós de um ardoroso nacionalismo de novo tipo: o nacionalismo das causas alheias. Exaltar Portugal, defender o seu ser e destinação, a sua liberdade, auto-determinação e independência é crime. Contudo, pelo que me apercebo - à esquerda, à direita e ao centro - é lícito, conveniente e angariador de bom nome terçar armas por outros. Pelo que também me é dado ver, há entre nós mais nacionalistas israelitas que patriotas portugueses, mais fedayin palestinos que lutadores por Portugal, mais estrénuos batalhadores pela União Europeia que orgulhosos portugueses. Eu compreendo que em tempos de crise muitos andem em busca de poiso, tudo fazendo para merecer umas migalhas caídas da mesa dos banqueteadores das causas milionárias. É tudo uma questão de bandeiras e de estipêndio. Curioso que no meio de tanta algazarra não me tenha apercebido de "luso-nacionalistas Curdos", de "luso-nacionalistas Rohingya", de "luso-nacionalistas malianos" ou de "luso-nacionalistas Caxemires". Pois, não pinga nada dessas pobres causas. Defender Portugal acarreta problemas. É politicamente sensível. Onde estão os luso-nacionalistas das causas alheias insurgindo-se contra o tratamento de Estado-vassalo concedido pela UE a Portugal ? Onde estão os luso-nacionalistas das causas alheias rebelando-se contra os comissários europeus que aqui são recebidos com grinaldas, com o pão e o sal concedido aos governadores de uma província imperial ? Assim vai o povo português, frivolizado, confuso, tele-dirigido e indigno rumo à escravatura. Caladinhos, amedrontados, respeitadores do chicote, salivadores pela cenoura; assim fiquem, ardorosos portugueses, pois nada se espera de vós. Pois é, lá está o Miguel a dizer "coisas daquelas que tornam impossível metê-lo em qualquer grupo".


19 julho 2014

Ainda somos independentes ?

Ouvi esta noite uma senhora, eurodeputada pelo PS, exaltada pela sua putativa elevação a Comissária dessa coisa que dá pelo nome de União Europeia. Dela, não ouvi uma só vez a palavra Portugal. Quando se referia a Portugal, fazia-o com quase dor, como se de algo secundário se tratasse numa ordem superior a que chama de Europa. Foi um interminável solilóquio de "patriotismo europeu". Esta gente está, positiva e animicamente, empenhada em destruir o que resta do Estado soberano. Querem-nos impor uma nova ideia de Estado. Podemos dizer que há Estado, quando este goza de soberania. Assim, o Estado soberano goza de soberania porque está sobre tudo e tem como atributos a plenitude, a permanência e a independência. Contudo, o Estado não é resultado nem de um contrato escrito, nem de um estado de alma. O Estado possui um fundo ôntico, sai do carácter de um povo que quis ser nação, tem uma dimensão espiritual, cultural, afectiva antes de ser um mero ordenamento jurídico. Ora, essa coisa a que chamam de União Europeia - que não é união nem é europeia - trata de substituir a soberania do nosso povo feito Estado num enunciado de leis, regulamentos, instituições. Esse "Estado" que nos querem impor - com a aprovação de todos os nossos eurodeputados, do Bloco ao CDS - é o anti-Estado, é uma imposição, viola a nossa história, viola o nosso carácter. É, tenhamos coragem de o dizer, uma tirania. Onde estão os portugueses de lei e de sentimento para contrariar este movimento que nos leva ao suicídio ?

08 julho 2014

Expliquem-me os génios anti-função pública

Não há dia em que não ouça catilinárias contra o funcionalismo do Estado. Há quem atribua a insustentabilidade financeira do Estado aos funcionários. Trata-se, obviamente, de enviezamento e de má-fé alimentada por parti-pris ideológico. O Estado português dá emprego a c. de 12% da população activa - na média dos números da OCDE - e congelou há muito a entrada de novos funcionários. Ora, dos 70 mil milhões resultantes da receita fiscal, 38 mil milhões o Estado nem os vê, posto destinarem-se ao pagamento de reformas e pensões da segurança social. Assim, dos 70 mil milhões iniciais, remanescem 32 mil milhões que transitam para Orçamento de Estado e para pagamento dos juros da dívida. Destes 32 mil milhões, 60% destinam-se a gastos dos ministérios e serviços e 40% a gastos com vencimentos dos servidores do Estado. Assim, o funcionalismo público será "responsável" pelo consumo de 1/5 a 1/6 do total da riqueza resultante da colecta de impostos. Pouco, muito pouco. Chega, meus caros, de massacrar os funcionários do Estado e de transformar em inimigos da governação quem aplica as políticas da coligação.
Começo a ficar farto de ouvir ataques vindos de pessoas que nunca trabalharam na vida.

04 julho 2014

CDS sem Portas

1. Corre insistentemente nos jornais o rumor da iminente saída de Portas da direcção do CDS-PP e sua eventual substituição por Pedro Mota Soares, Assunção Cristas ou Nuno Melo. Três figuras simpáticas não fazem um partido. A acontecer, vaticinamos, respectivamente, 3%, 4% e 5% para o partido. Pior, se a oposição interna ideologicamente mais estruturada cometesse a imprevidência de correr à liderança, talvez saísse um partido mais coerente e arrumado nas ideias, mas nunca maior que o célebre "partido do táxi" saído das eleições de 1987. No pior, como no melhor, Portas é o PP e nos tempos que correm jogos e apostas em roleta russa - com o revólver com cinco munições - a probabilidade de morte é de 80%.No jogo político, o factor determinante é a existência ou inexistência de carisma. Não me parece, sinceramente, que exista fogo, gabarito e capacidade de arrastamento pelo verbo capaz de ocupar o lugar de Portas.

2. No que ao "vazio doutrinal" respeita, concordo com algumas objecções feitas ao método de navegação à vista seguido pela direcção. Contudo, se seria importante que PP voltasse às suas performances criativas do passado, mais interessante seria de esperar que a oposição à actual direcção do partido apresentasse alternativas e orientações claras. O que tenho visto em algumas agendas é pouco, é pobre e, sobretudo redutor e até perigoso, nomeadamente a agenda "pela vida". Dir-se-ia que, para alguns, o PP se deveria especializar em programas "anti-fracturantes", ou seja, num anti-Bloco de Esquerda. Não me parece, salvo por ausência de formação cultural e de mundo, que um partido se transforme em liga de "bons costumes" e seminário. Para isso existe a Conferência Episcopal Portuguesa.

02 julho 2014

A França brincando à justiça

Nicolas Sarkozy foi detido ontem de manhã em resultado de mais um escândalo de ilegalidades cometidos durante a passagem da criatura pelo Eliseu. Que se saiba, de Gaulle era um homem probo no que concernia a tentações venais. O seu sucessor iniciou a espiral da promiscuidade entre a alta finança internacional e o interesse do Estado - ou não fora Pompidou o mais alto dirigente do grupo Rotschild ? - e, logo, Giscard aumentou a parada (os diamantes de Bokassa), para sob Chirac a presidência se converter em seguro de inimputabilidade, imunidade e intocabilidade para o presidente e seus esbirros. No interim, Mitterrand ordenou ou permitiu que se cometessem crimes de sangue. O seu sinistro consulado aguarda momento favorável para que se franqueiem os documentos dos serviços secretos, mas os indícios são tão terríveis quanto indignos. Sarkozy, esse, terá sido, talvez, a mais insignificante, voraz, impreparada e venal figura de arrivista que se sentou no sólio presidencial. Com ele, a dignidade da função desceu às vísceras. Borsalino no Eliseu, eis a imagem que melhor se cola a Sarkozy. Para quando a radical mudança de regime que permita à França recobrar o seu papel no concerto das nações ocidentais ?

A batalha semântica de um regime sem-vergonha

Os tribunais acusam-no de corrupção, os advogados contrariam, alegando tratar-se de "tráfico de influências". Mais, na batalha que agora se inicia, queixam-se os juristas da excessiva dureza no tratamento conferido a Sarkozy - que incluiu mandado de detenção seguido de interrogatório - medida que contrasta com outros casos análogos (vide Chirac). É evidente que Sarkozy merece tratamento igual ao de qualquer outro cidadão. Contudo, parece-nos claro que há uma diferença entre a personagem e um vulgar cidadão, tanto mais que Sarkozy parece ter cometido todos estes agravos legais no exercício das funções. Para a UMP, tratou-se de um vexame. Pergunto: se esta gente se considera inimputável, acima da lei, habituada a um regime de excepção - assim o garante a lei de bronze da oligarquia - como se sentirão os cidadãos normais, sem influências, sem meios e sem conhecimentos ? A república francesa, sabíamo-lo há muito, pode ser, com toda a propriedade, considerada uma oligarquia. Os regimes oligárquicos caracterizam-se pela desigualdade de oportunidades, pela repetida prática da discriminação positiva que beneficia os apparatchik, pela confusão entre entre os interesses da casta dominante e o interesse do Estado, pelo fisiologismo irrefreável, pela tomada do aparelho do Estado para fins que contrariam o interesse colectivo. 
Vai o caso Sarkozy terminar na barra dos tribunais ? Não, não vai nem pode, pois o regime - todo o regime, da UMP-PS aos turiferários da esquerda - não pode correr o risco de ser exposto nas suas imposturas.

31 maio 2014

Desamor

Atribui-se um valor excessivo à coerência, sem que muitas vezes nos demos conta que a mudança acontece em tudo e que nós mesmos não somos quem éramos há meses, anos ou décadas atrás. Dizia-me ontem um antigo amigo - antigo porque a amizade, exposta à erosão, se reduziu a mero conhecimento - que as suas opiniões políticas haviam mudado radicalmente, e que disso só tomara consciência quando o seu velho mundo de afectos desabara. De marxista, considera-se hoje conservador.

Torna-se difícil racionalizar o desamor. A tomada de consciência do desamor pode ser brutal; porém, seria tolo pensar que deixamos de gostar brutalmente. Há, sim, um esvaziamento insidioso e silencioso, que mal se revela, mas explode subitamente. Há quem fuja psicologicamente do terrível momento em que se exige lavrar o atestado de morte da auto-representação que cada qual foi construindo. Estes rituais de morte e passagem para uma nova vida não deviam ser fonte de incómodo e mal estar, mas de alívio e apaziguamento. Não é, pois, necessário recorrermos ao Yi Jing para explicar a mudança do mundo político europeu. Aconteceu, mas estava a acontecer há muito, sem que a generalidade disso se tivesse apercebido. No passado domingo, acordaram subitamente. Ora, deviam ter sido mais sensíveis e ter prestado mais atenção à intuição que à razão.

28 maio 2014

Onde param os fascistas ?


Wolfgang Schäuble, o Torquemada das finanças europeias, definiu ontem a Frente Nacional de Marine Le Pen como "um partido fascista". Corrijamos. Se há um grande angariador de votos "fascistas" na Europa, esse será certamente Schäuble, cujo entendimento da acção governativa se reduz ao mais estrito barbarismo financeiro. 
Para lá da completa ausência de formação humanística - seria pedir muito a um homem de contas - Schäuble reuniria todas as condições para receber o apodo de fascista, conhecidas que são as suas posições belicistas (apoio à invasão do Iraque e da Líbia), as assunções liberticidas (defesa da manutenção de Guantanamo, defesa da detenção de suspeitos de terrorismo sem mandado, defesa entusiástica de políticas de reconhecimento biométrico) e, até, o apoio a práticas expeditas de repressão, tal como a eliminação de suspeitos de "terrorismo". 
Para mais, o pequeno ditador parece ter-se especializado no ataque a tudo e a quantos reclamem a defesa do interesse nacional dos Estados no processo de construção europeia. Não foi Schäuble quem ameaçou o Reino Unido de severas represálias, caso os britânicos persistissem em contrariar o sonho alemão da Europa ? Não são consabidos o profundo desprezo que vota aos "povos do sul" e a ideia de que a Europa é o Norte e o Centro, sendo que o Sul ali está apenas para lhe diminuir a riqueza, embotar a irradiação, mendigar-lhe favores imerecidos ? Quem é o fascista ?

21 maio 2014

Austrália: achamento português


A descoberta da Austrália foi o tema da conferência hoje produzida por Luís Filipe Tomás na Biblioteca Nacional de Portugal. A polémica sobre o achamento do continente Austral pelos portugueses no século XVI mantém-se viva. Um cone de penumbra continua a persistir em torno do tema, cone que não é de luz pois não há qualquer prova documental, mas que também não é de sombra. Alguns, precipitadamente, atribuíram o feito a Cristóvão de Mendonça. Tomás provou que Mendonça não o pudera realizar, pois na data avançada por alguns historiógrafos encontrava-se a caminho de Cochin, vindo de Malaca. Ganha consistência a tese, segundo a qual o achamento se terá ficado a dever, não a um representante da Coroa, mas a um ou mais dos muitos comerciantes de sândalo que demandavam Timor todos anos para aprovisionamento dessa madeira preciosa. O achamento terá sido múltiplo, não se tendo os portugueses interessado por essa "terra incógnita" - já presente na cartografia de então como situada a Sul de Java Maior (Sumatra) e Java Menor (Java) - pois, potência mercantil em regime de capitalismo régio, a Portugal só interessava abrir mercados receptivos a trocas comerciais. Na Austrália, como lembrou Tomás, os povos que a habitavam - rudes, nus e primitivos - não ofereciam quaisquer condições para a realização de negócios e cabedais. 
Num exercício de erudição sobre cartografia antiga, Tomás demonstrou que a chegada dos portugueses à Austrália era incontornável, apresentando cartas produzidas pela escola cartográfica de Dieppe, que desde a década de 1530 passou a referir-se insistentemente ao continente Austral, que então se pensava alargar por todo o Índico Sul, até ao extremo sul de África.

20 maio 2014

Confusões "tradicionalistas"


Dou-me conta que alguns caríssimos amigos "tradicionalistas" persistem em usar conceitos inventados pelos seus inimigos no século XIX e que disso fazem grande exibição, nomeadamente as contraposições entre antropocentrismo v. teocentrismo, sacralização v. secularização e imanentismo v. transcendentalismo. Ora, qualquer leitura, mesmo que superficial dos autores de referência do século XVIII, permite-nos verificar que não tem mais sustentabilidade a velha teoria que trata de associar a Ilustração (as Luzes) ao fenómeno da descrença. A realidade é bem outra: às Luzes da descrença e até do ateísmo, opuseram-se um Iluminismo católico, um Iluminismo protestante e até um Iluminismo judaico. Não, o Catolicismo não se opôs ao conhecimento do homem, da sociedade e do mundo. Chega de confusões.

10 maio 2014

A cultura agrilhoa


A cultura liberta, mas a cultura também agrilhoa. Há quem persista em exaltar a crença iluminista da libertação pela cultura. Nada de mais enganador. As pessoas mais intolerantes, mais fanáticas e perigosas que conheci ao longo da vida eram, quase todas, "pessoas cultas".


Goebbels, sem dúvida uma inteligência de excepção, muda abruptamente de semblante ao saber que o fotógrafo da Life (Alfred Eisenstaedt) era judeu. Lembro-me de um episódio infelicíssimo em que fui premiado com uma destas atitudes. Certo dia, convidado pelo Miguel Esteves Cardoso, participei num jantar de apoio à candidatura do MEC ao Parlamento Europeu. Sentaram-me numa mesa e tinha à minha frente o João Aguiar (que Deus o tenha). Após os protocolares apertos de mão, vi-o olhar fixamente para o cartão com o meu nome, que os promotores haviam colocado no lugar que me haviam destinado. Subitamente, o JA levantou-se, atirou o guardanapo para cima da mesa e pôs-se a vociferar, apontando para a mesa e repetindo "eu não me sento com gente desta". Era o tempo da Nova Monarquia e das terríveis perseguições contra nós movidas. Como um qualquer sacerdote brâmane, terá pensado que este pária lhe sujaria o bom nome.

08 maio 2014

Generais de orçamento

Mais de uma dezena de oficiais generais abandonou esta quarta-feira as instalações do Instituto de Estudos Superiores Militares (IESM) como sinal de protesto pela presença do ministro da Defesa, José Pedro Aguiar-Branco, no lançamento do último livro do general Loureiro dos Santos, "Reflexões sobre Estratégia VII - Tempos de crise". (...) "Os generais, todos eles na reserva ou na reforma, estavam presentes para a referida cerimónia, ao fim da tarde, mas deixaram a sala quando se aperceberam da chegada do ministro e de que ele poderia intervir, o que não chegou a acontecer". in Expresso, 6-5-2014

É evidente que os senhores generais na reforma - todos capitães por ocasião do 25 da Silva - não se preocupam com a modernização, com a operacionalidade e prontidão das FA's. Em Portugal, salvo raríssimas excepções, todas as revoltas castrenses são ditadas por questões bem menos nobres que a salvação da pátria. Eis, em síntese, o estado a que chegámos: a brigada do reumático dando por inegociáveis os cortes nas reformas e não querendo participar nos sacrifícios impostos aos restantes portugueses. Boa ética patriótica, sem dúvida.

05 maio 2014

Propagandas


O herói de Kiev. Há dois meses, o trepador de Kiev, então preparando-se para apear a bandeira russa do topo de um edifício, foi aplaudido pelas costumeiras sirenes da intoxicação como a face da nova geração de freedom fighters da democracia. Ora, eis hoje o valente escalador envergando o seu melhor uniforme de trabalho.

02 maio 2014

Getúlio Vargas: 60 anos do Brasil sem rumo


Cumprem-se em 2014 seis décadas sobre a morte de Getúlio Vargas. Pediu-me um amigo, docente numa universidade brasileira, que sobre Getúlio escrevesse umas linhas, destacando as similitudes (hoje muito contestadas) entre o Estado Novo de Vargas e o Estado Novo de Oliveira Salazar. Contentar-me-ei em enviar-lhe dentro de dias umas quantas linhas sobre as relações luso-brasileiras no período que medeia entre o pré-guerra e a primeira saída de Getúlio do poder, em 1945.

Quando, por força das perseguições hitlerianas, Stefan Zweig se estabeleceu no Brasil, foi tomado de verdadeiro entusiasmo por aquele país de dimensões continentais e riquezas inexauríveis que o condenavam ao melhor dos futuros. Em homenagem ao país-irmão, escreveria Brasil, País do Futuro. O entusiasmo de Zweig era claramente suscitado por Getúlio Vargas, estadista a quem o Brasil terá ficado a dever a finalização jurídica e administrativa do Estado, até então jugulado pelo apetite das oligarquias localistas. Autoritário e ditatorial na sua fase inicial (1930-45), Getúlio - que gozava de apoio popular incontestado - voltaria ao poder democraticamente em 1950. Foi graças a Getúlio que o Brasil, até aí uma enorme plantação de café e borracha, ascendeu à plena independência económica. A criação da siderurgia e, mais tarde da PETROBRAS, caboucos da industrialização em programa de nacionalismo desenvolvimentista, permitiriam àquele país furtar-se da colonização económica norte-americana. Se as grandes realizações materiais incluíram as obras públicas, a criação da indústria pesada, a rede hidroeléctrica, a agro-indústria e a mineração voltadas para o mercado mundial, nas realizações imateriais ou intangíveis poderão elencar-se o modelo de ensino aplicado, o estímulo à investigação científica e tecnológica, a criação de um corpo de quadros técnicos que dispensaram a ingerência da assessoria estrangeira. Vargas assinalou o caminho. Infelizmente, o Brasil parece não ter tido capacidade para acompanhar o visionarismo daquele homem de excepção. 

Perdeu-se o rumo, a racionalidade e, sobretudo, a voz de comando. De Getúlio parece só não terem gostado os paulistas, os integralistas e os comunistas: os paulistas, derrotados na Revolução de 1932, perderam o monopólio de poder que exerciam sobre o Estado desde a implantação da república; os integralistas de Plínio Salgado e os comunistas de Prestes por se lhes ter escapado a oportunidade de ouro para ali ensaiarem as respectivas utopias. Vargas foi o centro, o justo termo, congraçador de vontades, o protector dos pobres e o promotor de elites respeitadas e respeitadoras.

27 abril 2014

Não fugir da morte


Lembro-me que aqui louvei há tempos a dignidade com que Vasco Graça Moura se quis despedir do país que serviu. Fê-lo em acto público, como os romanos antigos, de sapatos calçados, de pé, sem queixumes, lágrimas ou a mais leve sombra de auto-comiseração. Na altura, muitos amigos afirmaram que não, que VGM estava para ficar, que era injusto convocar a proximidade do passamento. Sei que a generalidade dos cristãos, que deviam saber conviver com a certeza da morte - pois até a exaltam como passagem para a vida eterna - continuam aterrorizados perante o chamamento inevitável, demonstrando afinal que perante esse derradeiro mistério são pouco menos que pagãos. Para quem já conviveu com a morte e com a dor, esse momento final não se cerca dos terrores que angustiam os entusiastas da vida. Prepararmo-nos para a morte devia ser, pois, um dos pilares da educação de qualquer adulto. Sem isso, continuaremos sempre infantis. Por mim, não tenho qualquer medo. Medo é perder a dignidade. 

Neste dia em que VGM partiu, deixo-lhe como tributo de gratidão o mais belo poema de heroísmo. Vasco Graça Moura morreu como homem. Poucos o sabem fazer, sobretudo os falsos moralistas, os falsos combatentes, os falsos homens de "convicções".

Se

Se consegues manter a calma
quando à tua volta todos a perdem
e te culpam por isso.

Se consegues ter confiança em ti
quando todos duvidam de ti
e aceitas as suas dúvidas

Se consegues esperar sem te cansares por esperar
ou caluniado não responderes com calúnias
ou odiado não dares espaço ao ódio
sem porém te fazeres demasiado bom
ou falares cheio de conhecimentos

Se consegues sonhar
sem fazeres dos sonhos teus mestres

Se consegues pensar
sem fazeres dos pensamentos teus objectivos

Se consegues encontrar-te com o Triunfo e a Derrota
e tratares esses dois impostores do mesmo modo

Se consegues suportar
a escuta das verdades que dizes
distorcidas pelos que te querem ver
cair em armadilhas
ou encarar tudo aquilo pelo qual lutaste na vida
ficar destruído
e reconstruíres tudo de novo
com instrumentos gastos pelo tempo

Se consegues num único passo
arriscar tudo o que conquistaste
num lançamento de cara ou coroa,
perderes e recomeçares de novo
sem nunca suspirares palavras da tua perda.

Se consegues constringir o teu coração,
nervos e força
para te servirem na tua vez
já depois de não existirem,
e aguentares
quando já nada tens em ti
a não ser a vontade que te diz:
"Aguenta-te!"

Se consegues falar para multidões
e permaneceres com as tuas virtudes
ou andares entre reis e pobres
e agires naturalmente

Se nem inimigos
ou amigos queridos
te conseguirem ofender

Se todas as pessoas contam contigo
mas nenhuma demasiado

Se consegues preencher cada minuto
dando valor
a todos os segundos que passam

Tua é a Terra
e tudo o que nela existe
e mais ainda,
tu serás um Homem, meu filho!

Rudyard Kipling

24 abril 2014

Nada volta atrás


No espaço público e na nossa vida social, a relação psicológica que mantemos com os regimes políticos não se afastará muito daquela que no espaço privado e na nossa vida íntima estabelecemos com quem gostamos. A lealdade, a confiança, o amor e a disponibilidade em servir, uma vez postos em causa pela mentira e pela deslealdade, jamais poderão ser recuperados. Pode-se maquilhar o desencanto com todas as excelências da oratória, com as juras e protestos até ao túmulo, até com fingida inocência, mas rompeu-se a torrente de sentimento. Não há teatro que consiga pagar a morte daquilo que é espontâneo.

19 abril 2014

Apresentação pública de Portugal-China: 500 aos




Terça-feira, às 18 horas, na Biblioteca Nacional. Apresentação do livro Portugal-China: 500 anos.

Na evocação dos 500 anos da viagem que levou Jorge Álvares de Malaca ao Mar da China Meridional com um carregamento de pimenta da Samatra destinado a Cantão, a Biblioteca Nacional de Portugal abriu ao público uma exposição evocativa do longo historial das relações luso-chinesas; relações e não apenas contactos, desdobrando-se em linhas de força paralelas, intensas e complementares que resistiram a conjunturas, encontros e desencontros e são as mais antigas ligando uma nação ocidental a um Estado do Extremo Oriente. A complexa trama destas relações, na qual se cruzaram interesses comerciais recíprocos, a ideologia da expansão portuguesa e a visão chinesa da ordem universal, o zelo missionário e a reacção local, os actos diplomáticos e as dificuldades de comunicação, o assentamento de portugueses e a invenção do luso-asiático macaense, mas também a transmissão de conhecimentos e de gostos, assim como a migração chinesa com destino ao mundo exterior – densa sucessão de acidentes, tendências e períodos – surge como demasiado longa e profunda para ser reduzida e simplificada. O livro põe em relevo os grandes instrumentos das relações Estado-a-Estado (tratados e convenções), o trato diplomático corrente entre os dois países, a evolução cartográfica e iconográfica da cidade de Macau, do séc. XVI ao séc. XX, com importantes apontamentos da acção de fotógrafos portugueses na China a partir de 1880. De autoria colectiva e multidisciplinar, que conta com a colaboração de académicos e investigadores, especialistas nas áreas cobertas pelo trabalho, a saber: fontes historiográficas, tipografia e imprensa, cartografia, urbanismo e história da arte, Padroado Português no Oriente, história das relações internacionais, letras, artes, música, orientalismo e sinofilia, história da ciência e da tecnologia, linguística e história das migrações.

17 abril 2014


Portugal-China: 500 anos, obra coordenada por Miguel Castelo Branco e editada pela BNP e Babel.

22 de Abril, terça-feira, às 18 horas, no auditório da Biblioteca Nacional.A obra de autoria colectiva e multidisciplinar evoca o longo historial das relações entre os dois Estados. A apresentação será feita pelo Embaixador João de Deus Ramos e por Miguel Castelo-Branco. 

Estrutura da obra:
Comemorar a China no grande encontro do Ocidente com o Oriente - António Vasconcelos de Saldanha 
A China sem mistério: Portugal e a China no início de uma nova era - Miguel Castelo-Branco

PRIMEIROS OLHARES
A primeira descrição da China: o manuscrito da Suma Oriental de Tomé Pires - Rui Loureiro
Bárbaros folangji ao largo - Miguel Castelo-Branco
O grande retrato do mundo oriental: a Peregrinaçam de Fernão Mendes Pinto - Rui Loureiro
Uma descrição da China para leitores europeus:
o diálogo De Missione Legatorum Iaponensium, de Duarte de Sande - Rui Manuel Loureiro 

FORMALIZAÇÃO DO ESPAÇO
A representação da China em Fernão Vaz Dourado - 
Francisco Roque de Oliveira
A primeira carta europeia da China: o mapa de Luís Jorge de Barbuda - Rui Manuel Loureiro 
O delta do Rio das Pérolas - Francisco Roque de Oliveira
Planta de Macau - Francisco Roque de Oliveira
Macau e as cidades comerciais de tradição manuelina - 
Hélder Carita 
Arquitetura sino-portuguesa: um exemplo emblemático - 

PERPETUAR A PALAVRA
Com letras metálicas se começa a escrever - João José Alves Dias
Os primeiros caracteres chineses impressos no Ocidente, 1570 - João José Alves Dias
Os primeiros caracteres europeus impressos na China, 1588 - João José Alves Dias 

MANDARINS DE DEUS
O Padroado Português no Extremo Oriente - Teresa Sena
A Diocese de Macau - Teresa Sena
Tomás Pereira, o jesuíta do imperador - Joaquim Magalhães de Castro
O Édito da Tolerância - Teresa Sena
Sena

DIÁLOGO DA COROA COM O DRAGÃO
A preparação de uma embaixada joanina - Miguel Castelo-Branco
A embaixada de Alexandre Metelo de Sousa e Menezes - 
Miguel Castelo-Branco
O Grande Rolo Amarelo - Fátima Gomes
Chapas sínicas: notícia de uma colecção - Isaú Santos 



DESVENDAR SEGREDOS
Contactos linguísticos luso-chineses: Tomé Pires, intérpretes e missionários - Telmo Verdelho
Produção metalinguística do encontro luso-chinês
e memória da língua chinesa no português - Telmo Verdelho
Mestres-fundidores portugueses na China - Vitor Luís Gaspar Rodrigues
Arsenal de Macau - Vitor Luís Gaspar Rodrigues
Medicina chinesa e medicina ocidental: os primeiros contactos - Adelino Cardoso | Bruno Barreiros

VIAGENS DO GOSTO
A porcelana chinesa - Maria Antónia Pinto de Matos 
Sobre o conceito de chinoiserie - António Filipe Pimentel 
O programa de chinoiserie da Biblioteca Joanina - António Filipe Pimentel
O património musical chinês em Portugal - Enio de Souza
A cultura do chá em Portugal - José Eduardo Mendes Ferrão



ROMPE-SE A MURALHA
O anfião - Maria Helena do Carmo
Macau no tráfico dos cules - Miguel Castelo-Branco 
O Tratado de 1862 - Miguel Castelo-Branco
O Tratado Luso-Chinês de 1887 - Miguel Castelo-Branco
O conde de Arnoso Em Caminho de Pequim - Ana Maria Costa Lopes
Eça de Queirós e o Oriente - Carlos Reis
Camilo Pessanha e uma Ata Secreta do Governo de Macau - Daniel Pires
Diplomatas chineses em Portugal - Miguel Castelo-Branco
Relações luso-chinesas em vésperas de revoluções - 
Miguel Castelo-Branco
A fotografia na China: do declínio da dinastia Qing à Revolução Cultural - Ângela Castelo-Branco | António Faria
Os fotógrafos de Macau e os portugueses que fotografaram a China - Ângela Castelo-Branco | António João Diogo Faria

DAS PORTAS DO CERCO E MAIS ALÉM
O macaense: português do Extremo Oriente - Miguel Castelo-Branco
Os Rangel de Macau: percurso de uma família macaense - Pedro Daniel Oliveira
Portugueses em Hong Kong - Miguel Castelo-Branco
Portugueses de Xangai - Alfredo Gomes Dias

DO CONHECIMENTO QUE FICA
Sinologia portuguesa: caminhos e veredas - António Aresta
Ta-ssi-yang-kuo: um marco indelével da imprensa de Macau - Daniel Pires
Um prefácio inédito de Wenceslau de Moraes - Daniel Pires
Fernando Pessoa bilingue impresso em Macau - João José Alves Dias
José Maria Braga/Jack Braga,1897-1988: ensaísta e colecionador - Isaú Santos
Henrique de Senna Fernandes – o escritor de Macau - 
Ana Maria Costa Helena Cunha Raquel Paradella LopesH

CHEGAR AO MUNDO POR PORTUGAL
A comunidade chinesa em Timor - Fernando Figueiredo 
Os primeiros chineses em Portugal - Ana Matias
Os chineses de Moçambique - Ana Matias
A nova imigração chinesa - Ana Matias



DO ORIENTE, O VERMELHO
O Oriente Extremo - António Araújo 
Tigres de papel - António Araújo 

O RETORNO DAS EMBAIXADAS
Em tempo de Guerra Fria - Moisés Silva Fernandes
Restabelecimento de relações diplomáticas, 1979 - 
João de Deus Ramos
Declaração Conjunta Luso-Chinesa sobre Macau, 1987 - João de Deus Ramos
Relações Portugal-China no século XXI - José Tadeu Soares

14 abril 2014

Os candidatos a sobas


Tenho seguido com a atenção exigida as propostas para as Europeias. Por mais que procure, ali não encontro uma só ideia de Portugal, e a ideia de Europa ali prevalecente não é a minha, pois não é a de Portugal na Europa, mas a de um quase servilismo perante tudo quanto nos diminui: a minimização e até ridicularização do Estado nacional, a transferência do que ainda remanesce da soberania, a exaltação do centralismo burocrático, da codificação e da falácia da "cidadania europeia", o corte radical com qualquer possibilidade de voltar atrás. Dir-se-ia que se transferiu de Portugal para a Europa a lealdade essencial, e que os objectivos nacionais permanentes desapareceram para darem lugar à defesa de uma lógica geopolítica que foi, é e será sempre contrária ao interesse nacional. Há quem, por seguidismo partidário, pensando o contrário daquilo que diz, sentindo o oposto daquilo que se repete ad nauseam, se dispõe a fazer campanha por tal programa sem ideias e reduzido à pregação da contabilidade e de medos. Comigo não contem para estas tristes cabriolices. Nunca vendi a consciência nos pequenos altares do calculismo e não é um discurso de colonizado ufano que me fará mudar de ideias.
Perante os eunucos da nova Cidade Proibida, só me ocorre, com sonora ousadia em tempo de rendição, um vibrante VIVA PORTUGAL !

02 abril 2014

Mais umas pernas governamentais

Ségolène Royal saiu eufórica de Matignon. Não se compreende o motivo da exultação, pois à ex de Hollande (também ex-candidata ao Eliseu e ex-candidata derrotada ao Parlamento) havia que dar um lugar (qualquer lugar). É a lei de bronze da oligarquia. Esta gente que nunca trabalhou tem sempre cabidela no orçamento e um palminho de cara sempre ajuda. E queixamo-nos do tachismo português, com a vantagem francesa de possuir umas oligarcas saídas das passerelles. Por aqui, ficamo-nos com versões mais neolíticas de Anas Gomes, Catarinas Martins e outras hirsutas.


01 abril 2014

Irmão Penitência

A CASA - Centro de Apoio aos Sem Abrigo - informa ter recolhido Almeida Santos, que há meses vivia desvalido num esconso de Alfama. Conhecido por o Eremita, Santos cobria-se com uma serapilheira feita em tiras, mendigando malgas de caldo por uma oração a Nossa Senhora das Dores. Vai dar entrada no mosteiro dos Pobres de Deus, expressando a vontade de receber votos e tomar o nome de Irmão Penitência.

26 março 2014

Um mito anti-monárquico impugnado: o "nobre analfabeto"


Dom João V tomando chocolate

Historiografia ou ideologia ?

Não há mito que não se alimente sem mentira; não há mentira que subsista com conhecimento. Desarmar os mitos pela via historiográfica revisionista, eis a única receita para desarmadilhar as verdades engrossadas pela tradição, aquelas que, de tão repetidas, se transformaram em doutrina indiscutida. É sabido que desde o século XIX se montou intensa campanha difamatória contra a dinastia de Bragança e contra a nobreza supostamente decaída a partir "absolutismo" do período joanino. Em Rebelo da Silva (A Última Corrida de Touros Reais em Salvaterra, 1848; A Mocidade de D. João V, 1852-53), em Oliveira Martins (História de Portugal e Portugal Contemporâneo), em Junqueiro (Pátria, 1896), em Júlio Dantas (Os inquéritos médicos às genealogias reais portuguesas - Avis e Bragança, 1909) e até na sempre frágil preparação historiográfica de Saramago perpassam a "maldição dos Bragança", a "degenerescência" da estirpe - beata, casmurra, idiota, caprichosa, reaccionária, decrépita, sifilítica, vítima da consanguinidade, violenta ou afásica - e a sua responsabilidade no Finis Patriae. Tudo o que se escreve e repete na Academia parece carecer daquele mínimo de rigor investigativo que coroa a História como conhecimento do tempo passado. Infelizmente, praticamente tudo quanto se faz passar por História é instigado por ideologia ou, pior, por propaganda, não lhe faltando, até, a adjectivação (o pior inimigo da serenidade) e o anedotário jamais sustentado por um simples documento de arquivo.

A nobreza: uma ordem decaída ?

A historiografia dita liberal, proto-republicana ou republicana, estabeleceu uma teoria da decadência nacional pondo de relevo a quebra de vitalidade da antiga nobreza, que supostamente se deixara envilecer, amolecer e domesticar na "vida da Corte", nas procissões "fradescas", nas caçadas e no marialvismo.
Do século XVII não há vestígio dessa queda, nem mesmo no século XVIII. Sirvamo-nos de um recorrente exemplo de mentira institucionalizada. Em compêndios de história seiscentista afirma-se, amiúde, que um dos requisitos para a ocupação do posto de sargento era o de saber contar, ler e escrever, "pois os oficiais são nobres", ou seja, assinam de cruz, são analfabetos. Gastão de Mello de Matos, historiador amante do rigor e da mais exigente tradição positivista, procurou em vão tal documento nos arquivos nacionais para comprovar tal exigência. Nada encontrou. Talvez não fosse necessário tal esforço, pois bastar-lhe-ia ter compulsado o célebre Abecedário Militar do que o Soldado deve fazer para chegar a ser Capitão e Sargento, de João de Brito de Lemos (1631) para ali encontrar cabal desmentido de tal fantasia. O que João de Brito de Lemos afirmava era, apenas, que os sargentos deveriam saber ler e escrever para "fazerem a lista dos soldados da [respectiva] companhia". Dos oficiais, para além do sentido da honra, da lealdade, do serviço do Rei, exigia-se conhecimentos de táctica, teoria de fogos e castramento (ou seja, de defesa).Ora, conhecendo a rol de bibliografia seiscentista e setecentista sobre a arte militar, sabe-se pelos róis das bibliotecas pertencentes à nobreza portuguesa, que tais obras eram conhecidas, lidas e até anotadas pelos respectivos proprietários.
Outra mentira recorrente afirma que os altos cargos no Ultramar eram confiados a nobres impreparados, pelo que para o declínio imperial teria concorrido a fraqueza da elite dirigente. É hoje sabido que os Vice-Reis portugueses na Índia foram, ao longo do século XVIII e até 1821, homens de assinalável mérito, capacidade e preparação, o contrário da lenda-negra oitocentista finissecular. Eram homens possuidores de bibliotecas, com interesses ecléticos, da História Antiga e Moderna, da religião, legislação, literatura, Filosofia, teoria política e questões militares aos clássicos (Horácio, Cícero, Marco Aurélio) (1); mais, eram poliglotas, falavam, liam e escreviam latim e francês, línguas cultas por excelência e possuíam alta consciência e segurança de si mesmos, o que lhes permitia lidar com homens de diferentes condições. Estavam, pois, preparados para o exercício do mando. “Os [Reis] escolhem sempre para este cargo (…) pessoas de raras qualidades e sangue muito ilustre em que concorrem esforço, entendimento e experiência na guerra e em todas as coisas necessárias para a administração de tal cargo" (2). 

Um dos mais importantes combates pela reposição da seriedade no enfrentamento com a sub-cultura republicana é, pois, o debate historiográfico. Se os monárquicos o não compreenderem, terão sempre de partir da desvantagem de lutarem contra imagens negativas poderosas, insusceptíveis de vergarem no debate palavroso. Há que combater a mentira com a História.


(1) ver A.J.R Russel-Wood, “Governantes e agentes”, História da expansão portuguesa, v.3, Lisboa, Círculo de Leitores, 1998, p.179.
(2) ver Francisco Mendes da Luz (ed), Livro das cidades, e fortalezas, que a coroa de Portugal tem nas partes da India, e das capitanias, e mais cargos que nelas há, e da importancia deles, Lisboa, Centro de Estudos Históricos Ultramarinos, 1960, p.9.


13 março 2014

Voltemos ao espírito EFTA ou ao primeiro estádio da CEE


Lendo os manifestos para as europeias, salta à evidência que persistem as candidaturas em confundir os sonhos com a realidade. O ídolo Euro ali continua a pontificar. Lembro que, quando surgiu, nos prometiam que o Euro nos iria trazer o crescimento e o emprego, e que graças a essa divisa, a Europa iria ser o espaço económico mais forte do mundo. Uma década e meia após, estamos em quebra de competitividade e nunca como hoje conheceu a Europa tantas assimetrias regionais e sociais, tanto desrespeito pela liberdade económica dos Estados e tanta evasão fiscal e fuga de capitais. O Euro teve o condão de desertificar a Europa. Em vez de atrair, repele. Não vi nessas loas ao Euro a mais leve tentativa de pensar a possibilidade de voltarmos a viver sem ele. A isso chamo miopia política, talvez a forma mais benigna da estupidez.
O Euro morreu e com a sua morte a União Europeia construída em torno dele tenderá a desaparecer. Tal não implica, porém, a morte do projecto europeu, mas a sua conversão num pacto de cooperação entre Estados fundado em realidades económicas distintas, preservadoras dos interesses de nações soberanas.

11 março 2014

Que venha o milagre


O país pentecostal. Depois da vaga das indignações, veio a maré do não pagamos, logo seguida da mágica "renegociação". Agora, em qualquer café discute-se, com o saber e o rigor próprios deste povo de economistas encartados, a dilemática solução do pós-Troika: "saída limpa" ou "programa cautelar". Não interessa saber o que uma e outra significam. O importante é ter palavras à solta no ar, fingir que o povo-Rei, compenetrado e reflexivo, está em busca da da solução de ouro. O que os credores pensam não interessa, o importante é manter a ilusão que somos senhores do nosso destino. Infelizmente, não o somos há muito, há muitas décadas, mas isso o regime não quer discutir. De maná em maná, dependemos cada vez mais do milagrismo. Este é um povo pentecostal.

06 março 2014

A Rússia, tão amiga de Portugal como a Grã-Bretanha


O "mundo russo", expressão vaga que remete para uma falsa ideia cunhada nos meados do século XIX - limite impreciso entre a Ásia e a Europa - persiste em semear a perplexidade entre os analistas ocidentais. Da Rússia, supostamente exterior à nossa (des)ordem civilizacional, teima-se em afirmar não pertencer ao Ocidente, ser inimiga do Ocidente e, até, ser mais "asiática" que europeia. É sabido que a intelligentsia russa cultiva do país um conjunto de ideias, antigas de quase dois séculos, de nacionalismo, eslavismo, pan-russismo e que desde Tolstoi e  Dostoievsky os ocidentais se tenham deixado inebriar pelo exótico, pelo misterioso e esfíngico carácter de uma cultura aparentemente incompatível com o ser e os modos das sociedades europeias atlânticas. Contudo, se atentarmos na acidentada história política russa, verificamos, não sem algum espanto, que desde o Dezembrismo (1825) - ou até antes, desde Catarina a Grande - a Rússia quer ser europeia, quer ser reconhecida como tal e pugna por um concerto dos Estados europeus. 

No que nos toca e para quem leu essa importante mas quase esquecida história das Relações entre Portugal e a Rússia no século XVIII, de Rómulo de Carvalho, tornou-se claro que deste o primeiro quartel do século XVIII a Rússia deixou de ser um mistério. A Rússia e Portugal mantêm relações diplomáticas desde 1776 e ali viveram ao longo de décadas largas dezenas de homens de negócios portugueses, animando relevante fluxo comercial que tantos lucros gerou. Ali, também, militares portugueses (Pamplona Corte-Real, Gomes Freire de Andrade, Caetano Teixeira e Sousa e tantos outros) assistiram os exércitos russos na guerras contra o Turco, deixando impressivo sulco nas reformas castrenses de Catarina II. Há dois anos, preparando o meu A Campanha da Rússia, solicitei à Academia Russa documentação desconhecida entre nós sobre a intensidade das relações entre Portugal e aquele império durante as guerras napoleónicas. Ali ficou demonstrado - e copiosamente posto em evidência - que entre S. Petersburgo e a Corte do Rio se manteve uma aliança leal no combate ao violento projecto de unificação da Europa por Napoleão e que, derrotado Napoleão, foi graças à Rússia que Portugal se sentou em Viena com todas as honras devidas a um Estado no pleno uso das suas faculdades soberanas.

Para Portugal, potência marítima agora reduzida à exiguidade de Estado-cliente de uma União Europeia que quase nos despreza, as relações com a Rússia são importantes; mais, constituem elemento de equilíbrio evitando a vassalização ou a manipulação ditada pela incapacidade de podermos contrariar a relação de forças existente. Ao longo das últimas semanas, entre os disparates seguidistas das Necessidades e os quase infantis protestos de lealdade aos EUA - que quase sempre nos recusaram qualquer papel na preservação da aliança euro-atlântica - ficou de manifesto exposto não existir nos corredores da nossa diplomacia nem na política externa portuguesa informação, bom-senso e inteligência requeridas para o saudável e necessário aprofundamento das boas relações de Portugal com a Federação Russa. 

24 fevereiro 2014

O terrível "Absolutismo"


No tempo do "absolutismo", os concelhos no Reino e no Ultramar eram unidades políticas representativas e autónomas, gozavam de privilégios, foros e liberdades, eram governados pelas elites locais e possuíam riqueza, força negocial, produção legislativa e autodeterminação. A simples visita de um aristocrata, de um prelado, um juíz de fora, um cobrador de impostos, a passagem de uma coluna militar ou a visita do Rei ou de um seu representante careciam de autorização do corpo representativo. Quando Lisboa se lhes impôs, passaram a ser governados do Terreiro do Paço, foram submetidos à tributação fiscal, perderam isenções, privilégios e liberdades, viram a representação usurpada por políticos profissionais e por governadores. No tempo do "absolutismo", eram cidadãos de concelho todos os homens livres maiores de idade. Quando isso acabou, o corpo eleitoral passou a ser censitário e fixado nos limites dos beati possidenti, dele se excluindo todos quantos não fizessem prova de posse de propriedade e riqueza. A cidadania plasmada pela Constituição Histórica e pela indiferenciação dos súbditos perante o Rei foi substituída por uma abstração de "cidadania" que ainda hoje se contenta em enunciar direitos desligados da capacidade interventiva das pessoas.

No tempo do "absolutismo", eram portugueses de direito todos os cristãos que vivessem nos concelhos do Reino ou do Ultramar e aceitassem os princípios da monarquia orgânica de poder indirecto. Da costa de África aos confins do Oriente, as comunidades auto-governavam-se, não havia distinção de origem étnica, a posse do património público era fiscalizado, as instituições matriciais da unidade social - o concelho e a misericóridia - regiam-se por regimentos próprios. Quando tudo isso foi proscrito, os naturais passaram a súbditos, logo depois colonizados e a ideia de "português" foi varrida pelo preconceito racial. De longe chegaram em catadupa leis, regulamentos, avisos e burocratas estranhos ao meio e a propriedade pública e das missões foi usurpada por administradores nomeados pelo centro do poder distante e cego.

No tempo do "absolutismo", sobretudo na sua fase final, governantes notáveis houve que propugnaram a via da industrialização (José Acúrcio das Neves) e da revitalização global do comércio português (Miguel de Arriaga) no quadro da parceria luso-britânica. Portugal, através do ainda polémico tratado de Comércio e Navegação Luso-Britânico de 1810, passou a ser, de facto, uma economia liberal e capitalista, mercê da aplicação do alvará com força de lei de 4 de Fevereiro de 181, que procurou organizar o livre comércio entre as diversas partes do império. Depois, tudo caiu nas mãos de banqueiros, prestamistas e usurários.

13 fevereiro 2014

Os queijinhos


Alguém terá ficado indignado por ontem aqui me ter referido a "sociologices". Interroga-me o estimado "cientista social" se eu sei o que é a Sociologia. Sei, de gingeira, pois entre sociólogos passei dois anos a fazer inutilíssimo trabalho que partiu do nada e chegou a parte alguma. Posso dizê-lo sem vacilações: foram os mais estúpidos e perdidos anos da minha vida escolar a fazer inquéritos abstrusos sobre saneamento básico, consumo de "bens culturais", despesas de transporte e outras relevâncias, tudo bem regado de queijinhos estatísticos, níveis de mensuração, correlações, factores de análise, variantes e diabo a quatro. No fundo, o paradigma dessa Sociologia funda-se numa crendice positivista que trata de tudo reduzir a números, uma espécie de pitagorismo de segundo grau, o que para mim não passa de Mó Dúu*. Uma fulana minha conhecida conseguiu a proeza de fazer uma tese de 300 páginas inteiramente preenchida com queijinhos, sem uma ideia, sem uma linha; uma desgraça, pois sendo um trabalho de humanidades, tresandava a tecnolatria da mais baixa. Outra, fazia uns mostrengos sobre História da Edição em Portugal só com queijos: de cabra, amanteigados, Serra e das Ilhas. Era um verdadeiro festim digno de Feira do Queijo. Sobre o conteúdo das edições, sobre es editores, nada.
Já por várias vezes respirei fundo e tentei concentrar-me nesses enormes cartapácios de Boaventura e e deles não retirei proveito algum. É o velho albergue espanhol: nas estatísticas e nos queijinhos podemos ver tudo, consoante a cor das lentes dos óculos. Há tempos, um "sociólogo" venezuelano queria impor-me o "facto" - outra inutilidade - dos EUA não serem um país desenvolvido, bombardeando-me com dados estatísticos e queijinhos. A Venezuela sim, era um país desenvolvido, pois os "índices", o "crescimento" e níveis estatísticos ali estavam para o provar.

Para pessoas absolutamente incapazes de percepcionar factores intangíveis, a Sociologice é um bom aconchego. É evidente que no nível estratosférico da Sociologia há pensamento. Simmel e a sua Sociologia do Dinheiro, Weber e os monumentais estudos de sociologia das religiões, Ostrogorsky e os inquéritos sobre a democracia e a organização dos partidos políticos devem fazer parte do curriculum de qualquer leitor. O resto, bá, são queijinhos. Essa sociologice está para a sociedade como certa "filosofia" para pessoas incultas: nada sabem de história, nunca leram um romance, desconhecem em absoluto a arte, não sabem situar um local no mapa, mas falam de tudo com sobranceira autoridade; em suma, coisas de Mó Dúu.
Há uns anos, a filha de uma colega de trabalho veio-me dizer, ufana, que estava a tirar Sociologia na Nova. "Estamos a trabalhar sobre temas da exclusão, disse-me como se fosse um pequeno deus corrector das misérias do mundo. Apeteceu-me dizer: "ó filha, vai ao primeiro alfarrabista nas escadinhas do Duque, compra por atacado os livros da Campanha de Educação de Adultos e saberás muito mais sobre Portugal e os portugueses". Com a bolonhesa em acção, já deve ser doutoranda. Mais uma deputada !

* Mó Dúu: arte adivinhatória tailandesa. Os seus oficiantes fazem-se passar por "doutores" (Mó) que vêem aquilo que os outros - os clientes - não conseguem lobrigar.

07 fevereiro 2014

A direita amiga dos inimigos


Há alguns anos, envolvido numa linha de investigação que se veio a revelar inconclusiva, pois dela não surgiu qualquer trabalho escrito, procedi na Biblioteca Nacional e na Hemeroteca a levantamento tão exaustivo quanto possível de jornais, revistas e panfletos de acentuadas cores anti-liberais, editados entre 1890 e 1930. Pretendia submeter o trabalho a editora que se pudesse interessar pela génese, raízes e desenvolvimento da Direita-Extrema portuguesa, cruzando-a com similares movimentos e correntes de opinião que pela Europa operaram a transição do nacionalismo liberal para o nacionalismo autoritário. Pretendia, também, compreender em que medida as correntes ditas tradicionalistas - monárquicas e confessionais - se haviam munido de novo arsenal organicista retirado do Positivismo para, assim aggionatas, fundamentarem o requisitório contra o mundo moderno do atomismo individualista, da representação inorgânica e da soberania popular. Cedo, porém, alterei o crivo da análise, esmagado pela indignação. Verifiquei, para meu espanto, que os maiores inimigos da Monarquia entre 1890 e 1910 haviam sido, na ferocidade da difamação, não os republicanos, mas os ditos monárquicos legitimistas que, se bem carregados de moralismo e "bons valores" não poupavam a adjectivação mais reles para lançar sobre a Coroa e seu titular sórdidas atoardas. Foi essa gente, mais tarde, já implantada a república, que da mesma forma procedeu contra o rei D. Manuel no exílio. Foi essa gente, anos volvidos, que deu largas à mais cavernícola selvajaria escrevinhadora contra os grandes arautos do modernismo português, não os poupando aos predicados mais soezes. E quem eram esses "judeus", "comunistas" e "depravados" na sábia opinião de jornalistas semi-analfabetos dos quais a história já não reza ? Ora, eram uns judeuzinhos, uns comunistazecos e uns sibaritas insignificantes chamados Almada Negreiros, Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro e António Ferro. Sei que essa dita direita portuguesa dos valores foi sempre assim: do bota-abaixo, da ausência de biblioteca e da mais intransigente incapacidade de pensar. Foi essa "direita do contra-tudo" que quis demolir a Igreja Nossa Senhora de Fátima, por a considerar um "templo-celeiro comunista"; essa direita que nunca abriu mão da estética pequeno-burguesa figurativa do mais estreito realismo e que considerou, sem jamais a ouvir e compreender, a música moderna como encarnação do diabo. Foi essa direita das torres da virtude que intoxicou a ideia de Nação Portuguesa com a degradante ganga importada das revistas francesas. No furor anti-moderno, transformou-se em eco português de circunstâncias que não eram as nossas, impedindo que uma direita capaz de se integrar nas confluências da contemporaneidade se pudesse desenvolver e madurar. Foi porque tal gente exerceu por tanto tempo magistério que, chegado o 25 de Abril, ninguém se atreveu reclamar valores que eram, são e serão - enquanto esta Nação existir - valores da Nação Portuguesa. Pequena, reduzida no arsenal de ideias, sem nada a acrescentar ao que foi dizendo, repetindo e teimando, não encontra interlocutor na realidade que a cerca, preferindo os jogos redondos das leituras gastas, do salvacionismo e dos amanhãs cantantes que, obviamente para ela, nunca chegarão. É curiosa a coincidência gritante entre essa Direita e o PC. No fundo, datados, só partilham uma preocupação: impedir que o calendário se mexa !

Recebi há dias, de mão amiga, um exemplar da biografia intelectual de António Sardinha, da autoria de Ana Isabel Sardinha Desvignes. Li-a com atenção e dei comigo a encontrar similitudes gritantes com o meu Homem Cristo Filho: do Anarquismo ao Fascismo. De facto, essa geração, que teve nas mãos a oportunidade única de fazer uma Direita Portuguesa autónoma, esclarecida, com obra e direito à opinião, estiolou-se, petrificou e foi-se transformando numa verdadeira prenda à esquerda. Hoje, passados oitenta anos sobre a morte de Homem Cristo Filho e Sardinha - dois espíritos irrequietos e agressivos, sem dúvida, mas plenos de ousadia - vejo que deles nada ficou para além das sombras e defeitos de carácter que os dois, talvez pela juventude, tão manifestamente exibiam no furor da esgrima. Ficou, nessa Direita, simplesmente, o dizer não a tudo e ser contra tudo. Que tristeza.

31 janeiro 2014

Dos Açores com génio

"Com o “direito ao canudo” sobreveio o “direito à praxe” e o ritual de integração na Academia degenerou numa legitimação parola da humilhação. Na cultura do facilitismo os estudantes veneram as tunas, os trajes e as praxes, em vez de idolatrarem, com aproveitamento,Atena ou Minerva. Tudo sinais exteriores de uma classe social com estatuto corporativo. Eça, bom conhecedor da psique do arrivismo, satirizou que a maior vantagem da Universidade, como instituição social, era o “apartheid” entre estudantes e futricas. Entre os que «vivem de revolver ideias» e «aqueles que vivem do trabalho». Duas classes : «uma que sabe, outra que produz» em «dois mundos que caminham paralelamente na civilização: um com o título egrégio de Bacharel, outro com o nome emblemático de Futrica». O deslumbre português com os “doutores e engenheiros” é atávico e tolera este “status quo”. Nos campus universitários é tradição a encenação burlesca de tribunais com “julgamentos” e “execuções” sumárias dos praxados. Brandos costumes para uma audiência ignorante, cujo espírito se alimenta da boçalidade e não das Letras. Para lá dos casos de polícia, reservados aos verdadeiros tribunais, a praxe é um caso de indigência mental".

João Nuno Almeida e Sousa, in O Açoriano Oriental

28 janeiro 2014

Infecções da mentira - Dona Carlota Joaquina



Li em tempos As Lobas do Escorial, de Michel del Castillo, verdadeiro novelo erótico-paródico e dei-me conta das flagrantes similitudes com muita da panfletagem posta a circular nas décadas de 1830 e 1840 contra uma das mais inteligentes, argutas e politizadas mulheres de finais do Antigo Regime em Portugal e Espanha. Carlota Joaquina, infanta de Espanha, Princesa Real de Portugal e, depois, Rainha de Portugal, uma das mais ridicularizadas e caricaturadas figuras desse extraordinário momento de transição da ordem antiga para o Liberalismo, merece sem dúvida um lugar destacado na história da difamação. Não obstante terem sido impugnadas as lendas e acintes contra ela postos a circular por uma sub-literatura inquinada a extremos de pornografia - vide Sara Marques Pereira, D. Carlota Joaquina e os Espelhos de Clio, Lisboa, Livros Horizonte, 1999 - persiste a lenda de uma mulher desbragada, desequilibrada, presa de furores de uma Messalina, matéria quente que comprova o sucesso antecipado dos enredos baixos; espelho, afinal, da irresistível atração que as pessoas vulgares têm pelo sórdido.

Conhecidas são as Cartas Inéditas de Carlota Joaquina, editadas por Francisca Nogueira de Azevedo. Ali, não há vislumbre de loucura, de desequilíbrio nem qualquer palavra que indicie o estendal de imundície que logo se instituiria.

Tratando-se de uma das principais protagonistas da intriga política que culminaria com a invasão de Portugal e Guerra Civil entre legitimistas e pedristas, sempre me questionei sobre o lugar e o papel de Carlota Joaquina nesse crisol de ódios caseiros [inspirados e pagos de fora] e que culminou com a instauração de uma nova ordem política na década de 1830. Não, uma figura insignificante, medíocre e torpe não poderia ter alcançado o lugar que Carlota Joaquina ocupou ao longo de quase duas décadas. O ódio contra ela foi crescendo, atingindo culminâncias após a sua morte e continuando a acastelar-se de anedotas e piadas ao longo de um século - vide de Francisco de Assis Cintra, Os Escândalos de Carlota Joaquina, 1934; vide Laurentino Gomes, 1808: como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil, Rio de Janeiro, Planeta, 2007 - a tal ponto que se converteu em anexim do partido derrotado. O século XIX foi particularmente cruel com as mulheres - que haviam dominado o século XVIII - e a ordem burguesa triunfante tratou de as reduzir a mínimos de visibilidade, inteligência e importância, pelo que Carlota Joaquina - por ser mulher, por ser política, por ser tenaz e, também, por ser espanhola - reuniu o complexo de medos e preconceitos de uma nova sociedade. 

A lenda negra de Carlota Joaquina tem por promotor um tal Jose Prezas, aventureiro espanhol que em 1808 se insinuou junto da Corte e passou a ocupar funções de secretariado da então Princesa Real no Rio de Janeiro. Tratava Prezas de todas as matérias atinentes à relação de Carlota Joaquina com a agitada vida da corte espanhola, num momento em que se iniciava em Espanha - por força da aliança com Napoleão, logo transformada em ocupação francesa - uma sangrenta luta pelo poder. Carlota Joaquina tinha ambições e estava decidida a jogar toda a sua capacidade na ocupação da regência espanhola. Era uma ardente defensora a ordem antiga, mas temperada pela leitura e alguma curiosidade pelo Iluminismo católico. Ferozmente anti-revolucionária, não era contudo uma imobilista. Na sua correspondência evidencia-se a capacidade de procurar compreender o que estava em curso na Europa pós-1789, havendo até na sua correspondência curiosas notas e reflexões sobre a possibilidade de dominar o curso dos acontecimentos por meio de concessões negociadas com sectores aberturistas do Antigo Regime e com os homens de "ideias avançadas" (liberais). Não deixa, porém, de ser uma evidência que era uma fiel depositária de um conceito de ordem política centrada na Coroa, uma católica devota e uma inimiga declarada de forças obscuras cuja menção se nos afigura desnecessário referir. Ora, entre 1808 e 1812 (Cortes de Cádis), Prezas foi o confidente da Princesa Real. Em Cádis decidiu-se que a regência passaria para um orgão colegial - Conselho de Regência - e não para um Príncipe/ Princesa de sangue, pelo que Carlota Joaquina abandonou as suas pretensões. O "dr" Prezas, subitamente desempregado, passou a exercer chantagem sobre a sua benfeitora, pedindo-lhe uma pensão por serviços prestados. Carlota Joaquina sacudiu a criatura, não temeu as ameaças. De secretário, Prezas transformou-se em inimigo e partiu, convertendo-se em apóstolo das "novas ideias", coisa não rara noutros momentos da história, quando rancores, ódios, invejas comezinhas se coroam de princípios para melhor se justificarem. Assim foi com Junqueiro contra D. Carlos e até com Herculano contra o Portugal Antigo.

A obrazinha de Prezas seria publicada em França em 1827 (Memorias secretas de la Princeza del Brazil) pelo editor Carlos Lavalle e Sobrinho. Brest era, na França que antecedeu a Revolução de Julho (1830), um viveiro de imprensa anti-monárquica. A edição das Memórias Secretas - correspondência apócrifa do punho de Prezas - transformou-se num dos estandartes dos "exilados". Paga por Mendizábal, foi acolhida com grande júbilo. Não se compreende como D. Pedro, filho de Carlota Joaquina, pôde dar assentimento a tal repugnante ultraje à memória da sua mãe, entretanto já falecida. Como sempre digo a um bom amigo, a política é coisa perigosa como repugnante - um Minotauro sem alma e sem princípios - mas há limites para a indecência.

21 janeiro 2014

O carnicão



Ontem falou-se ao jantar em Cavaco, cavaquismo, cavaquistas e outras questões de relevância equivalente. O ardor com que alguns investem na matéria deixa-me surpreso, tão indiferente e incólume me deixou quando a questão se revestiu de alguma novidade que agora é, permitam-me o atrevimento, um mero passatempo para o aparelho fonador. Nunca compreendi, desde a sua génese, o que foi, era ou é o "cavaquismo". Lembro, sim, aquele tropel de gravatismo sem ideias, de arrogante galga trepadeiras, de arrazoado economês, de meninas retocadas como Barbies brincando ao business, da moda das gestões e dos marketings, do desprezo pelos ofícios produtivos que acometeu uma geração inteira de meninos convertidos à pragmática do terciário colarinho branco, do boom dos cartões de crédito, do ter um carro, um apartamento numa "nova urbanização" a toda à pressa para exorcizar séculos de caminhos pedregosos no dorso de mulas, da jogatana desenfreada da bolsa e dos milagres da D.ª Branca. Lembro, sim, que essa gente cuspia na cultura, na literatura e em tudo o que nobilita um ser humano adulto afirmando, sem rebuço, que tudo tem um preço, um lugar no mercado e um "nicho de consumidores". E como o povo, embrutecido, iletrado e incivilizado pedia futebol, telenovelas, viagens ao Brasil e jet-7, fez-se-lhe a vontade. Se o Portugal do antes do cavaquismo era terceiro-mundista, acendia velas à inveja, à pinderiquice socialistóide e se comprazia em exibir mulheres de buço e o lumpen de mão estendida à caridade do Estado, os dez anos que medeiam entre 1985 e 1995 - mais o cavaquismo piegas de Guterres que se lhe seguiu - diluiram a cultura cívica, dinamitaram a respeitabilidade das forças fáticas, instituíram uma cultura de direitos - direito à riqueza, ao consumo, direito ao canudo - sem exigir trabalho, compeneração, esforço e qualidade. Muito daquilo que hoje se diagnostica teve a sua génese nesses anos de dourada promoção do nada em que Portugal, subitamente bafejado pela cornucópia dos fundos germânicos, preferiu as croissanterias, os jeeps e os aparthotéis à cultura da exigência. O cavaquismo é um velho carnicão. Está lá, ainda, seja em versão socialista, seja em "social-democrática". É um espinho cravado entranhado que nos vai privando, ano a ano, ao direito de sobrevivermos enquanto comunidade.