04 janeiro 2014

Sovietologia portuguesa: o romance histórico da Fuga de Peniche


O romance histórico português conheceu culminâncias literárias com Herculano, Pinheiro Chagas e Eduardo de Noronha. Epopeias marítimas, batalhas e fossados, justas, torneios, quadros de género retirados de episódios e figuras meio-lendárias, meio-históricas, concitaram grande entusiasmo e eram aguardados com ansiedade pelos leitores das revistas e gazetas. Depois, perante as investidas do naturalismo e do realismo, o inebriante, o fantástico e o exuberante cortejo de lendas, temerários cavaleiros e heróis proscritos foi relegado para  universo pouco exigente da literatura do primeiro acne. Recentemente, talvez a partir de meados da décadas de 90, o "romance histórico" reapareceu e inundou escaparates. Tratava-se, naturalmente, mais de negócio que de arte, pelo que, com tais autores menores, tão maus no exercício da escrita como no conhecimento da história, veio confirmar a exaustão do filão que outrora proporcionara diamantes, mas agora só dispensava pálidos carvões.
Na URSS, o realismo socialista transformara a literatura em apêndice da propaganda, apenas tolerando quadros e episódios do passado, conquanto servissem para agigantar até ao limite o mito político da fundação da nova sociedade. Contudo, a ficção autorizada atinha-se obediente às orientações planificadoras, não fossem os escribas acusados de parasitismo social, individualismo burguês e escapismo, pecados nefandos para a termiteira soviética. 
Surpreendentemente (ou talvez não), os partidos comunistas por esse mundo fora fizeram da literatura política de aventuras um poderoso agente de exemplaridade recrutadora. Entre nós, para lá dessa insípida sub-literatura a que se dá o nome de "neo-realismo" (ou seja, idanovismo) - frisos de miséria, peitos encovados pela tísica, migas e malgas esquálidas - Cunhal forjou a sua própria lenda, assinando vários textos auto-biográficos (Até Amanhã, Camaradas; Cinco Dias, Cinco Noites; A Estrela de Seis Pontas, et. al), escritos menoríssimos mas de imediato transformados em referência para os pouco exigentes e nada experimentados leitores comunistas, alimentando a vitimização, talvez o maior espólio moral do PCP, agora já privado da "autoridade moral dos comunistas".
A patética encenação da Fuga de Peniche enquadra-se nesse esforço em conferir aos comunistas o estatuto de lutadores pela Liberdade, tão estranho e inverosímil após a revelação do carácter genocida da doutrina que ceifou dez vezes mais vidas que a soma do nazismo e demais regimes liberticidas. Um mito que se foi acastelando, mas que hoje não resiste à mais leve evidência. Tal como o PCF, logo crismado no pós-guerra como « le parti des 75.000 fusillés», mas que na verdade foram pouco mais de mil, o PCP inventou um passado. A "Fuga de Peniche" tem a heroicidade menor que tem. "Prisão de alta segurança", guardada por soldados da GNR que levavam e traziam recados e cartas dos detidos ? Estranho que no Gulague tais cartas e amizades não se forjassem. Mas para a comunicação social, sobretudo a milionária, a Fuga de Peniche é um quadrinho interessante. A SIC dedicou hoje uma hora de emissão ao discurso do pobre secretário-geral do PC, um quase insulto a Cunhal, que era gigante quando comparado com a figura de Jerónimo. A agremiação, reduzida a seita, é o retrato da cronofobia de quem não mudou, mas, sobretudo, do enorme atraso português.