09 dezembro 2013

O Álvaro da telenovela chorona ou o anti-Cunhal


Os dias andam grandes para esses Nilos e Amazonas dos afectos, causídicos de todas as campanhas do coração, hipertensos da lágrima patega. As comemorações do centenário de Cunhal e agora os fastos fúnebres de Mandela são elucidativos da incontrolável tendência para o ridículo que irmana os nossos queridos concidadãos nesses potlach do coração. A tendência, convenhamos, é transversal e quase unânime, não conhecendo barreiras de geração, preparação e cor política; da esquerda, que acossada pelo ferrete do anacronismo, converte as ideias outrora dominantes em sentimentalismo, e da direita, que sem saber por que terça convicções, vai fazendo o jeito aos adversários, aderindo tolamente às falácias do politicamente correcto.

Mandela era um gigante africano, bem o sabemos. Conseguiu o impossível, mesmo que o impossível se mantenha impossível e que a África do Sul caminhe irreversivelmente para o colapso, que de tão suave, continua adornado com as falsas roupagens do sucesso. Contudo, antes Mandela que Neto ou Machel, antes Mandela que Mugabe; apenas o tempo mais dilatado para quem quiser fugir o faça com calma e sem precipitações. Mandela subiu ao poder após uma não-declarada guerra civil, concluída com a vitória dos xhosa sobre os zulus. O ANC não é, convenhamos também, o "comunismo", mas a maioria tribal xhosa. Em África, os partidos são, sempre, expressão dessa realidade que se mascara com bandeiras de conveniência ideológica ou legibilidade "internacional". Bem, o assunto fica para outra ocasião, pois estamos aqui para falar de Cunhal, ou antes, do anti-Cunhal recentemente produzido para os consumidores de afectos e lágrimas.

Folheei este fim de semana o livrinho de Judite de Sousa "Álvaro, Eugénia e Ana". Cunhal não merecia esta redução ao patético. Cunhal era, indiscutivelmente, de uma raça aparte. Foi candidato a ditador comunista português, serviu com ferocidade as suas convicções, era esquemático, fanático, amoral até na sua obstinação. Tivesse atingido os seus objectivos e Portugal ter-se-ia transformado num imenso campo de concentração. Naquele homem não haveria certamente lugar para as palurdices da Judite de Sousa. Entre Cunhal e aqueles missionários evangelizadores do século XVI e XVII não haveria outra diferença que a dos argumentos. Secreto, silencioso, teimoso, implacável, fez da sua vida uma missão. Ao pé de Cunhal, Sá Carneiro, Freitas do Amaral e Soares seriam pouco mais que amostras franzinas da espécie que faz os homens públicos e os políticos profissionais. O PCP foi Cunhal e morrerá no dia em que quiser ser outra coisa senão Cunhal. A sua sucessão mostra que Cunhal é, ainda, e sê-lo-á sempre, o líder daquele partido-igreja. Do insignificante Carvalhas e do pobre Jerónimo de Sousa - apóstolos que conheceram o anacoreta - nada ficará, pois não existem senão como testemunhas que receberam a unção do fundador. Cunhal tinha, decididamente, o seu mundo: sabia ler, tinha necessidades artísticas, deixou escritos e até páginas de doutrina, mesmo que tudo isso fossem expressões de uma especialização da qual não se conseguia libertar. A cultura que liberta, essa nunca existiu em Álvaro Cunhal. Cunhal era, sem tirar, um homem enclausurado nas suas obsessões, um prisioneiro de crenças em que acreditava. Em nome delas, mandou silenciar adversários no partido e certamente silenciaria 10% dos portugueses que julgava representantes do "mal" que impedia a realização do seu paraíso para cá da morte.

Judite de Sousa substituiu Álvaro Cunhal por simplesmente Álvaro. Fá-lo certamente por temor reverencial, mas sobretudo por absoluta incapacidade em entender o homem religioso capaz de extremos de sacrifício; logo, capaz de aplicar e exigir dos outros tudo, até a vida. O anti-Cunhal de Júdite de Sousa está fazer furor entre os telenoveleiros encarniçados. Trata-se, tão só, de mau gosto, pois o gosto discute-se e aquele Álvaro acaba por ser um segundo funeral de Cunhal.