23 novembro 2013

Kennedy, plutocracia, propaganda e sub-cultura anti-portuguesa na Sala Oval


Copiosas badaladas não param por John Fitzgerald Kennedy, o malogrado presidente assassinado em Dallas há precisamente meio-século. Como tantos outros líderes mitificados, o culto que lhe é tributado parece não resistir à mais leve acareação. Sobre a família - "aristocrática", diz-se - importa lembrar que era de recente assentamento em solo americano, onde fizera grossos cabedais no honrosíssimo negócio dos saloons. O mito do anti-catolicismo da sociedade de Boston em relação aos Kennedy fundava-se, afinal, na origem escusa da fortuna do clã. A família não se conteve e logo, pelo engenho de Joseph P. Kennedy, Sr. - o pai do futuro presidente - dedicou-se à especulação bolsista e à manipulação do mercado, antes de dedicar a fortuna à importação de álcool nos anos da Lei Seca. As relações dos Kennedy com a Mafia têm origem nesses anos. Coube a Kennedy Sr. o papel de promotor da institucionalização do crime organizado nos corredores da Câmara dos Representantes, no Capitólio e na Casa Branca. Comprou a candidatura de Roosevelt em 1932, passando a exercer uma influência que jamais homem de negócios algum detivera sobre a administração. Mas aspirava a mais, e por falecimento do seu filho mais velho, inventou Jack e deu-lhe roupagens de homem do destino.

John Kennedy, cujo currículo foi literalmente inventado a expensas de pai, rico e corruptor como Midas, jamais teria galgado um só degrau sem a imensa fortuna que lhe foi dispensada a fundo perdido. Sobre Kennedy enquanto "académico", sabe-se o suficiente para não alimentar quaisquer ilusões a respeito da honestidade intelectual do debutante: a sua tese de licenciatura foi escrita por uma mão invisível e logo transformada em best-seller em 1941, e o Profiles in Courage - que lhe garantiu o prémio Pulitzer em 1957 - foi, sabe-se, escrito por Ted Sorensen. Absolutamente impreparado, produto de promoção postiça, 
Kennedy pouca obra deixou e a que tentou realizar acabou por resultar equívoca, se não perniciosa: o envolvimento no Vietname (talvez a mais desastrada guerra travada pelo Ocidente), a absurda aventura da Baía dos Porcos, a Crise dos Mísseis - que afinal se saldou por uma derrota americana, pois se os russos retiraram as ogivas que preparavam em Cuba, os EUA retiraram os seus mísseis da Turquia - e a disputa pela África pós-colonial.

No que a Portugal respeita, foi um inimigo ajuramentado das posições portuguesas. Quando se levantou a questão da Índia Portuguesa, a administração americana nunca esboçou o mais leve interesse em analisar e compreender os fundamentos das partes em conflito, reduzindo-o a uma caricatura [tipicamente americana]. 
John Kenneth Galbraith, o todo-poderoso conselheiro para a política externa dos EUA, só entendia a permanência de Portugal em Goa e a defesa da nossa soberania sobre Goa, Damão e Diu, "dadas as receitas que a potência administrante retirava do tráfico de whisky" (v. Galbraith embassador’s diary). 
Muito embora Kennedy tivesse repreendido a União Indiana pelo acto de força contra o Estado da Índia, a invasão de Goa deu-se, sintomaticamente cinco semanas após a visita de a Nehru a Washington. Ser-nos-á lícito depreender que Washington deu luz verde à agressão, mas evitou um corte com Lisboa, temendo que Salazar denunciasse o acordo das Lages.

Em relação à África Portuguesa, foi Kennedy quem mandou subsidiar a UPA e inventar ab ovo um ignoto funcionário da ONU, um tal Mondlane, de imediato posto à cabeça de um inexistente "movimento de libertação". O desnorte e a ignorância norte-americana em relação a África era tamanho, que Robert Kennedy (o irmão do presidente), ao receber Mondlane, perguntou-lhe se Moçambique era português. Fracassado o levantamento da UPA, o presidente manteve ao longo de 1963 intensa troca de correspondência com Touré e Nyerere com vista a resolver o “problema português(1)”. Perante o exposto, afigura-se-nos estranho que os comentadores de serviço nutram pelo presidente assassinado tamanho entusiasmo.

(1) Robert Rakove, Kennedy, Johnson and the nonaligned world, Cambridge, University Press, 2013

22 novembro 2013

A propósito de outros "libertadores": os falsos "bravos do Mindelo"


No seguimento de um post aqui publicado há semanas (v. Um tal Herculano de Carvalho Araújo), sobre o homem e não sobre a obra de Alexandre Herculano, recebi e mantive longa troca de correspondência com leitores desta tribuna. Ora, entre as mensagens recebidas, destaca-se a de João Nuno de Almeida e Sousa. Com autorização do autor, aqui está um contributo que estimo relevante para o debate então iniciado.

"Li com reverência, e a atenção de quem sempre aprende com os seus escritos, o perfil pouco laudatório do "pequeno" grande Alexandre Herculano. Entre várias cogitações, a propósito dos “Bravos do Mindelo”, ocorreu-me esta leitura que a seguir transcrevo:“D. Pedro e a sua expedição desembarcaram na Praia dos Ladrões, cerca do Mindelo, a 8 de Julho. As forças liberais – que foram chamadas os “7 500 Bravos do Mindelo!” – eram constituídas por 2 300 franceses, 2 130 ingleses, 900 belgas, 500 polacos, 400 irlandeses e 370 escoceses; portugueses eram apenas 900; quanto à esquadra, comandavam-na e tripulavam-na ingleses. Lê-se nas Memórias do Conde de Lavradio, D. Francisco de Almeida Portugal (Imprensa da Universidade de Coimbra 1933, vol II) coevo dos acontecimentos, que quase todos os mercenários estrangeiros “saíram das classes menos estimáveis da sociedade, isto é, dentre os homens que, por sua imoralidade e vícios, estão dispostos a cometer toda a espécie de crimes”, sendo “muitos dos soldados ratoneiros e homens saídos das prisões, e os oficiais, com poucas excepções, são uma corja de beberrões” (pp. 337-387).” (Portugalidade – biografia duma Nação – Domingos Mascarenhas). Como se vê os “Bravos do Mindelo”, saídos daqui do Relvão em Ponta Delgada , mais não eram do que um corpo expedicionário misto de soldados da fortuna, gente de baixa extracção social e alguns revolucionários disfuncionalmente românticos.

Nas poucas horas vagas que tenho dedico-me também a ler sobre a nossa História e depois de um “mergulho” estival sobre a época de oitocentos registei, sem espanto, que subitamente a minha ilha que era Miguelista recebeu em prostração servil D.Pedro ! Como sabe este acidentalmente teve de aportar a Ponta Delgada depois do barco onde seguia ter sido desviado do rumo à Terceira por razões climatéricas. Muito antes da República já tínhamos entre nós o costume dos “adesivos” e num ápice fervorosas famílias Miguelistas viraram a casaca e deram Real estada a D. Pedro. Muito interessante de se lerem são os relatos de época de piqueniques, burricadas e bailes da sociedade ! Confesso que li o que pude sobre o assunto e no final acabei com uma simpatia emocional e racional pela causa Miguelista!

Um outro facto histórico que me importava também pesquisar foi o desembarque aqui em São Miguel de um contingente liberal que na célebre Batalha da Ladeira da Velha deu um derradeiro golpe nas aspirações das forças Miguelistas na Ilha de São Miguel. Fui ao local do desembarque na Freguesia da Achadinda onde, em 1 de Agosto de 1831, desembarcaram tropas vindas da ilha Terceira para manietar o último reduto do Miguelismo nos Açores : a ilha de São Miguel. Tenho pena de não ter feito um levantamento fotográfico pois o local é de acesso absolutamente alucinante. Uma praia mínima de calhau periclitante, uma ravina escarpada e sujeita e fácil emboscada, e um relevo daí em diante sempre acidentado. Espantou-me que no dia seguinte tais tropas já estivessem a confrontar-se na Ladeira da Velha, a uns bons quilómetros, e também num local de topografia bastante acidentada e irregular. Enfim, curiosidades menores mas ainda assim interessantes.

No meio destas leituras fiquei também com uma convicção reforçada sobre a dúbia nobreza de carácter de heróis da revolução como Saldanha e outros. Porém, uma figura gostaria de conhecer melhor : Vila Flor ou Duque da Terceira. Se tiver bibliografia sobre esse Senhor que agora repousa indiferente à revisitação da História no pedestal do Cais do Sodré ficaria-lhe muito agradecido.
Com os meus melhores cumprimentos e Saudações Açorianas,

João Nuno Almeida e Sousa"

20 novembro 2013

A teimosia, o fechamento e o patético



O Congresso das Esquerdas surge como um sarcasmo e parece uma vingança póstuma de Salazar, o "velho" de 70 anos, o "homem que não saía", o "dono da vida pública". No elenco da gerontocracia que agora não sai, Soares nonagenário ocupa lugar cativo. Um mês após a realização em Lisboa do 2º Congresso Internacional Karl Marx, e tendo como bandeiras a Constituição e o Estado Social - a primeira coisa recentíssima, como se sabe, e o segundo um feixe de convicções datadas - tal ajuntamento de macróbios demonstra a caquexia dos fundamentos de um  regime que já em 1975 nascia 50 anos desajustado, mas que teimou, teimou, até nos trazer a este atoleiro.
Tudo isto é confrangedor. A cronofobia das esquerdas, a falta de pudor em reclamar para a oligarquia um lugar que não soube merecer, a insensibilidade quase patética, o fechamento autista em relação ao país, o espírito de aquário de gente que se habituou a mandar, a monopolizar lugares e a dominar todas as manifestações de vida política com a naturalidade de quem respira; tudo isto é sintomático de um fim de ciclo histórico a que o bunker responde com mais fechamento, mais teimosia, mais  intolerância. Estas esquerdas não têm 90 anos como Soares; não, são avós intelectuais dos anciãos que as manipulam.
Agora compreende-se a "teoria dos miúdos" [de 50 anos] que nos governam. Pois, quem tanto os ataca tem 75, 80 ou 90.