06 novembro 2013

O fim trágico da monarquia laociana


Há cerca de um mês, por ocasião da minha estadia em Bangkok, comprei The Last Century of Lao Royalty: A Documentary History, de Grant Evans, decerto importante contributo para uma melhor compreensão da história contemporânea do Laos, o Estado-tampão criado pela França em finais do século XIX. O actual Laos decompunha-se em pequenos principados que prestavam vassalagem ao Rei do Sião. Quando passou a orbitar a Indochina Francesa, o Príncipe de Vientiane foi elevado à dignidade de Rei. Ao contrário dos países circunvizinhos, o Laos manteve até 1975 uma democracia gabada pela tolerância e respeito pela separação de poderes, não obstante a guerra que flagelava a região. O Rei Sisavang Vatthana, considerado uma força moderadora e agente de modernização, fiel ao papel de um monarca constitucional, sempre recusou caucionar uma ditadura militar, procurando apaziguar as tensões irredutíveis que opunham monárquicos a comunistas. Em 1975, o Pathet Lao - Partido Comunista apoiado por Hanói - tomou o poder e logo instaurou uma sanguinária ditadura que ainda hoje persiste.


Ao contrário das proclamações do novo governo, que assegurara respeito pela instituição real, o Rei e sua família foram detidos e confinados a campos de concentração. A deposição pública foi, entre tantos outros agravos morais, um instantâneo da revoltante humilhação. Antes de serem separados, o Rei e a Rainha foram obrigados a sentar-se no chão, pedir desculpas ao povo e agradecer a libertação comunista. Insultados, empurrados e obrigados a repetir slogans revolucionários, os reis receberam então a sentença do colectivo popular: condenados por "feudalismo", "parasitas do povo" e "aliados dos imperialistas". Dessa cerimónia subsiste uma fotografia.



Aos 70 de idade, despido de todas as atenções devidas a um homem da sua condição, o Rei foi confinado a uma cabana e submetido a "reeducação pelo trabalho", ou seja, o cultivo de campos de arroz , oito horas por dia, seis dias por semana. Sisavang Vatthana foi separado da rainha, partilhando uma choça com o seu herdeiro. Submetido repetidamente a maus tratos, tortura e rações de cascas de arroz e ratos, valeu-lhe a piedade filiar do Príncipe Herdeiro, que alimentou o seu pai até, por fim, morrer por inanição. Em 1978, minado pela doença, faleceu. Até meados da década de 80, o governo comunista continuou cinicamente a assegurar que o monarca ainda vivia em reclusão domiciliária e cercado de cuidados. Todos os testemunhos são unânimes em reconhecer a grande dignidade que o Rei exibiu ao longo dos terríveis anos de cativeiro, a desarmante bondade que sempre opôs à crueldade dos seus algozes, a determinação em manifestar a sua condição de monarca budista. 

03 novembro 2013

Um tal Herculano de Carvalho e Araújo


Media um metro e cinquenta e três, mas foi, sem dúvida, um dos grandes vultos da cultura portuguesa de Oitocentos. Do autor da Portugaliae Monumenta Historica, de A Voz do Profeta e do Bobo sobrevive - como o romantismo o esculpiu - a legenda de um homem sisudo e probo, entregue à paixão devoradora do estudo no silêncio do gabinete, do desapegado das mundanidades e do exilado de Vale de Lobos. O Liberalismo reconheceu-lhe os méritos e a tradição liberdadeira dele fez um santo laico. De quando em vez, já entrado nos anos, Herculano saía da sua voluntária reclusão e dardejava sem clemência a pequenez dos homens e das suas superstições; a sua voz ecoava então como oráculo de verdade e rigor, a sua imperturbável serenidade calava os exaltados, a sua clareza matemática estabelecia o critério.

Este é o Herculano da lenda. Há uns anos, num debate público, afirmei perante o estupor dos circunstantes, que esse Herculano jamais existira e que o verdadeiro Herculano era, talvez, um mentiroso, um faccioso e um cínico. Reuni alguns dados biográficos para corroborar as minhas provocações, mas o vozerio foi tamanho que me rendi ao silêncio. Acalento ainda poder um dia fazer a impugnação desse mito e demonstrar que Herculano foi, na mudança do Portugal Antigo para o Portugal que temos, um dos mais afincados carreiristas. Herculano tinha momentos de grande elevação - a sua face benigna - como quando defendeu os egressos, ou seja, os pobres monges das extintas ordens religiosas, obrigados a abandonar os mosteiros e reduzidos à miséria. Porém, neste particular, Herculano fora um dos milhares de cúmplices nesse tremendo como irreparável crime metódico praticado contra a vida provincial portuguesa, a rede educativa, a selecção da elite e até a estrutura da economia rural do país. Os mosteiros e as ordens religiosas eram, desde há séculos, o pilar da organização da cultura, do dinamismo económico e da vida local. Ao serem extintos, morreu a diversidade e a riqueza e o país ficou, desde então, reduzido a Lisboa.

Herculano era um rapaz de pouco mais de vinte anos quando abandonou o país para se juntar à causa pedrista. Aqui começa a lenda. Esteve em França, onde afirmou ter frequentado a biblioteca de Rennes e, depois, ter transitado para Paris, onde teria estudado ou frequentado a École des Chartes, instituição onde despontavam os estudos medievalistas. Contudo - e Vitorino Nemésio na sua Mocidade de Herculano não resolve esse mistério - não há na referida instituição o mais leve traço da passagem do jovem português. Na altura, para poder residir em Paris e frequentar as universidades, era exigida da prefeitura da polícia um documento que atestasse ser o estudante estrangeiro pessoa sem registo criminal e meios de subsistência. Ora, tais documentos não existem; logo, Herculano nunca esteve na École des Chartes.

Quando os liberais - ou antes, os famosos Bravos do Mindelo, seis mil e quinhentos mercenários ingleses, alemães, irlandeses, franceses, polacos, italianos, recrutados e pagos para combater uma guerra que não era sua - desembarcaram nas cercanias do Porto, Herculano era um dos raros portugueses que vinham nessa expedição paga pela banca da city londrina, graças aos bons ofícios do espanhol  Mendizábal, como se sabe causídico de todas as causas justas, que cobrava até ao último real. Mendizábal, autor da famosa desamortização que leva o seu nome, quiçá o maior roubo organizado perpetrado pelo Estado contra os bens fundiários pertencentes ao clero regular, logo levados a hasta pública e vendidos à nova oligarquia capitalista, estaria para o tempo como os actuais angariadores das "guerras justas".

Ocupado o Porto, o nosso bravo Herculano não foi enviado para a frente de combate. Deram-lhe um lugar de bibliotecário na Biblioteca do Porto. Ficou aboletado, com lenha, água, luz e cama, em casa de um rico comerciante. A guerra em que Herculano combateu foi agasalhada, sem percalços e com caldo servido em boa casa burguesa. Se bem que depois tenha escrito uma Elegia de Soldado, apenas terá empunhado a espingarda  por alturas da fracassada tentativa do exército real em tomar o Porto, bem como no combate de Ponte de Ferreira. Ali, conta, recebeu ferimento de que sobreveio a famosa cicatriz na face. Na altura, a generalidade dos combatentes apresentava cicatrizes faciais causadas, não pelo fogo inimigo, mas pela deficiente qualidade das munições que explodiam, causando queimaduras ou golpes nu atirador. Terá sido essa a cicatriz de Herculano?

Herculano, um sincero amante da documentação, parece ter usado os seus excelentes conhecimentos para os usar em causa imprópria. Terá sido um historiador na acepção regular do termo, ou um investigador ao serviço de uma causa, ocultando-a com roupagem de respeitabilidade? Na História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal, coube-lhe tecer a teoria da decadência, a lenda negra de Dom João III e Dom Henrique I, o desprezo pelos Bragança (ver Opúsculo V), tópicos que desde então têm sido os mais insistentes veículos do anti-monarquismo. Infelizmente, a nossa gente não tem hábitos de leitura. Cita, mas não lê. Ora, Herculano di-lo expressamente na introdução à História da Origem e Estabelecimento. Afirma que escreveu a obra contra a "reacção teocrática e ultramontana" e com uma finalidade prática, para servir um ideal político e não por especial interesse na matéria. Herculano historiador?

Na acidentada vida política do primeiro vinténio liberal, Herculano envolveu-se activamente. Opôs-se ao Setembrismo - onde campeva Garrett, esse um homem curioso - mas tal parece não ter afectado sobremaneira a sua carreira pública. Em 1837 (com vinte e sete anos) tomou conta do Diário do Governo, mas também foi director da revista Panorama - revista milionária na época - e dois anos depois ascendia a bibliotecário da rainha, vencendo 600 mil reis anuais, uma fortuna para o tempo. As funções de bibliotecário régio eram habitualmente confiadas a um literato idoso, pois o posto assegurava respaldo de sobrevivência. Herculano conseguiu-o aos 29 ! Nesse mesmo ano (1839), recebia a ordem de cavaleiro da Torre e Espada. Será lícito que nos interroguemos sobre a origem dessa distinção. Não o faremos, deixando ao leitor a faculdade de pensar. A quem estaria ligado, que cumplicidades manejava, quem o poderia promover?

Depois, lendo a abundante documentação existente na Biblioteca da Ajuda, resta-nos e espanto. Herculano, na sua correspondência particular, só abordava questões de dinheiro: a quem vender o vinho e o azeite,  pedidos para a intercessão de amigos na praça, crédito e empréstimos a baixas taxas de juro, etc. Herculano, um grande homem das letras? Sem dúvida, mas também um bom figurão.