26 outubro 2013

Mais flagelados dos últimos dias do regime


Hoje cruzei-me com a procissão milenarista que se arrastou pelas ruas de Lisboa. Uns troikos de gente, umas centenas, logo inflamadas pelas rádios Moscovo de serviço, que avaliavam em "milhares de pessoas" tal romaria. Indignações, exaustos estribilhos, mantras, vitimização, muitos afectos; eis ao que se reduzem estas patuscadas errantes carregando certamente uma dimensão terapêutica que qualquer médico encartado aconselharia, mas que pouco acrescentam ao inexistente debate sobre as origens da crise, as culpas da crise e, sobretudo, soluções para a sua superação. Apercebi-me - lobriguei entre os marchantes muitas caras conhecidas - que aquilo não é o 4º estado, gente esfomeada, açoitada pela penúria e pelo desespero. Fulanos e fulanas de meia-idade, casual Rua do Ouro, cada qual tomado de frenesim comunicacional enviando mensagens pelo twitter ou fotos para o facebook, muito sr. doutor das universidades, do funcionalismo público que raras vezes funcionou, reformados dos pináculos, meninas e meninoscos das universidades; uma "classe média" que nunca se interrogou se o tal português europeu, inventado por Cavaco, Guterres, Barroso e Sócrates, era coisa justa; gente que nunca perdeu pitada do abundantismo de obras públicas feitas para enriquecer as betoneiras; todos endividados pelo carrinho e casa fora de portas com que o regime foi enchendo vaidades agora estilhaçadas. À frente, um figurão que foi em tempos recuados o meu pior professor - homem que nunca deu uma aula, conhecido entre os alunos por o baldas - de punho cerrado, epiglote tremelicante berrando contra a exploração, os "assassinos" e os "ladrões" que, dizem, estão no governo. 
Decerto que estas errâncias gritantes nada acrescentam ou retiram ao que muito bem sabemos. Esta gente não tem a assisti-la uma só molécula argumentativa. Todo aquele ruído ambiente e decibéis não conseguem ocultar um absoluto vazio programático; pior, são um mau exemplo para aqueles que não vão a estas patuscadas - aqueles que nunca estiveram ligados a tríades de amiguismo, com ou sem avental, que nunca foram favorecidos num concurso público, que nunca se espreguiçaram na gelataria italiana, que não têm um amigo na direcção geral e que pode dar uma mãozinha -; estes burgueses com estridências de bunker em fim de regime sabem que o futuro se fará sem eles.

21 outubro 2013

Ainda se pode evitar a ditadura que chega


Aqui tenho dito e repetido vezes sem conta: Portugal tem uma solução alternativa clara ao regime que nos trouxe à humilhação, à fome e à insignificância; Portugal tem os meios de que necessita para regressar de cabeça erguida ao concerto das nações; não precisamos de teorizar nem de think tanks do rotundo intelectualismo; nada há a pensar fora das coordenadas daquelas que foram, desde sempre, as constantes e linhas de acção e sentimento da nação portuguesa. Para quem, minimamente habilitado e experiente na análise histórica, se atrever perder o medo, a resposta é muito simples, tão simples que surge como uma evidência: monarquia. 

Persistem uns quantos retardatários em pedir calma e paciência, contando com uma menos que provável recuperação do sonho Europeu, sonho que não passa disso: ilusão. A Europa tábua-de-salvação, a Europa maná e cornucópia, essa morreu há dois ou três anos. De agora em diante, vingança das nações, será cada um por si. A fórmula europeia já não se discute, pois a Europa contra as nações, descerebrada, envergonhada de si, a que perdeu o orgulho e se refugiou na reforma dourada da velhice cobarde - pronta a tudo ceder e mutilar-se a vergonhosos extremos de humilhação - essa acabará dentro de dois ou três anos. Ou não viram, meus caros amigos, como cheios de cautelas, nos estão já a preparar para o triunfo de Marine Le Pen em França, para o triunfo das direitas nacionalistas nas próximas eleições para o Parlamento Europeu, para a mais que certa saída do Reino Unido da União, a tal que de união só leva o nome ?

Ainda há tempo. Ao ler a clarividente entrevista de SAR o Senhor Duarte a um jornal de Macau, no decurso de uma viagem que está a realizar pelo Extremo-Oriente - fazendo o que os nossos pobres diplomatas não sabem, não querem nem podem fazer - só me posso perguntar:

- Por que raio mantêm os donos do país o espesso manto da censura, a sistemática desinformação, o escamoteamento da evidência em torno da questão de uma mudança de regime que tornasse possível garantir a liberdade, sabendo que ao fatídico e já irreversível colapso desta III República sucederá uma ditadura?