12 outubro 2013

Michel Clouscard, o melhor marxismo


Confesso que quando li Le Capitalisme de la séduction e, logo, La Bête sauvage, Métamorphose de la société capitaliste et stratégie, de Michel Clouscard - certamente o mais pujante pensador marxista após Gramsci - reagi negativamente. As circunstâncias e a reacção epidérmica a rótulos e a arrumação genérica do autor como "inimigo", impediram-me de o compreender e de lhe atribuir o lugar cimeiro que ocupa na reflexão sobre o liberalismo libertário, estimulado na Europa pelo Maio de 68 e terminado em tragédia com a demolição/diabolização do Estado pelas mãos dos meninos burgueses e consumistas que, sendo de esquerda, transformaram o capitalismo em selva. Eis, finalmente, que Clouscard ganha plena legibilidade.

A liberdade com roupagem de opulência, consumo, "conforto" e prazer escondia, pois, indústrias milionárias de alienação, a destruição sistemática das instituições inculcadoras da ordem  social, cultural, e política. Foi com a benção do consumismo, do crédito para todos, do dinheiro barato que se semeou a crença que a felicidade individual só se realizaria com a substituição do dever pelo prazer e quando todas as formas de autoridade fossem substituídas pela cultura do lúdico. Certamente que ao cerrado combate para a destruição da escola e da cultura na sua expressão mais latitudinal - hoje transformadas em negócio e consumo - implicaria ipso facto o fim da própria ideia de cultura. Pensaram os ingénuos que se abria uma nova era de ilimitado experimentalismo e busca de um novo tipo de homem. Compreende-se agora o mito da "classe média", solução engenhosa para desagregar a cultura de classe (inerente a cada grupo social) e sobre ela criar uma só classe de consumistas, angariadores de crédito e prazer. A bolha imobiliária (como a bolha do automóvel para todos, a bolha das PPP's para abrir estradas levando às "novas urbanizações") - tudo isso um negócio que requeria mais mercado.

A verdade é que o capitalismo libertário se desfez deliberadamente de todas as formas de limitação - por via da moral, da ética, da responsabilidade - para, assim, implantar, não o contrário da velha ordem burguesa, mas uma sociedade sem centro, um não-Estado, uma anti-economia. Assim se explica a continuada mutilação da dimensão integradora do Estado - assistencial, educadora, codificadora, policiadora - ao longo das últimas três ou quadro décadas. Assim fica explicado o derrube da ideia de fronteira política e económica, a desvalorização moral do trabalho, a exaltação do protestarismo, o culto do "Outro" (multiculturalismo), o combate cerrado contra o patriotismo, as forças armadas e a "educação autoritária". Neste combate, a esquerda divulgou, vulgarizou, legitimou os chamados "sentimentos nobres", enquanto aderia sem reserva alguma à globalização, às migrações, à "cidadania universal". A "cidadania universal" queria apenas dizer mais imigrantes, derrube do sistema social europeu, deslocalização do aparelho produtivo. A Europa, que por via dos fascismos e do comunismo, se armara de dispositivos para regular o desespero dos pequenos, assistiu ao longo dos últimos anos a um recuo civilizacional sem precedentes. Para iludir o vazio, o liberalismo libertário inventou a ilusão da participação, estimulando o convivialismo das internets, as tribunas opinadoras, as causas que - tantas são - dispersam a angústia e compensam psicologicamente os cidadãos pela perda efectiva de capacidade interventora.
Leia-se, pois, sem inibição, Michel Clouscard.


06 outubro 2013

As fabriquetas de falsa consciência da ideologia anti-ocidental

Passando pela secção de humanidades da Bertrand, apercebi-me do imenso caudal de títulos sobre escravatura que se vêm publicando entre nós, montra da recente revoada de estudos ditos africanos a que se têm dedicado esses institutos de estupidez inteligente que entre nós dão pelo nome de universidades. Demasiado ocioso para reproduzir informação sobre o tema, remeto para o impagável Olavo de Carvalho a impugnação dos afoitos "investigadores" nativos.