02 outubro 2013

Morreu o último general


Morreu Silvino Silvério Marques, um dos últimos governantes do Império, certamente o último general digno das estrelas e das passadeiras vermelhas. Conheci-o há cerca de vinte e cinco anos e dele retive deste o primeiro encontro as prendas da inteligência, da boa cultura - aquela que se alimenta do convívio com os clássicos e se alicerça no conhecimento da língua - do patriotismo sem medo do nome e um tom senhorial que já não se encontra numa terra rendida ao jugo da meia-tigela. Com o António Manuel Couto Viana, o Manuel Maria Múrias, o Eduardo Quinhones e o Diogo Loureiro - amigos de primeira linha, todos entretanto falecidos - passei várias vezes pela casa do General ao Restelo, com ele discutindo a possibilidade da transformação da então Nova Monarquia em partido político, iniciativa que, de tão combatida por muitos, acabou por ser inviabilizada. Não fosse tal guerra surda e hoje, talvez, os monárquicos tivessem há muito em S. Bento uma bancada parlamentar. Anos volvidos, ocupando eu as funções de director-adjunto de um jornal diário, tive o prazer de reencontrar o General. Escrevia SSM duas ou três vezes por mês para uma coluna em que aflorava os temas  (proibidos, censurados) do lento descambar para o precipício, da epidemia de estupidez que se foi espraiando e minando ano a ano e até ao desastre presente a sociedade portuguesa. Depois, passei a encontrá-lo de quando em vez - na Sociedade de Geografia, nas celebrações do 10 de Junho, num ou outro lançamento editorial - gabando-lhe a lucidez, a afabilidade e bondade de carácter, o transbordante amor a Portugal que não mais cabia neste portugalinho enganado, pelintra, "europeu", servil de hoje.
O Portugal de Silvério Marques era o meu Portugal; grande, aquém e além mar, fraterno, diverso, conjuntivo. Tudo isso acabou e com a partida de SSM a memória de um outro Portugal vai-se desvanecendo. Estamos mais pobres, mas de tão alienados, poucos se darão conta. Hoje morreu um dos poucos homens que sabia que Portugal era mais, imensamente mais que isto que hoje temos.