20 setembro 2013

A monarquia, escola de moderação


Anteontem, no avião, li um texto da autoria de um desses auto-proclamados "intelectuais" que tanta confusão têm semeado ao longo destas tristes décadas de desnorte. Afirmava que a raiz da actual crise se deve à "manutenção do espírito monárquico", Engana-se redondamente o confuso escriba. Sou um realista e aquilo que destaco na monarquia é a continuidade: a monarquia é continuidade.
Sou um funcionalista e aquilo que destaco na democracia é o facto de ser um dado de civilização e a melhor resposta à conflitualidade inerente à vida política. Quem da democracia tem um entendimento diferente são os intolerantes da tolerância e parece haver mais rabos-de-palha nos totalitários que o negam que entre os velhos e empedernidos liberticidas. Contudo, a democracia manifesta perigosas tendências que importa controlar: a tendência oligárquica, a confiscação da vida política por grupos de interesses, a demagogia, o populismo e a incapacidade de consenso.
Logo, concebo a monarquia como um sistema não-democrático que permite caucionar a mudança. A prová-lo, o facto da totalidade das monarquias existentes constituírem no seu respectivo quadro geográfico exemplos de adesão às cartas internacionais, modelos de tolerância e abertura à mudança; contrastando com as repúblicas que são, têm sido desde a revolução francesa, escolas de tirania e imposição.
A monarquia, ao contrário das ditaduras, melhor serve a mudança, pois limita o apetite pelo poder nu daqueles que encaram a acção política como arte (os revolucionários ou engenheiros sociais). Ora, em política, os homens não devem submeter-se a teses; devem viver em sociedade.
Nas monarquias, ao contrário do que dizem os seus detratores, não se colocam as estafadas superstições dicotómicas de razão/ sentimento, progresso/reacção, ciência/fé, luzes/ supesrtição; em suma, a monarquia é espelho da cultura, de progresso e estabilização. É uma escola de moderação e uma força conjuntiva.

17 setembro 2013

Maçonarias


Há pouco mais de dois anos, num jantar na embaixada de Portugal em Bangkok, perante o estupor de uma roda de conversa, afirmei ao embaixador da França que a religião oficial da República Francesa é a religião maçónica. Em surdina, a simpática embaixatriz francesa disse-me que não fizesse tais afirmações demasiado "assertivas", pois coisas dessas não "se podiam afirmar em público". Senti que a simpática senhora sabia do que falava e que, talvez - a hipótese é minha - haveria naquela sala vários irmãos que certamente não tinham gostado da minha "provocação". A notícia do DN não me espanta. Dir-se-ia que para lá dos partidos, a democracia e o sistema representativo foram há muito raptados por forças que são a negação clara do princípio da transparência propalado pelo regime, que redes informais poderosas mutilaram e mataram a leal concorrência, que as instituições que são salvaguarda da liberdade postulada desfiguraram a extremos de caricatura a igualdade perante a lei. É evidente que nas maçonarias há excepções e que ali também há gente honesta e limpa. Contudo, parece haver tamanha colisão de interesses entre a vida pública e as organizações secretas que, sem chegar ao extremo de advogar a interdição do acesso a cargos públicos a cidadãos que prestem obediência a tais associações, deveria ser-lhes exigida declaração de vinculação. 

16 setembro 2013

O anti-monarquismo psicológico


Grande parte dos chamados “problemas filosóficos” e dos “problemas teóricos” têm como origem o temperamento, como notava William James. No que à intriga polítiqueira respeita, não funciona o amor à verdade nem preocupações éticas. Sendo a menos interessante, ocupa lugar cativo no sentimento anti-monárquico e recruta sobretudo argumentos de traumatismo social, despeito e ressentimento. O velho Gregorio Marañon (neurologista) escreveu nos anos 30 um belíssimo ensaio sobre a pecha do ressentimento na política (O Ressentimento em Tibério) que se aplica como uma luva ao arsenal de móbiles de que se serviram os agitadores para destruir a reputação da Casa Real, das Instituições e até da Liberdade – a mais ampla que se viveu em Portugal nos seus oito séculos de História – que foi a chamada Monarquia Constitucional. O ressentimento dos traumatizados sociais foi particularmente importante na agitação do movimento republicano e há casos gritantes de republicanismo (isto é, anti-monarquismo) para com ele perdermos muito tempo, como são os casos de Guerra Junqueiro, do Sr. Grandela e tantos outros chefes de fila republicanos que assim se fizeram por não verem cumpridas expectativas de reconhecimento e negócios.
As tertúlias maledicentes do velho Café Gelo do Rossio, “O Marquês da Bacalhoa”, de António de Albuquerque, que Raul Brandão calcinou: “Agora é jornalista, escritor, poeta, e publica este livro de escândalos, em que a rainha, senhora na mais alta acepção da palavra, é posta de rasto. Assim, parte apreciável dos escritos republicanos estão manchados pelo humor raivoso.
Serviu-se o ressentimento de meios de grande violência psicológica, pela palavra e pela palavra escrita, que abriram portas ao revolverismo ao bombismo, à apologia da violência e até do regicídio, quiçá o mais vergonhoso acontecimento da vida política portuguesa. Vulgarizada a violência, tornou-se justificável toda a violência que foi a história da chamada 1ª República; em suma, aquilo a que um arrependido, Homem Cristo Pai chamou de banditismo político.
De notar que, para os não-traumatizados sociais, o problema da destruição da monarquia nunca se colocou. Eça aceitou a monarquia como um dado da identidade política portuguesa, assim como António Sérgio – um homem da esquerda e monárquico – filho e neto dos viscondes Sérgio de Sousa, que até quebrou a espada de oficial da marinha quando veio a tal república.
Houve, também, os arrependidos da república: Braancamp Freire, Fialho de Almeida (que foi perseguido e deixou de poder publicar em Portugal e teve de editar no Brasil), António Sardinha, Alfredo Pimenta.
Actualmente, posto que o número de traumatizados sociais tendeu a decair com o fim da tal classe operária, que se tornou proprietária, consumista e viajada para as repúblicas dominicanas e brasis, a base de recrutamento passou a ser feito entre os alpinistas e trepadoristas sociais: a nova classe de parvenus, os novos colarinhos brancos dos aparelhos dos partidos, dos Calistos Elói e do alto funcionalismo improdutivo e, sobretudo, da alta finança, que já não é a alta finança de outrora (do Visconde de Balsemão, de Teixeira de Barros, até dos Espírito Santo e dos Melos), mas essa plutocracia semi-letrada, carregada de baias e deslumbramentos de socialite. Esses são, verdadeiramente, a nova classe que não tolera a possibilidade de uma restauração monárquica. Seguem a velha lógica do incendiário: “se não posso ter, deito-lhe fogo”.