20 julho 2013

O dia seguinte ao fim da salvação nacional


Para quantos, ainda ingénuos e crentes nas razões que empurram para a vida pública tanto figurão, julgavam que da maratona de negociações ontem terminada sairia a tal salvífica solução, o fruste resultado terá constituído a derradeira ilusão na capacidade do regime em colocar Portugal acima dos interesses de agenda dos comensais que integram as empresas partidocráticas. Manipulação emocional, fingimento e dissimulação, eis o que andaram a fazer de sede em sede ao longo de uma semana meia dúzia Metternich caseiros. Parece que o regime foi acometido de irreprimivel impulso suicida  e que à impreparação notória dos seus próceres se juntou agora uma absoluta incapacidade para a manutenção da máquina por eles montada ao longo de décadas. Confesso que acreditei num último assomo de bom-senso, que o PS se libertaria do jugo de antiguidades imprestáveis e se pudesse dar cumprimento ao desígnio do Presidente, que não mais fez que apelar àquela razoabilidade que separa os seres irracionais das pessoas sensatas. O Primeiro-Ministro, num improviso - coisa rara em terra de leitores de papéis - elucidou como nunca o fizera antes sobre o verdadeiro estado do país. Estamos na 25ª hora, em cenário que muitos comparam ao de uma fragorosa derrota militar, mas disso não quiseram fazer caso as insignificantes caras, caretas e carantonhas que ornamentam o mísero friso dos donos da vida política portuguesa, os assalariadados que dão a cara, mas sobretudo os mandantes. Depois disto, a salvação nacional passa das mãos do regime para qualquer um que por aí apareça, conquiste os corações e inteligências e meta mãos à obra. A 3ª República vai morrer conspurcada com o ferrete de, nas vascas da agonia, ter uma vez mais dado o triste exemplo do fulanismo e do anti-patriotismo que a marcou desde o parto. 
Quando tudo terminar, não haverá lamentos nem música fúnebre mas, tão só, uma alegre fanfarra. Quando virá o dia?

19 julho 2013

Parabéns ao Presidente


O Presidente visita as Selvagens em manifesto acto de soberania, mas alguns - os eternos cultores da estupidez, que se manifesta dos mais inesperados quadrantes, até de bandas ditas "patrióticas" e "monárquicas" - logo caem desalmadamente sobre o Chefe de Estado. A confusão, a amálgama e a absoluta falta de tino - produto de décadas de embrutecimento e selvagização dos portugueses - tem destas coisas. As pessoas perderam o direito de se calarem - talvez a maior exibição de bom-senso e sabedoria - confundindo o reles plano da politiquice com os interesses permanentes da nação e do Estado, os quais não se discutem. A idade ensinou-me, à custa de duras labutas e enormes decepções, a consentir algo que julgava inapropriado de verbalização: a maioria da gente que opina, que fala e escreve fá-lo apenas para entreter a sua roncante falta de inteligência. E foi isso, infelizmente, o que aconteceu durante estes dias em que a bandeira portuguesa voltou a flutuar num agreste pedaço de areia e rocha cobiçado pelos nossos vizinhos espanhóis.

17 julho 2013

O Presidente é sempre de alguns


O presidente americano tem repetido a cantilena por nós sobejamente conhecida do "presidente para todos os americanos". As repúblicas - todas oligárquicas - pressentem a fragilidade de uma chefia de Estado a prazo, macaqueando a permanência que quer dizer monarquia, numa chefia de Estado dinástica, hereditária e não submetida às flutuações emocionais e irracionais, aos interesses económicos e ao apetite de poder das elites [divididas] que entre si se guerreiam. O garante das liberdades e da Liberdade não são as repúblicas oligárquicas, mas as monarquias, imparciais, não subornáveis, indiferentes aos interesses do momento e fiéis intérpretes do interesse colectivo, do interesse do Estado e da unidade nacional. A América sempre foi uma república oligárquica. A atestá-lo, o facto do presidente não ser eleito directamente pelo universo eleitoral, mas por um colégio.
A democracia entrou depois, mas ficou-se pela câmara de representantes e pela liberdade de que gozam os cidadãos, sobretudo aqueles que integram as mil e uma "minorias" que nas eleições fazem lóbi por um e outro candidatos. Os lóbis não deixam Obama em paz. Pedem-lhe contas e dele exigem que governe em função dos mil e um suados acordos de bastidores. Nos EUA, como em Portugal, a presidência está cativa desde o primeiro dia. O presidente é um homem de facção, de partido, amigo de muitos lóbis e inimigo de muitos outros lóbis. Ignorá-lo é um clamoroso atestado de ignorância política. O verdadeiro sino da Liberdade, aquele que soa em defesa do bem-comum, aquele que concita a unidade em momentos de perigo e que conclama à grandeza dos vencedores face aos vencidos, que perdoa e aplica a justiça, que não olha à riqueza e à pobreza, que representa o passado, o presente o futuro, não se funda em ideologia alguma e não é contra nada nem ninguém, mas por todos, é a monarquia. Sabemos quanto perdemos como comunidade de destino ao vermos partir o Rei, substituído por homens de mil e um artifícios, oprimidos por constrangimentos, incapazes de discernir o interesse colectivo. Enquanto não compreendermos a tragédia da república, seremos sempre escravos e mandaretes de lóbis.

15 julho 2013

O aquário que fala


Alegre expande-se em doutas considerações sobre a crise. Como qualquer peixe do aquário da oligarquia, vive desligado da exterior realidade comezinha: não trabalha, não está submetido a avaliação, não tem objectivos profissionais. Vence no dia certo, nunca foi assoberbado pelas ninharias da engenharia das finanças caseiras - da renda, da letra que vence, da água, da luz, do gás, do tal livro que se gostaria de ter - nem foi visitado pelo espectro do desemprego. Para ele (como para tantas centenas de outros) a vida é um contínuo sem atribulações. Se lhe perguntarem pela profissão, não tem. O grande drama desta gente que vive da vida fácil há décadas - Alegre não tem o exclusivo da profissão "sem profissão" - é a de terem perdido in nihilo tempore a mais pálida ideia do que é ter preocupações. Dedica-se à arte fácil da política, como tantos milhares de fulanos que enxameiam as sedes da vida despreocupada em busca de um lugar na câmara, no parlamento, na fundação, no ministério. Quando os ouço perorar sobre tudo e sobre nada, dando conselhos, de dedo em riste sentenciando o caminho certo, às vezes me espanto com o topete; outras enche-se-me o peito de raiva. Em tempos que já lá vão, a classe política [sem classe alguma] ainda se podia vangloriar de uma ocupação. Passaram 40 anos (duas gerações) e os sobreviventes da manhã radiosa continuam a exigir dos portugueses a renda por feitos míticos decididamente tão magníficos como a tomada de Troia ou as Termópilas. Um dia, quem sabe, um gato curioso com aquelas criaturas, tira-las-á do aquário e aí, sim, será um sufoco.