11 julho 2013

A ruína chegou à ruína


Nunca teve forma. Foi sempre negação. Hoje, pela noitinha, a ruína soçobrou. Perante o abismo, sem presente nem futuro, há que pensar o país sem o regime. Há quem persista, teimosa e cegamente, em aplicar receitas que nos trouxeram ao colapso. Portugal precisa de um novo regime, de uma nova constituição e de novos governantes. Que o regime o compreenda e saia com aquele mínimo de dignidade que o interesse nacional exige.


10 julho 2013

Pina-maniqueiros

Ainda o novo titular do MNE não assinou o compromisso de honra e já uma caterva de pina-maniqueiros (os esbirros das novas inquisições apresentam-se como "jornalistas de investigação) anda em frenesim de denúncias. A inveja, a maledicência e os ajustes de contas, não raro a coberto do anonimato - não raro de autoria de próximos e "amigos" das vítimas - são demonstração da impossibilidade de, aqui, funcionar algo remotamente parecido com uma democracia. Como pode este país exigir a tal cultura da transparência se quase todos, acolitados em grupos, mascarados e blindados no anonimato, incapazes de emulação, despedaçam o primeiro que der um passo em frente ?
É por estas e por outras que a vida política deixou de interessar aos mais avisados e prudentes; é por estas e por outras que a vida parlamentar se foi reduzindo a fulanos e fulanas sem profissão conhecida, que as elites verdadeiras se fecharam no cultivo de jardins escapistas, que os cargos públicos - outrora ocupados por figuras de primeira plana - se destinam hoje a quantos, nada tendo a perder, nada podem temer. 

09 julho 2013

Incontinências



Da logorreia e incontinência verbal à coprolalia, do género rastracueros à inimputabilidade geriátrica, Soares tem-se excedido em agravos de difamação, acicate à violência e desrespeito pelas instituições e seus titulares.Fá-lo em todas as circunstâncias com agastamento, rancor e quase impudicia, não só em mediáticos actos públicos para onde o arrastam (literalmente) com propósitos obscuros, mas também em circunstâncias menos expostas às quais acorre acidentalmente. Ainda há semanas, fui testemunha de uma destas lamentáveis intrusões da sua fúria abrasiva. Tratava-se de uma sessão evocativa de um homem de letras. Soares ali apareceu, levantou-se do lugar na assistência para tomar a presidência, tripudiou ignobilmente o orador convidado; por fim, apossou-se da evocação para infindável exercício memorialístico. Num país civilizado, o fel, o desprezo pelos outros, a incapacidade para razonar, a arrogância de que dá repetidas mostras seriam suficientes para que a família, os amigos e admiradores, por pudor ou prudência, o impedissem de dar livre curso aos demónios que o tiranizam. Custa-me dizê.-lo - não sendo médico, não opino - mas tudo concorre para que Soares não esteja no completo domínio das suas faculdades. Resta-me perguntar a quem interessará manter a ilusão de um Soares vivo, pois, tudo o indica, Soares já há muito morreu.

08 julho 2013

O sobressalto cesarista


O anti 15 de Setembro, o Thermidor da contestação sem rosto e das grandoladas, o pontapé na porta da lamúria, a impotência das instituições e do burguesíssimo bom senso perante a vontade de um homem. Contrariando o parece-mal, tivemos uma semana cheia de sobressaltos e momentos de verdadeira comoção bonapartista. Assim, vale a pena. Que venham mais, depois de 40 anos de figuras e lances que, de tão pequenos, não cabem no rodapé das coisas que merecem ser lembradas.


07 julho 2013

Como pode o regime viver sem Portas?


Pensar o PP sem Portas seria como aceitar o Politeama sem La Feria, a Fundação Gulbenkian sem o museu, os Restauradores sem o obelisco, o Chiado sem o Elevador de Santa Justa. O PP é Portas e Portas o PP. Sem Portas, o PP voltaria a ser a Avenida de Roma, uns cavalheiros educadinhos, casaca à almirante com penduricalhos dourados, uns miúdos de vinte e poucos vestidos como velhotes de setenta e tal, umas garraiadas e noites de fado, e pronto. O vento que passou pela cabeça de Portas foi coisa de uma noite mal dormida, como quando Alexandre pegou fogo ao palácio de Persépolis para, de seguida, arengar aos seus incondicionais para que debelassem o flagelo. A maioria daquela gente não conseguiria dirigir com êxito uma tabacaria, um pronto-a-vestir ou organizar uma quermesse. Sabem-no, pois foi Portas quem por duas vezes em seis anos os levou para o governo. 

Só hoje me dei conta que dos líderes do regime, Portas é o único que não lembra um padre, coisa que muito o favorece num país católico mas entranhadamente anti-clerical. Louçã - pois o que lá está nem existe - faz o teólogo sem fé, quase odioso no seu indisfarçável "ódio ao humano"; Seguro é tão estampadamente seminarista que poucos o poderão imaginar no cevadouro da vida governativa, muito menos resistir a uma grandolada sem espavorir; o fulano do PC parece o líder de um desses núcleos das Testemunhas de Jeová que aos sábados insiste em passar a Sentinela ou o Despertai; Passos (imaginem-no de sotaina) lembra um sacerdote bem apessoado, daqueles que povoam as secretarias da cúria.

Portas, esse, muda de voz, de discurso, semblante e trajo com tal à-vontade que a não imagem se transforma na imagem que cada um dele retém. No fundo, é o político por antonomásia - não há política sem estratagema, sem intriga e sem oportunismo que rima com sobrevivência - e é capaz de, no mesmo dia, passear-se pelo Bolhão, beijar e ser beijado por multidões de peixeiras e hortaliceiras, almoçar no American Club e terminar o dia de samarra aos ombros e boné acachapado discursando sobre as labutas do campo. A crise passou e, ao contrário dos opinadores e periodiqueiros, na próxima semana tudo estará esquecido, pois o povo gosta de espectáculo e o único homem da política que lhe lembra os afectos, as excitações, as lágrimas e ânsias dos futebóis, dos programas de palmas e prémios da tv, as telenovelas ou as revistas do coração é Portas. Portas passa a ter entre mãos o dossier Troika. Seguro não poderia esperar pior. Apostem comigo em como vai ser Portas a expulsar a Troika, a conseguir a renegociação e a colher os aplausos pelo investimento na economia. Sei-o com a mesma certeza que amanhã haverá praia, calor e muitos refrigerantes.