21 junho 2013

Prosas barbaríssimas da bela língua portuguesa

"Suponha Vossa Excelência um gorila; mande a um tosquiador de carneiros que da cabeça do gorila faça desaparecer todos os pêlos; em seguida, mobilizando todos os recursos científicos dos veterinários, veja se consegue que a capacidade da respeitável pança do bicho seja elevada a uma potência de expoente igual ao infinito; ascendendo às eras mitológicas, some a sensualidade macacóide à dos faunos cornígeros; mande pintar de branco o produto assim obtido; coloque este conjunto diante de um maço de notas de banco e de uma mulher, observe-lhe os movimentos nesse transe e terá a ideia do que é José Correia, cónego da Sé Catedral, professor do Instituto Caboverdiano, presidente da Comissão Municipal de S. Nicoloau, etc, etc..."

Baltasar Lopes da Silva, Cónego Correia, mulher e filhos ou carta aberta a S. Ex.ª o Senhor Governador da Província de Cabo Verde, Lisboa, Imprensa Beleza, 1929

20 junho 2013

Fascismo e socialismo: umas migalhas de esclarecimento para um sindicalista da CGTP


Na tv, um sindicalista da CGTP fazia há pouco uma violenta catilinária contra o governo, acusando o executivo de estar a recuperar o velho ódio fascista contra o ideal de uma "democracia avançada". Isto é recorrente. O sindicalista em questão, analfabeto como a maioria dos jornalistas que o entrevistam, parece esquecer que o ataque ao liberalismo o aproxima do fascismo que foi, aliás, durante muitos anos, o mais sólido interlocutor do comunismo.

A publicação de Compagno duce: fatti, personaggi, idee e contraddizioni del fascismo di sinistra, de Ivan Buttingnon, despertou uma vez mais o debate sobre a origem e permanência do socialismo enquanto trave-mestra do movimento fascista e do regime que governou a Itália durante o vinténio.
No início da sua carreira como agitador de ideias, raros eram os camaradas do futuro Duce que não se referiam ao fogoso jornalista e orador por Mus-Len (Mussolini-Lenine). Mussolini era, então, um socialista radical, grande admirador do exilado líder bolchevique, tinha por amigos Nicola Bombacci, futuro fundador do Partido Comunista, mas também Leandro Arpinati, sindicalista e militante socialista, assim como Pietro Nenni, fundador do Partido Socialista Italiano. Bombacci aderiria ao fascismo, bem como Arpinati, enquanto Nenni - que compartilhou a cela com Mussolini em 1911, por ambos se oporem à guerra de agressão contra a Líbia - se manteve opositor do regime fascista, mas sempre, a instâncias do seu velho amigo, benevolamente tratado pelo aparelho repressivo do regime.

Convém lembrar que a Itália de Mussolini foi o primeiro país europeu a reconhecer diplomaticamente a URSS (1924), que ao longo da década de 1930 as relações comerciais e de cooperação científica e tecnológica entre a Itália e a URSS foram relevantes, que os estaleiros italianos - então reputados fabricantes de submarinos - forneceram aos soviéticos todo o apoio na construção da sua frota submarina,  que a URSS foi o único país com assento na SDN a apoiar a invasão italiana da Etiópia (1935-36). A lista alongar-se-ia, mas permaneceria como mero reflexo do normal exercício de Real Politik se não fossem relevantes as marcas desta simpatia recíproca no domínio ideológico. A Carta Italiana do Trabalho, documento que regeu as relações laborais e o estatuto do trabalho, era por muitos considerado um texto marcadamente socialista, o "corporativismo avançado" de Bottai era inspirado por legislação soviética, como de marca soviética foram os planos quinquenais lançados pelo regime. O fascínio exercido pela URSS enquanto "sociedade sistémica" era alimentada pela crença que fascismo e comunismo constituíam a superação da velha sociedade liberal e ambos, não obstante se digladiarem e ofenderem por palavras, partilhavam a mesma crença da necessidade de uma sociedade nova, de um Homem Novo e de uma nova forma de religião política, alimento do Estado totalitário. Mussolini, entrevistado por Emil Ludwig, afirmava que as semelhanças entre fascismo e comunismo eram notórias, que os adversários do comunismo e do fascismo eram os mesmos (a democracia, o capitalismo e o individualismo). Bottai, ministro das Corporações e intelectual do regime, corrigia Mussolini nas páginas da sua revista Critica Fascista, preferindo à questão Roma ou Moscovo? o do entendimento Roma e Moscovo.

No que respeita à vida política italiana sob o fascismo, os comunistas - muito poucos e quase todos integrados nas organizações do regime fascista - faziam parte daquele jus murmurando (coisa murmurante) tolerada pelo regime. Os grandes intelectuais e criativos do pós-fascismo, sobretudo os escritores e cineastas que fariam do neo-realismo o manifesto de aspiração a uma nova Itália, foram todos, sem excepção, empregados do regime mussoliniano. Infelizmente, em Portugal, país absolutamente ausente da intensa investigação académica que vai tratando de estudar o século XX à luz de preocupações científicas, esta e outras matérias são ainda desconhecidas. Aqui fica, pois, para que deixemos de ser a Suazilândia académica da Europa, o conselho e sugestão a tantos centos de futuros mestres e doutores.

17 junho 2013

O Reino de Ferro


Uma bela história do coração da Europa feito império, agora parcialmente acessível através do Google books, imprescindível para compreender o comportamento da Alemanha, duas vezes derrotada enquanto "perturbador continental" e agora reerguida como mentora do unionismo europeu. Uma potência como a alemã - com o seu passado de derrotas clamorosas e dissimulada auto-estima - não deixará de lutar até ao limite pela sua ideia de Europa. Um povo determinado, de imensa coragem holística que mantém, não obstante ser a quarta potência industrial do planeta, uma visão quase camponesa da existência. Com ou sem Merkel, a Alemanha vai continuar a dirigir o processo que ditará o fim ou o sucesso de um conceito de Europa por ela inspirado. Obra a não perder.

16 junho 2013

Ninguém tem o monopólio da estupidez


Alter do Chão, juntamente com o Porto a mais antiga marca portuguesa, foi extinta por decreto celerado. Sei que a estupidez, a rusticidade mental, a insensibilidade troglodita, o analfabetismo e o casca-grossismo da nova burguesia feita de MBA's nos states pouco compreende, nada sabe e recusa tudo quanto não compagine com a dita literatura esconde-tolos do "how to get rich quickly". Perante o facto consumado, e porque o dinheiro e os negócios se fazem com uns fulanos quase atrasados mentais que julgam que ter educação se limita a assinar cheques e ler as bolas, aqui deixo às supinas meninges arrasa-cultura uma lista de inúteis instituições que urge extinguir;

- Arquivos Nacionais / Torre do Tombo, papéis velhos acumulados pelo coleccionismo diletante. Aquela papelada é anterior ao word e ao excel. Agora, sim, com uma digitalizadora, compacta-se aquela inutilidade toda e recicla-se. Poupa-se a cafetaria, onde se bebe café e umas madalenas. O edifício dará um bom hostel.

- Biblioteca Nacional de Portugal, três milhões de cartapácios oriundos de mosteiros, livros de horas e outra tralha iluminada, bibliografia antiga e contemporânea para desocupados, colecções de periódicos, cartografia, iconografia, música, espólios literários, toneladas de papel lidos e relidos por gente que se julga mais inteligente que os outros.
Poupa-se o refeitório, onde se servem umas boas tostas mistas e o edifício servirá para um esplêndido parque automóvel.

- Museu Nacional de Arte Antiga: umas tábuas e umas serapilheiras (telas) pintadas com santinhos e anjinhos, umas vistas de cidades velhas, umas visões do inferno em que os obscurantistas acreditavam, uns painéis estranhos com gente apinhada, uns de joelhos, outros de pé com uns livralhões escritos numa língua desconhecida. Ali fecha tudo, menos o restaurante, onde se pode falar de negócios. O edifício daria um óptimo condomínio.

Dizem - só acredito quando o 1º Ministro se pronunciar, que afinal é a fundação que vai ser extinta e não a coudelaria. A experiência das últimas décadas de guerra contra a cultura portuguesa ensina-me que a destruição se faz, quase sempre, por etapas. Aguardemos. Eis uma excelente matéria para a intervenção do Dr. Paulo Portas.