01 junho 2013

Para a imprensa angolana, Dom Duarte de Bragança já é Rei de Portugal


Se entre-muros a república conhece dias de escárnio e ao Chefe de Estado já não são tributadas quaisquer provas de respeito, ao Chefe da Casa Real - cá como no mundo que fala português - são reconhecidas qualidades de representação do país. Angola recebe festivamente Dom Duarte de Bragança, demonstração clara que naquele país a tão propalada hostilidade a Portugal deve ser interpretada como desconfiança em relação aos titulares do regime. Dom Duarte é para os angolanos "o Rei de Portugal".
Após a atribuição da cidadania timorense e da recepção em grande estadão que lhe foi preparada há meses, aquando da sua visita ao Brasil, só nos ocorre uma velha obra publicada pela antiga Agência Geral do Ultramar e que tinha por título Navegação de Paz e Glória.

31 maio 2013

O Rei que foi atraiçoado por Churchill


No passado domingo, em cerimónia carregada de patriotismo, foi a enterrar em solo sérvio o Rei Pedro II da Jugoslávia, monarca que passou a vida em penoso e distante exílio nos Estados Unidos, onde faleceu em 1970, vítima de prolongada doença. O jovem Pedro II fora forçado a abandonar Belgrado em Março de 1941, por ocasião da invasão das forças germano-italianas, estabelecendo-se em Londres e dali lançando pela rádio um apelo à resistência contra os invasores. A proclamação foi de imediato cumprida pelo general Draza Mihailovic, homem de grande carisma e reconhecida competência que à data da invasão ocupava funções de comando no Estado-Maior Geral. O general pôs em marcha um temível movimento de resistência nacionalista, pelo que em Janeiro de 1942 foi nomeado pelo governo no exílio Comandante-em-Chefe das Forças Armadas no interior.

Ao longo de 1942, Mihailovic contou com o apoio incondicional dos aliados ocidentais, sendo festejado pela imprensa aliada como o maior líder da resistência na Europa ocupada. Porém, inexplicavelmente, em inícios de 1943, Londres resolveu retirar-lhe confiança e apoiar a guerrilha vermelha de Tito, chefe de um insignificante movimento comunista. Londres e Washington deixaram de fornecer armas à guerrilha monárquica, acusando Mihailovic de duplicidade e colaboração com os alemães. Mesmo despojado de apoio, Mihailovic manteve implacável luta contra o ocupante, não deixando sempre de protestar lealdade à Coroa. Ao finalizar a guerra, foi acusado de traição por Tito e fuzilado após um simulacro de julgamento. Ao longo de décadas, sobre o seu nome foi lançada a damnatio memoriae, mantendo-se a lenda do seu colaboracionismo com os nazis. Graças a teimosa persistência de David Martin, especialista em história jugoslava que ao longo de anos estudou as fontes documentais disponíveis nos EUA, na Grã-Bretanha, Rússia e Sérvia, sabe-se hoje que Mihailovic foi, tal como Sikorski - comandante do Exército Polaco - abandonado e trespassado a Estaline por Churchill. 

Desta infame barganha resultaram centenas de milhares de mortos, a entrega do país a Tito, a deposição de Pedro II e a longa ditadura comunista que levaria à guerra civil e dissolução da Jugoslávia. Pedro II perdeu o trono e os povos que, juntos, faziam da Jugoslávia uma entidade estabilizadora do velho e inextinguíveil cadinho de ódios balcânicos, traídos pelos arranjos da real politik. Não se duvide por um minuto da absoluta ausência de escrúpulos de Churchill em matéria de política externa -também inculpado da morte de Mussolini, com quem mantivera durante anos trato quase amigável - pelo que se enganam clamorosamente quantos persistem em ver no truculento Lord um dos símbolos maiores da ética democrática. Churchill terá sido, talvez, um dos homens mais violentos do século XX. Não sendo ditador, foi belicista, racista entusiasta, moveu e acicatou ao longo da sua carreira inúmeras guerras de agressão e a ele se devem grandes culpas na dissolução do Império Otomano e no nascimento desse aborto geopolítico que é o Médio Oriente contemporâneo. 

30 maio 2013

Uma revelação: no tempo em que os homens imitavam os deuses


De Juan Carlos Losada, a novela da vida prodigiosa de Fernando Álvarez de Toledo, Duque de Alba, cabo de guerra e grande de Espanha, terror dos protestantes. O eco glorioso da falhada luta pela unidade da Europa e pela defesa do mundo latino, berço da civilização. A Europa dos cavaleiros, da honra e do serviço antes da Europa dos mercadores e prestamistas. A não perder.

28 maio 2013

Vender cutelos a quem nos degolará


A campanha do lóbi das indústrias da morte venceu tangencialmente na cimeira dos ministros dos estrangeiros da União Europeia. No momento em que McCain já se passeia por terras da Síria ocupadas pela Al Qaeda, violação das violações dos direitos soberanos de um Estado com assento nas Nações Unidas, a UE rende-se à política bucaneira da entente franco-britânica. Pela voz da soit-disante representante para os negócios estrangeiros da União, Catherine Asthon - que cada vez mais se parece com uma das criaditas da velha Família Bellamy - foi lido o interminável comboio de novas iniquidades contra o povo sírio. Posto que alguns Estados membros se recusaram avalizar o fornecimento sem restrições de armas destinadas aos terroristas, o Conselho lavou cobardemente as mãos dessa pútrida matéria, fazendo-a transitar para cada um dos governos; ou seja, a partir de hoje, britânicos, franceses ou quaisquer outros membros da União poderão fazer entrar em terras sírias armas destinadas a destruir, ferir e matar. 
A UE não foi mais longe, graças à firme resistência oferecida pela Áustria, Finlândia, Suécia e República Checa. Tratando-se de membros que gozam de confortável liberdade e não estão constrangidos por limitações da sua soberania, depreende-se que outros governos subscreveram as posições belicistas temendo represálias. Assim vai a Europa da União e da Nato, outrora bastião da liberdade, hoje máscara cínica prostituída às mais sinistras agendas.

NB. A posição portuguesa foi, a todos os títulos, de grande clareza. Paulo Portas levantou objecções de forma e conteúdo e não tomou partido pelos adeptos do intervencionismo. Tal posição só nos deixa ficar bem.

26 maio 2013

Primeiro vencer, depois negociar

O exército sírio continua a explorar as recentes retumbantes vitórias militares, reocupando largas extensões de território, restabelecendo a quadrícula do controlo militar e administrativo, levando sossego e ordem às províncias limítrofes da Turquia, Líbano, Jordânia e Iraque. As imagens apresentam uma longa coluna militar - uma inteira brigada de infantaria - dirigindo-se a Homs, onde se travam duros combates. O entusiasmo e confiança das tropas, o apoio e incentivo que recebem dos populares destoam da desonestidade dos noticiários a que temos acesso no Ocidente. A Síria está a travar uma luta cujos contornos extravasam largamente a geografia do Médio Oriente. Os recentes acontecimentos na Suécia, Grã-Bretanha e França parece darem razão a quantos - incluindo a Rússia, que levou de vencida a guerra contra o radicalismo fundamentalista no Cáucaso - pedem uma urgente alteração da dúbia e sinistra posição de alguns governos ocidentais.