11 maio 2013

Abreu Amorim e os emplastros deste país


Abreu Amorim, de asa caída deste a saída de Relvas, anda em busca do tal lugar como edil em Gaia. Sabemos que a actividade política transporta implícita a total desvergonha, pelo que o inopinado ataque ao ministro das Finanças - escancarada falta de vergonha, aqui acrescida de roncante populismo - serve às maravilhas para demonstrar a falta de classe da nossa classe política. O estrato mais baixo do artesanato político nativo encontra-se no dito "mundo autárquico". Tendo falhado a carreira para ministeriável, Amorim fez súbita colagem ao estilo chão dos afectos de rua e, como o famigerado Emplastro, apareceu nas pantalhas para pedir a demissão do ministro Gaspar. Amorim quer o tal lugar a todo o custo, mordendo até a mão que o alimentou. O eleitorado é, amiúde, boçal, contraditório, desinformado, manipulável, pelo que Amorim, talvez confiando em excesso na proverbial estupidez das pessoas, queira fazer crer que não é do PSD. Sorte tem o ministro Gaspar por não ter sido "eleito coisíssima nenhuma" e, assim, não fazer depender a sua vida profissional dos afectos e iras de um povo entregue às habilidades dos Amorins deste país.

06 maio 2013

Atacar a vítima


O Direito Internacional, a Carta das Nações Unidas e aquele conjunto de procedimentos e atitudes que se exigem dos actores da comunidade internacional parece não se aplicarem, de todo, a alguns Estados. Os inopinados ataques aéreos desferidos desde a noite de sábado contra a Síria trariam imediatas consequências punitivas ao agressor. Infelizmente, não trouxeram nem trarão, pois enquanto Estado-cliente de um dos membros efectivos do Conselho de Segurança, o agressor pode ameaçar a paz, violar fronteiras, matar centenas de cidadãos de um Estado vizinho, atacar-lhe a capital e até blasonar e ameaçar com mais investidas. O princípio que rege a comunidade internacional é o da reciprocidade. Contudo, se a Síria ripostasse na proporção das ofensas recebidas, seria de imediato alvo de intervenção militar. No caso vertente, mais que supostos como anódinos ataques visando impedir que misseis iranianos chegassem ao Líbano, os bombardeamentos surgem de manifesto como provocações - impunes provocações - visando a abertura de hostilidades. Washington insistiu na peregrina mentira da existência (e utilização) pelos sírios de miríficas armas de destruição massiva, argumento que em 2003 desculpou a invasão e destruição do Iraque. Agora, com a chancela das Nações Unidas, fica-se a saber que, afinal, a utilização de armas químicas no conflito sírio é inteira responsabilidade dos chamados "rebeldes" sírios; a saber, dezenas de milhares de mercenários líbios, tunisinos, iemenitas, turcos e muçulmanos vivendo no Reino Unido, França, Canadá e EUA.
Os bombardeamentos têm duas explicações. Em primeiro lugar, falhou a invasão jihadista, pois que a Síria parece ter ganho a guerra. Falhada a insurreição "democrática" que era, afinal, um assalto ao poder por forças alinhadas com a Al Qaeda, procura-se alargar o conflito. Surge de manifesto que se pretende agora espalhar o conflito ao Líbano e, assim, criar o vazio em torno de Israel; países destruídos, calcinados, dilacerados por crónica instabilidade e guerra civil endémica. Trata-se, pois, de crimes contra a humanidade, conspiração contra a paz e a segurança internacionais, violação dos fundamentos da Carta da ONU. Mas há Estados que não aceitam a Carta nem rubricaram a convenção que rege o Tribunal Penal Internacional, pelo que se colocam num patamar de realismo hobbesiano, ou seja, de absoluta indiferença e desrespeito pelo Direito e pela moral internacionais. Atacar a vítima, eis a triunfante palavra de ordem.
A guerra entre a Síria e Israel poderá ter um desfecho muito similar àquele da falhada investida judaica contra o Líbano. Israel falhou, ou seja, foi derrotado. A dureza, tenacidade e perseverança até hoje demonstradas pelo povo sírio parece não augurar nada de bom para os israelitas. Israel parece não se ter dado conta que o tempo das guerras desiguais terminou.