25 abril 2013

Um pesadelo cansado


A liturgia do 25 da Silva vai-se arrastando penosamente pelas décadas, sonho infantil apodrecido ao sol da crua realidade. "Lições" que quisemos dar ao mundo e terminaram em revolução de pihéria, experiências de uma geração de estudantes que não haviam tido tempo para estudar, de oficiais que não se sentiam bem nas fardas que envergavam, de uma classe operária cujo único fito - como se veio a ver - era a de trocar a marmita pelo consumismo dos ultracongelados, de uma burguesia que queria mandar, mas se fez socialista e se entregou à volúpia na mesa do orçamento. Em 1974, tudo estava disposto para Portugal se transformar numa democracia liberal. O take off industrial processava-se, acompanhando um crescimento ininterrupto desde há uma década, a terciarização avançava, a classe média libertara-se do jugo estatista, abria empresas, formava os seus pimpolhos para o mando.
No estádio inicial, julgou-se que o golpe traria para o poder homens respeitados e respeitáveis: um general com a panache de um prussiano, um primeiro-ministro republicano e maçon conhecido pela probidade, ministros vários com hábitos de trabalho e, até - coisa hoje inexistente - com profissão conhecida.
Mas a criança nasceu mal. Com uns meses de vida, foi atacada de grave moléstia de sarampo que a deixou cega e surda para a vida. Entre os 2 e os 12 anos sofreu a dura fome para, logo, arranjar uns pais europeus adoptivos que lhe permitiram passar a adolescência e a vida adulta entregue aos excessos de glutoneria. 
Aos trinta e poucos, pediram-lhe contas do que havia feito. Só então se deu conta que nada havia feito, que não se havia preparado, que era dependente, que parasitava os doadores, que pedia emprestado para comer, para morar, para se transportar.
Tudo isto me faz lembrar todos os velhos e sepultados sonhos revolucionários que morreram pesadelos cansados; nascidos em afã de salvação, falecidos em tragédia. Ao ver aqueles velhos descendo a avenida, trazendo pela mão os netos, todos gritando estafados estribilhos, me dei conta que a cegueira e a surdez se transmitiu, que estamos emparedados, incapazes de voltar ao passado mas, sobretudo, incapazes de dar um passo em frente.

24 abril 2013

Centro Nacional de Cultura e Biblioteca Nacional homenageiam Víctor Wladimiro


Uma enchente para ouvir a última entrevista concedida pelo meu pai à Antena 2, um friso de oradores de primeira plana tecendo considerações sobre a probidade de carácter, o conhecimento enciclopédico, o amor pelos livros, a paixão pela História e pela Literatura; em suma, uma justíssima homenagem ao homem, ao profissional das letras e ao professor que soube sempre viver em concordância com um amor indiscutível à liberdade e à independência.


Amigos e colegas, familiares, antigos alunos e admiradores prestaram-lhe ontem homenagem, em adesão numericamente expressiva, mas sobretudo em emotivo tributo de saudade que nos reconcilia com todas as adversidades, desenganos e dores da última fase de uma vida intensa de estudo, trabalho e dedicação à causa da cultura.


Na mesa, o Presidente do Centro Nacional de Cultura e Presidente do Tribunal de Contas, Guilherme de Oliveira Martins, a Directora-Geral da Biblioteca Nacional, Inês Cordeiro, a Professora Doutora Annabela Rita, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, António Torrado e Luís Farinha Franco. 


23 abril 2013

Uma nótula mais para o fim da Europa

Os britânicos estão e emalar e deixarão o Afeganistão até finais do ano. Grande celeuma a propósito dos seiscentos intérpretes afegãos ao serviço das  forças expedicionárias de S.M., deixados para trás à mercê dos talibãs que se assenhorarão do território após a partida das forças ocidentais. Estes homens foram, ao longo de dez anos, os olhos e os ouvidos dos britânicos, arriscaram a vida participando em missões de combate em zonas de guerra, prestaram serviços relevantes.


A Grã-Bretanha recusa conceder-lhes asilo político, pelo que a sorte desses colaboradores e respectivas famílias parece selado. Enquanto os ocidentais - sempre pródigos em tonitruantes exibições de fetichismo nas grandes Cartas - se continuarem a portar ao arrepio das mais elementares regras ditadas pela consciência, nada feito. O Afeganistão tem sido uma sucessão de mal-entendidos e fracassos, tal como foi o Iraque e será a Líbia. Contudo, há um mínimo de decoro [que fazia parte da ética europeia] e que vai desaparecendo com os meninos que tomaram de assalto os centros de decisão ocidentais. São meninos educados no mais chão pragmatismo da lógica do negócio e do lucro, sem travejamento, sem referências e, sobretudo, sem moral alguma. Nada que não saibamos há muito; por outras palavras, a Europa deixou de o ser.

21 abril 2013

A destruição da mais sofisticada e civilizada sociedade do Médio Oriente

Até há dois anos, a "Grande Síria", isto é a República Árabe da Síria e o Líbano, era o que remanescia do sofisticado Islão herdeiro do califado de Damasco. Ali, séculos de vizinhança entre seguidores das grandes religiões monoteístas haviam permitido o advento do Estado não-confessional, da cidadania plena, da igualdade legal e de um nacionalismo abrangente, acima de divisões étnicas e sectárias. Tudo isso está a desaparecer. O documentário que vos deixo exprime com máxima eloquência o drama do fim de um país, pelo que não pouparei os meus leitores a mais considerações introdutórias. Que cada um retire as conclusões que a sua consciência, honestidade e preparação facultarem; que cada um saiba suspender por momentos os seus preconceitos e avalie, na guerra em curso, quem defende aqueles valores elementares que separam a barbárie da civilização, quem são os inimigos dos direitos humanos, quem subsidia o terrorismo e quem o combate.
A hipocrisia tem coisas destas. Sabendo quem ajudam, tal como no passado ajudaram os mujahedins do Afeganistão - o pan in herbis da Al Qaeda - os americanos duplicam o financiamento dos jihadistas com a condição destes construírem na Síria uma "democracia" (...) "respeitadora dos direitos das mulheres".