23 março 2013

A anarquia é o átrio da tirania


"A anarquia é o átrio da tirania e a tirania é o átrio da anarquia. Esta lei da dialéctica sócio-política tem-se verificado em Portugal". (Manuel Antunes, Repensar Portugal, Lisboa, Multinova, 1979)

Há mais de trinta anos, o Padre Manuel Antunes reuniu em livrinho as crónicas que havia escrito nas páginas da Brotéria entre Abril de 74 e a instalação e consolidação do novo regime constitucional. Alguns criticaram-no pelo optimismo mitigado, outros não lhe pouparam objecções por não aderir aos messianismos então prevalecentes; outros, ainda, viram naqueles escritos uma reserva moral sobre o descaminho em que a nova elite política - tiranizada pela ambição impreparada e pela demagogia - iria precipitar o país nas décadas subsequentes. É difícil ser-se profeta da desgraça em ambiente de festa, mas Manuel Antunes, homem cultíssimo e bom conhecedor da psicologia portuguesa, propunha ao país o contrário do revolucionarismo adolescente. Exigia responsabilidade, clamava pela mudança pelo aprimoramento, sonhava com uma sociedade que soubesse colocar na balança o equilíbrio entre os deveres e os direitos.

"Ora, a que temos assistido ao longo destes quase três anos? A que continuamos a assistir? À proclamação de direitos sem a contrapartida de deveres; a uma enorme falta de trabalho e de sentido das responsabilidades; a promoções em massa sem as devidas capacitações; à aplicação de dezenas de milhares de casos do "Princípio de Peter"; à fome e sede de conquistar, de subir e de substituir sem olhar a meios nem a consequências; a uma impressionante e geral inflação (...) verbal e comportamental".

Pedia Antunes a revolução moral e da honestidade, a integração do país real na ordem política entregue aos directórios políticos, recusava tanto sebastianismos endógenos como imitacionismos exógenos e pedia, enormidade das enormidades, que o país se desideologizasse e se desclientelizasse.
Ninguém o quis ouvir. Antunes era um desmancha-prazeres. Aqueles que tinham o poder fresco nas mãos, que não sabiam fazer outra coisa que política politiqueira, julgavam que a nora da fortuna os manteria eternamente no alto. Perdendo toda a generosidade de sonhos pueris, centuriaram o país, apossaram-se do Estado, reduziram a cacos aquelas instituições que haviam sido, pelo menos desde o século XVI, as traves da unidade nacional: a milícia, a Universidade, a Igreja, o trabalho produtivo. Depois da revolução veio a fome, a fome obrigou-nos a entrar a pontapés na CEE, a riqueza da Europa distraiu-nos e envileceu-nos. Foram as décadas de Soares, Cavaco, Guterres, Barroso e Sócrates. Ninguém se preocupava. O regime ia morrendo a cada instante, mas estava tão inebriado com a fome do dinheiro que não preparou o futuro. O futuro estamos a vivê-lo.

22 março 2013

Agora como há 100 anos, o país do bota-abaixo


Dia de debate acalorado no parlamento. Agressividade nas palavras, deserto de ideias. Uma oposição acéfala, repetindo evidências estatísticas, desabafos e pieguices, acenando ao povo-rei com mentiras. Não ouvi daquelas bocas deputadas a mais pequena sugestão, pois o parlamento não as tem. O governo, submetido a estas catilinárias semanais, parece ter-se cansado de explicar racionalmente a origem da crise, pois os senhores deputados disso não querem saber. Ali não há debate, dali nada sai, comprovando que em Portugal, quando se reúnem mais de três pessoas, uma faz a rábula do surdo, a outra do mudo e a terceira da cega. Depois queixam-se, quando vier a tal ditadura.

"Quem ler os jornais chega a convencer-se de que este país não tem outro que o exceda em teorias. Que belos artigos de fundo eu tenho lido nestes últimos tempos !
Que lógica e que retórica ! (...) Desgraçadamente, é Portugal a nação da Europa que podemos sem dúvida classificar em último lugar [no que] respeita à sua desorganização e desorientação e ao modo errado como a grande maioria dos seus habitantes consideram o que há a fazer para sairmos das grandessíssimas dificuldades em que nos encontramos. Eu entendo e creio que terei muita gente que concordará comigo, que é indispensável acabar-se com a polémica jornalística e facciosa, com os escândalos e finalmente com a guerra desenfreada aos que governam, sejam eles quem forem, quando levados legalmente ao poder".

Alberto Morais de Carvalho, Recordações de um velho militar, Lisboa, s.n., 1928

20 março 2013

Esplendor da humildade


Na era dos direitos, da cultura da reclamação e dos egos inchados, o Papa está a espantar as aves de arribação de uma certa igreja "teórica", dos teólogos que arrumam Deus na prateleira de erudição, dos "católicos" do chique-parece-bem e de muitos fariseus cheios de doutrina, mas vazios de coração. Estamos, meus amigos, a viver os primeiros dias de uma revolução.

19 março 2013

Alpoim Calvão, a novíssima biografia de um herói português


Comprei-o há dias e li-o de uma assentada: o retrato de uma estirpe desaparecida, de um tempo em que o patriotismo, o serviço e o sacrifício tudo sobrelevavam e em que aos portugueses ainda se abria o espaço de aventuras para além do mar. Quarenta anos após a Operação Mar Verde, a novíssima biografia de Alpoim Calvão é um merecido e necessário exercício de auto-estima. Ali está o que fomos, o que poderíamos ter sido e o que ainda podemos fazer se não nos resignarmos a apêndice, bantustão e protectorado de uma Europa à qual, decididamente, não pertencemos. 

18 março 2013

A dr.ª burra do ISCSP ou a necessidade de cópias, ditados e redacções


Passos Coelho vaiado por meia dúzia de pirralhos no ISCSP. A comunicação dita social não quer saber do tema que ali levou o Primeiro-Ministro - a reforma do Estado - mas derranca-se em adoração vergonhosa na captação das "inquietações" (como detesto o palavrão) dos meninos candidatos a dótóres. Uma menina com um aparelhão de aço colado aos dentes, coisa do tamanho de um Panzer IV, faz de porta-voz das indignações, exigindo a demissão do governo, frisando que essa é a vontade dos "cidadões" (sic). Para uma estudante de Ciência Política, a gaffe diz tudo. Assim vai a universidade portuguesa e a tal geração que se diz a mais bem preparada de sempre, mas não consegue escrever uma frase sem dois erros ortográficos, não sabe distinguir tempos verbais, comete erros de concordância, desconhece a sintaxe básica e domina um léxico que não ultrapassa o de uma simpática catatua caseira.

17 março 2013

Carisma, autoridade e simplicidade

A Europa precisava há décadas de um homem como este. Certamente que forças que bem conhecemos tudo farão para o deter. Oxalá estejamos errados.

O mau PS: o regresso dos walking dead


Houve um tempo em que o PS tinha gente limpa e decente. Estivesse ou não de acordo com eles, Sottomayor Cardia, Medina Carreira, Raul Rego, António Barreto e Daniel Bessa eram senhores de lhes tirar o chapéu. De parte, naturalmente, o Almeida Tantos e o Poeta Alegre, motivos sobejos para desconfiar da montra. Depois, veio a enxurrada e só Seguro voltou a aprimorar o menu. E eu que pensava que Seguro havia feito no PS a barrela que Passos Coelho fez no PSD, razão que leva as Ferreiras Leite, os Marques 10 valores, os Marcelos e Capuchos a odiarem tanto o governo. Fraco mas sensato, cinzento mas atinado, sem-chama mas certinho, o PS de Seguro, açulado pela tempestade de irracionalidade que assola o país, está a dar perigosos passos na involução. Até há pouco, Seguro dava mostras de extrema habilidade, fugindo à tentação da rua, aos Baptistas da Silva, às Anas Gomes, Manuelinhos de Évora e demais loucos do apocalipse. Agora, picado pelas ambições de campanário das famigeradas cliques autárquicas - as tais que em quarenta anos transformaram o país do verde pinho num desastre ambiental e urbanístico - Seguro faz sentar à sua mesa cadáveres vivos, gente que o meridiano bom senso trataria de sepultar nos quintos da memória, gente inapresentável que julgávamos colocada à porta da vida política por elementares razões olfativas.
O regresso do casca-grossismo de Coelho às lides é mau sinal. É o pior PS, quase analfabeto e carregado de ligações perigosas, negócios e negociatas, betão, especulação, favorecimento, mentira e demagogia. O dinheiro novo dessa burguesia corroceira saída das alfurjas do Estado-partido vai tomar conta da agenda eleitoral. Querem negócios que só os cofres do orçamento podem alimentar, estão esfomeados e precisam, urgentemente, dos sólios ministeriais que voltem a inundar os portugueses de metadona, crédito e "políticas sociais" que agravarão irrecuperavelmente a já calamitosa situação do país. António José Seguro, assim não dá !