28 fevereiro 2013

Grande Álvaro


Sem lágrimas e transtorno emocional, com os patéticos ecos do Grândola ao fundo, Álvaro Santos Pereira repetiu a única e verdadeira receita para a saída da crise: produzir, dar a conhecer os nossos produtos, preferência pelo que aqui se produz e não importar, mas, mais importante, exportar, exportar, exportar. Com a balança comercial restaurada a favor do país e as exportações chegando a 40% do PIB, Álvaro sonha com os 80 ou 90%. Há uma saída e essa funda-se no trabalho português, na qualidade portuguesa, no atrevimento e risco dos nossos empresários. Tudo o mais são queixumes inconsequentes. Ah, como sonho com o dia em que pedirei em Paris ou Moscovo "dois pastéis de Belém, por favor". Nesse dia, até a Mariza vai cantar o "Fado do Pastel de Nata".

27 fevereiro 2013

A raiva que não passará ou o dia em que os ocidentais deixaram de poder falar em cultura


Passaram dez anos, mas persiste a raiva de quantos amavam, veneravam e usufruiam de objectos raros e marcantes da história da humanidade, expostos num dos mais ricos museus do planeta. Desenterrados e resgatados do silêncio por sucessivas campanhas arquelógicas, logo catalogados, restaurados e estudados, foram fonte de conhecimento e alegria para centos de arquélogos, historiadores de arte, assim como para turistas e milhões de iraquianos orgulhosos desse património sem valor que lhes lembrava  que aquela terra fora berço de acádios, sumérios e babilónios. 
Tudo isso se perdeu há dez anos. Bagdad violada, ultrajada, foi testemunha muda de um dos mais vis atentados à humanidade. O Museu Nacional, a Biblioteca Nacional e os Arquivos não mereceram a mais leve protecção dos invasores, que receberam ordens para apenas defenderem o Ministério do Petróleo. As miríficas armas de destruição massiva não existiam, mas isso não importa. Se o Louvre, a Bristish Library, a Pinacoteca de Munique, a Basílica de S. Pedro fossem de súbito invadidas por hordas de bárbaros; se os códices celtas, os frescos de Miguel Ângelo, as telas de Rubens, os papiros egípcios e a joalharia renascentista desaparecessem num dia de fogo, cobiça animal e roubo, o Ocidente perderia parte da sua alma. Isso aconteceu no Iraque, como aconteceu na Líbia, onde as antiguidades romanas estão a ser derrubadas por fanatismo, como aconteceu com os Budas de Bamyan e as colecções de manuscritos de Timbucto, e como será amanhã com o museu de Damasco. Tudo isso nos lembra que a cultura não é coisa de todos, que o vulgo a despreza (porque não se come), que os políticos já não são o que eram e hoje pouco de distinguem do homem-massa.

26 fevereiro 2013

10 anos sobre o princípio do fim do mundo que conhecíamos


Um milhão de mortos iraquianos e a destruição de um país, a  consequente emergência do poder iraniano, o fim do sonho da détente com a China e a Rússia, o anúncio da crise financeira global, o endividamento incontrolável dos estados ocidentais, a desagregação dos regimes de ordem no Médio Oriente e a instalação do caos. Tudo foi decidido, pelo que hoje se sabe, por um pequeno grupo de decisores semi-letrados fascinados pela leitura de dois autores menores (Huntington e Fukuyama), que mentiram, fabricaram ou empolaram um inimigo que não existia (Saddam) para, logo depois, se aliarem ao incontrolável poder dos loucos de Deus do sunismo radical. A crise que hoje vivemos perfaz dez anos. Longe de estar resolvida, a crise invadiu a Europa, destruiu a Grécia e está na iminência de lançar a Itália no caos que antecipa o fim  da democracia. Dez anos passaram sobre a fatídica iniciativa que vai comendo, imparável, os fundamentos na nossa ordem política e económica.

24 fevereiro 2013

Os Femen grandoleiros ou a tristeza portuguesa

Na cantoria, tudo gente de trabalho ou os miseráveis da sopa do Sidónio

Tudo o que acontece no Portugal contemporâneo carrega, fatidicamente, um toque de burlesco, de ridículo inconsequente e daquela pacatez rural que condena ao cinzento ou à invisibilidade envergonhada tudo o que sai da lavra dos nossos concidadãos. A recente moda da cantoria do Grândola - habitualmente entoada por gente de meia idade, estômago rotundo, cãs e papada dupla (ah, como operaria maravilhas o Dr. Biscaya naquelas carrancas) - é a versão portuguesa das Femen, troupe de ucranianas* que se passeiam nuas pela Europa em desvairados protestos. A verdade, confesse-se, é que se viu uma, duas, três vezes e perdeu a graça da novidade. Agora, depois de meia dúzia de exibições dos pândegos, a coisa soa a piada sem piada do velho Badaró, que repetia deixas e bonecos até à exaustão. A cantilena está para a mascarada política como os Zorros e as sopeiras do carnaval português. A cantoria, gemida por gente desocupada, é um flagrante da ingénita incapacidade da nossa gente em conviver com as musas. Ali podia haver um violino virtuoso, um clarinete inspirado, uma polifonia exaltante; mas não, é mau, é cansativo, é provinciano e até chega a apiedar. São 20, são 30, 50 em todo o país? Quem paga, quem faz os cartazes, quem transporta as bandeiras, quem oferece os almoços para essas esperas?


O que me surpreende é a passividade bovina das plateias ultrajadas pelos díscolos. Ficam petrificadas, contraídas desse medinho tão português que permite que sessões preparadas com tanto esforço sejam violentadas por meia dúzia de papalvos gritadores que espezinham o mínimo da etiqueta e da chamada urbanidade. Se cem ou duzentos militantes do PSD e do CDS se apresentassem em todas as ocasiões procuradas pelos grandoleiros, estou certo que não voltariam a incomodar quem quer trabalhar.

*Ucraniana nua soa a redundância.

Começar a fazer contas ao declínio

Só gente não viajada e carente de informação básica, incapaz de medir a extensão do declínio do Ocidente - pessoas presas da rasteira demagogia que inunda o discurso lírico daqueles que clamam por benefícios e redistribuição de uma riqueza que já não existe - pode insistir no mito do Estado Social e no abundantismo das sociais-democracias. Há quem não queira encarar o futuro de pobreza que se aproxima. Há quem se recuse aceitar reformas profundas e, assim, atalha o caminho para a regressão e o sub-desenvolvimento, julgando estar a defender uma causa nobre que esconde, afinal, casmurrice, cegueira, iletrismo económico.
O velho continente - Portugal especialmente - está numa encruzilhada de futuríveis. As velhas ideias - herdadas de tempos de supremacia em que a Europa era rainha da tecnologia e da ciência, rainha das armas e modelo para os outros - têm na esquerda o reduto de reacção à mudança sistémica que o curto documentário evidencia. Pelos benefícios e privilégios de ontem, gente bem intencionada mas absolutamente aferrada a certezas datadas, julga que as reformas escondem uma "agenda ideológica". Essa "agenda ideológica" não existe senão nos terríveis estudos prospectivos acessíveis em qualquer organização internacional especializada. A Europa encontra-se em avançada fase de pauperização. Perdeu a dianteira e tudo o que pode fazer é fechar-se, competir e lutar por um lugar na arena mundial.
Em 2060, o Bangladesh terá ultrapassado Portugal, a Índia será superior à soma da Alemanha, da França, da Itália e da Grã-Bretanha. Quem se recusa a mudar, agora e sem vacilações, será amanhã julgado no tribunal da história.