16 fevereiro 2013

As correrias dos Peppones



Velhos reformados, funcionários públicos, gente dos aparelhos sindicais, eis o que se passeou hoje pelas ruas de Lisboa aos gritos de "queremos Estado Social", "trabalho para todos" e "não nos roubem os direitos conquistados". Seria conveniente explicar a essa boa gente porque chegamos a este nadir, de lhes mostrar que 37 milhões por dia para reformas são incompatíveis com os meios existentes; que umas forças armadas que consomem 80% do orçamento em ordenados servem para assegurar empregos e não servem para a defesa; que os hospitais portugueses gastam duas vezes mais que os hospitais britânicos; que o 13º e o subsídio de férias acabaram e não mais voltarão; que Portugal, quando enlouqueceu, chegou a ter 700.000 imigrantes porque aqui ninguém queria sujar as mãos com o trabalho; que deram rédea solta aos senhores autarcas para cobrirem a geografia do país de estádios, complexos polidesportivos, pavilhões multiusos e casas-museu; que houve um tempo em que os portugueses se queriam mecanizar e não havia terreola onde não se exigisse uma auto-estrada; que tudo isso era pago com os impostos das empresas, levadas à exaustão por uma política fiscal suicidária; que todas as "conquistas" eram a crédito e agora não há crédito para Portugal enquanto continuarmos "lixo"; que se não fosse a malfadada troika funcionários públicos e reformados já não venciam desde Setembro de 2011...
O maná acabou. O País da Cocanha, dos rios de leite e mel vai ser pago ano a ano até se saldar a cratera da dívida colossal em que governantes e governados se deixaram enredar. É muito bonito fazer poesia, mas a poesia, quando não nasce do ócio, leva a isto. Caramba, que as pessoas teimam em acordar.
Antes fossem estes Peppone como o bom Peppone, que induzido por Don Camilo, se lembrou do valor superior da pátria sobre a luta de classes, o orgulho sobre a reivindicação, a unidade nacional sobre o partidismo estéril.

14 fevereiro 2013

A questão das facturas


Como aqui não se sofre de partidarite, não se conhece o facciosismo e se cultiva a liberdade - e porque aqui se defendeu, sempre, mas sem seguidismo o governo - não podemos deixar de caracterizar a última medida decretada pelo ministério das finanças como uma puerilidade controleira que viola elementares princípios de defeso da intimidade dos cidadãos e é demonstrativa que se esgotou a ilusão que da ordenha fiscal se ultrapassará a crise em que mergulhámos por culpas acumuladas de 40 anos de regime. Terá chegado o momento para substituir a primazia das Finanças pela Economia e de fazer política na sua mais ampla envolvência. Se assim não acontecer, o governo - que tem sido de verdade, de rigor e de salvação nacional - perderá aquela legitimidade do bom-senso que o tem mantido.
A questão das facturas é de uma estupidez inaudita, de uma completa ausência de inteligência prática e de uma quase absurda tentação para criar inimigos onde estes não existem. O Primeiro Ministro terá de intervir e impedir que esta desastrada medida seja aplicada. Se o não fizer, confirmam-se as insinuações, jamais confirmadas, da sua incapacidade em domar o experimentalismo de um grupo de académicos de inquestionável mérito, mas que pouco ou nada conhece do país. Como dizia Armando de Castro - que não é propriamente um nome inspirador de simpatia ideológica - "quem só sabe de economia, nem de economia sabe".
O governo precisa de propaganda, de comunicação e de marketing. Não há no governo um só homem que se possa sentar em frente das câmaras e consiga explicar aos portugueses as decisões e orientações do governo?

13 fevereiro 2013

A minoria portuguesa na Birmânia


Está por mapear e estudar o que resta das lusotopias mestiças asiáticas. Não sabemos onde estão, quantos são, de que prestígio social gozam nas sociedades onde se integraram. A nosso ver, trata-se de uma falta tremenda, pois essas minorias poderiam servir de intermediários para a acção da nossa diplomacia, garantindo o favor das autoridades locais, patrocinando a elevação do nível das relações com os Estados do Sudeste-Asiático. Em finais dos anos noventa, o galardoado académico birmanês Thant Myint-U, que tive oportunidade de conhecer em Bangkok, percorreu o vale do Rio Mu, a nordeste de Mandalay e ali recolheu o seguinte testemunho:
“Falei com o professor da escola local e com uma freira há pouco regressada de Roma, ambos muito conscientes e orgulhosos da sua herança única. Disseram-me que na aldeia há muito que não se falava outra língua que o birmanês, para além de algum inglês básico, mas que no tempo ainda não distante dos seus avós, ainda havia alguns que conheciam um pouco de português. O professor disse que o seu bisavô havia servido no palácio do Rei Thibaw como militar do 50º Regimento Real e que outros antepassados haviam sido tradutores na Corte. Ali perto, uma multidão de crianças, muitas de cabelo castanho e olhos verdes, jogavam futebol”. Naturalmente, a referência ao futebol não é prova convincente, mas a memória da linhagem familiar, tão cara a todas as minorias étnicas, ali está, contada geração após geração como testemunho da diferença alicerçada pelo mito familiar. Os “portugueses” da Birmânia parece terem servido na última capital da Birmânia independente (Mandalay) com a mesma lealdade com que haviam servido sucessivos reis da última dinastia ao longo de mais de cem anos. 
Ninguém nas Necessidades percebe que é necessário fazer qualquer coisas - urgentemente - para manter esses fósseis vivos da multissecular presença do nome de Portugal no Oriente?


Temos oradores em S. Bento?


Sigo com frequência os debates parlamentares, não porque me mova qualquer interesse particular pela vida política e pelos temas debitados no antigo mosteiro, mas para comprovar a convicção, velha de décadas, que no chamado parlamento da república não estão os mais aptos, os mais bem preparados nem tão pouco os mais loquazes dos portugueses. As velhas batalhas parlamentares do século XIX, com os irmãos Passos à cabeça (mas também Vicente Ferrer Neto de Paiva, Garrett, Barjona de Freitas, Borges Carneiro e Mouzinho da Silveira) eram coisa digna de se ver. Aqueles oradores - ainda se pressente na leitura dessas peças o efeito que causavam - faziam trepar pelas paredes adversários, arrebatavam estrondosas ovações entre os colegas de bancada, geravam ondas de entusiasmo que extravasavam para as gazetas, para as tertúlias e para as conversas do Jardim Público e do Chiado. Os nossos Demóstenes oitocentistas deram lugar a homenzinhos e mulherzinhas repetindo lugares-comuns, gente que não domina a inteligência da língua, que lê papeis sem jamais levantar os olhos do linguado que trouxeram de casa. Que diferença, caramba, entre os nossos deputadozinhos e os gigantes de oratória que os precederam. Dir-me-ão que os tempos mudaram. Não, ofereço exemplo actual de uma intervenção no parlamento mexicano.

12 fevereiro 2013

Perguntas que ninguém faz ao PC


Entre 1900 e 1960, nasceram 2 biliões de seres humanos. Desses, 5%, ou seja, 100 milhões foram mortos por regimes comunistas na URSS, na China, na Coreia do Norte, no Cambodja, no Afeganistão, no Vietname, na Europa Oriental, na Nicarágua, em Cuba, na Etiópia e Moçambique em purgas, fomes artificiais, destruição premeditada de grupos sociais, deslocação de populações, campos de trabalhos forçados, repressão policial, privação de assistência médica. Os horrores cometidos pelos nazis atingiram cifras impressionantes estimadas entre 7 e 12 milhões, prefazendo 10% das vítimas do comunismo. Moral e academicamente, é pertinente lavrar juízo sobre experiências políticas pela quantificação do mal que causaram - isto é, do sofrimento - assim como identificar as ideias, os programas e os homens que estiveram na origem de tais crimes, na larga panóplia de genocídios, democídios, classicídios, crimes contra a humanidade e terror de Estado. 
O tema já foi tratado com propriedade  por Steven Rosefielde, Robert Conquest, Anne Applebaum, Stéphane Courtois, Manus  Midlarsky, entre outros, em estudos sérios, quantificados, alicerçados em aturado trabalho arquivístico, pelo que neles não há preconceito, propaganda, manipulação ou qualquer outro intuito que escape ao objectivo eminentemente científico da investigação académica. 
Os crimes cometidos em nome do regimes que se reivindicavam do marxismo-leninismo foram cometidos em tempo de paz; ou seja, foram executados em situação regular do exercício do Estado, sem a emergência de guerra interna ou externa que pudesse desencadear mecanismos de auto-defesa preventiva ou perda de controlo dos decisores superiores sobre os respectivos subordinados.
Afirmava na passada semana um deputado comunista que o actual governo é causador de infelicidade, desespero e fome. Estas acusações fazem amiúde parte do jargão das oposições. Porém, há que saber distinguir entre a decisão programática em executar políticas causadoras de mal-estar social e humano - consequência de orientações e, até, impostas pelas circunstâncias - e políticas cujos efeitos perversos são o fundamento do tipo de governança. Neste último caso, o exercício do poder contra as pessoas, silenciando-as, manietando-as, privando-as legal e socialmente de amparo, detendo-as, exterminando-as até, constituiu um programa e um método do exercício do poder. Os regimes comunistas fizeram-no durante décadas e a uma tal escala e similitude que ninguém minimamente honesto poderá contrariar. Entre nós persiste, lamentavelmente, um temor reverencial que impede que o tema dos muitos holocaustos comunistas sejam aflorados na disputa política. Estamos no último ano da evocação do genocídio dos ucranianos, que se saldou pela morte, entre 1932 e 33, de dez milhões de camponeses que se opunham à colectivização imposta por Moscovo. Que eu saiba, nenhum deputado da maioria pediu à Assembleia um voto de pesar lembrando essa tragédia da história contemporânea. Não há, nos grupos parlamentares do PSD e do CDS, ou até do PS, um só deputado que levante o debate?

10 fevereiro 2013

Alemães e russos contra polacos, alemães contra russos, russos contra romenos, búlgaros e húngaros, alemães contra holandeses...


Quando ouvimos os assépticos burocratas e legisladores bruxelenses falando de uma Europa que nunca existiu, seria conveniente explicar a esses meninos dos masters of Business Administration e das technologies & enterprise-based qualification que há, ainda vivas, duas gerações que viveram a guerra e o pós-guerra de forma intensa, que a Europa é um cadinho de memórias antagónicas, que as identidade s nacionais se fizeram e fortaleceram na divisão entre um nós e o inimigo do outro lado da fronteira linguística, religiosa e étnica. Estes velhotes alemães, politicamente absolutamente incorrectos, oferecem com espontaneidade e sem langue de bois o que pensam os europeus uns dos outros. Imperdível.