08 fevereiro 2013

Fábrica de disparates ou a função dos intelectuais: espalhar mentiras sobre Portugal



Anthony Bourdain será, talvez, um dos mais influentes agentes de promoção do chamado turismo cultural e gastronómico. Preparado, curioso, não obstante notória adesão ao politicamente correcto, transpõe o turismo e convida à viagem de exploração. Muito lido e ouvido nos EUA, os seus conselhos valem por mil campanhas promocionais. Veio a Portugal, produziu o documentário e eis que os portugueses que lhe serviram de cicerones [com Lobo Antunes à cabeça], ao invés de o introduzirem na fascinante história da nossa sociedade, só lhe falaram de massacres em África, da PIDE e de Salazar, do napalm e da escravatura. A Carminho, que tive a felicidade de conhecer em Bangkok, onde actuou há dois anos e meio, tentou patrioticamente, mas em vão, evidenciar o carácter trágico e heróico da nossa personalidade colectiva, mas lá estava o velho maledicente e derrotista a empurrar para baixo, a menorizar e desdenhar. É a velhíssima herança da maldita geração burguesa de 70 e, logo, do miserabilismo do neo-realejo. Vê-lo ali dobrado e ácido, num péssimo inglês, desfazer o país, é coisa que indigna qualquer um. Não se apercebem que nestes delírios de auto-comiseração, surgem aos olhos dos estrangeiros como traidores que cospem na sopa. Esta maldita geração de torturados por sentimentos de inferioridade tem feito estragos irreparáveis e com esta gente não vamos a sítio algum. O partido intelectual - com o seu azedume, a verrina, o desprezo pela nossa cultura - é, desde há muito, o mais nocivo agente inibidor da auto-estima, do orgulho e do futuro.

Importante entrevista de SAR


Importante entrevista concedida por SAR a o Económico e aqui transcrita integralmente. Merecedora de atenção, revela o crescente envolvimento do Chefe da Casa Real nas soluções conducentes à saída da crise do regime. A não perder.

07 fevereiro 2013

Sociedade totalitária triunfante


Filmagens não tratadas destinadas a documentário de propaganda da sociedade soviética do imediato pós-guerra. O desejo dos simples em viver habitualmente, mesmo que nas rotinas e sorrisos esteja, ausente mas sempre presente, a mão de um poder que se manifesta nos mais insignificantes pormenores. Atente-se no sorriso que trai a desconfiança do olhar. Belo documentário, sem dúvida, mas exercício para a interpretação dos gestos e comportamentos de gente habituada a viver no medo, mas aspirando à felicidade das pequenas coisas. 

06 fevereiro 2013

Estalinegrado, 70 anos


Não há melhores memórias que as dos homens simples. Raramente, por inibição ou exagerado sentido do ridículo, os pequenos deixam notas sobre a sua passagem por esta vida breve. Dir-se-ia que memórias e autobiografias são prerrogativa dos chefes e de tantos quantos julgam merecer lugar na história. Uns fazem-no por bazófia; outros para exaltar a sua participação nos triunfos; outros, ainda, para diminuir a sua responsabilidade nas catástrofes. Raramente as memórias são limpas de intenções - como excepção, cito de cor as belíssimas memórias de Jefferson Davis, o Presidente da Confederação, que deixou um The Rise and Fall of the Confederate Government - e raramente aqueles que as lêem se conseguem furtar à astúcia do autor. Ora, os pequenos raramente se justificam. Assumem a sua parte nas tragédias como as formigas empurradas por fatalidades irrevogáveis; logo, ali não há ardil, não há rebusco nem aspiração outra que não seja a de contar uma história, a sua história, no torvelinho de acontecimentos que marcaram a sua vida.

Este ano de 2013 será fértil em títulos evocativos do ano decisivo do século passado, 1943, ano em que se deram grandes mudanças que selaram o futuro da Europa e do mundo. Aqui voltaremos com apontamentos sobre o ano da queda do fascismo em Itália, a opção alemã pela Guerra Total, a batalha de Kursk, o reconhecimento de Tito como líder da resistência jugoslava, a Conferência de Teerão e a exigência da capitulação incondicional do Eixo pelos Aliados. Tais eventos, de natureza militar ou diplomática com larga repercussão condicionante sobre as décadas que se lhes seguiram, ditaram o mundo bipolar, o colapso do Euromundo, as novas modas políticas e aquelas crenças, ainda indiscutíveis, sobre a Segunda Guerra Mundial, se é que ainda alguém minimamente arguto persiste em falar em Guerra Mundial como acontecimento único. A Segunda Guerra Mundial não foi una. Foi, talvez, a justaposição de quatro ou cinco conflitos em simultâneo, dificilmente relacionáveis, mas agregados ex post-facto para aplacar dúvidas, suspeições, rivalidades e ódios entre os vencedores.


Uma das guerras da "Segunda Guerra Mundial" foi a guerra germano-russa, cujo momento culminante se deu nas margens do Volga entre Setembro de 1942 e Fevereiro de 1943, na cidade de Estalinegrado. Há tempos, na biblioteca do Instituto Alemão, requisitei Vermißt in Stalingrad: als einfacher Soldat überlebte ich Kessel und Todeslager, 1941-1949, de Dieter Peeters. Peeters, um rapaz de 20 anos, chegou ao Volga integrado no 6.º Exército de von Paulos, naquela ofensiva que Berlim anunciava coroaria o triunfo das armas alemãs sobre o comunismo. Afinal, ao simples soldado não estava destinado assistir à vitória final da Alemanha, mas ao enterro da Nova Ordem de Hitler - império breve de 6 anos (1938-1944) que empurrou a Europa para a decadência que hoje provamos amargamente - e para a experiência do cativeiro num dos centos de campos de prisioneiros, de onde regressaria em 1949.
As memórias de Peeters são belíssimas, mesmo que não possuam a erudição e o recorte literário das epopeias. São de uma autenticidade e espontaneidade desarmantes. Ali não há ideologia, fanatismo, olhar turvo nem "filosofia da história". A trama dos factos, a luta pela sobrevivência, a fome, o frio, o medo e a crueldade crua que só conhecia das memórias do Sargento Bourgogne, participante de uma outra Campanha da Rússia, elevam a ego-história a um nível raramente conseguido pelos trabalhos historiográficos de gabinete. Peeters devia ser traduzido para o nosso idioma pois, mais que a guerra, revela a insuspeita capacidade dos homens em querer viver, mesmo após comprovarem a inutilidade, pequenez e absurdo daquilo a que chamamos de vida.

05 fevereiro 2013

Exéquias por Norodom Sihanouk

Do meu blogue francês de referência, com Paul Galan em Phnom Penh para as exéquias de S.M. o Rei pai Norodom Sihanouk. Controverso, "mercurial", errático, caprichoso, irreverente, corajoso, Sihanouk aguarda uma biografia à altura de um Rei que foi um deus vivo, líder socialista que conheceu os pináculos da fama, por duas vezes foi destronado, por duas vezes entronizado e morreu em exílio voluntário em Pequim.


04 fevereiro 2013

Jeremíadas & lapidações

A tristíssima caixa de ressonância da incapacidade da sociedade portuguesa em discutir com racionalidade os problemas que a afectam, o Prós e Contras, apoderou-se da programação de domingo. Nada melhor que começar a semana com tempo de antena gratuito concedido pela emissora do Estado às oposições corporativas ao governo.
Discute-se a reforma do Estado. Para alguns, sobretudo para os instalados, o tema fixou-se nos 4 mil milhões e nos funcionários públicos. De lado, o conceito de Estado, a definição de "Estado Social" e, sobretudo - sacrossanta objectividade - uma discussão sobre os meios. Para as quadraturas sociológicas, o tema não se discute, pois a Constituição não o permite. O importante fixa-se nos 4 mil milhões que já não existem. Para manter a ilusão, novos empréstimos e mais, muitos mais funcionários públicos. O boníssimo Secretário de Estado Helder Rosalino bem tentou civilizar a discussão, mas Correia de Campos - que sofre os suplícios da crise em Bruxelas - e um tal Paulo Trigo qualquer-coisa - verrinoso, cheio de atrevimentos ordinarotes, fechado no seu mirrado mundo "académico" - não permitiram que aquilo ganhasse a mínima elevação. O "professor" Trigo até chegou a extremos de ameaçar o Secretário de Estado com a bomba de papel dos jornais. Um país a brincar ao sério, com gente absolutamente incapaz de se libertar de pequenos ódios e causas pessoais. Uma tristeza.