31 janeiro 2013

Ceausescu doutor honoris causa pela Universidade de Lisboa



Deram-me ontem a ler um delicioso processo, datado dos anos 70, assinado pela academia portuguesa e  tendo anexados pareceres de deputados e políticos ainda hoje no activo (do PC, do PS, do PSD, até um ex-líder do CDS) tecendo os mais exaltados ditirambos ao Conducator romeno e sugerindo à Universidade de Lisboa a atribuição do grau de doutor honoris causa a tão grande figura do pensamento e da cultura contemporânea. O mundo é feito de mudança. Que aquele documento - espelho da demência de uma geração - fique onde está, escondido, envergonhado, encarquilhado. Como tisana para tamanho engulho, as magníficas imagens da visita de Nicolai à disneylândia dos amanhãs cantantes, ao pé das quais a Festa do Avante ressuma a patética pocilga.

30 janeiro 2013

O erro dos regicidas


Ao contrário dos presidentes, os reis não morrem. Dir-se-ia que o Rei é um só, com cambiantes de carácter  e do tempo que cada episódio da monarquia vai oferecendo. Enganavam-se os republicanos quando afirmavam que a ideia monárquica desapareceria com a partida de D. Carlos e do Príncipe Luís Filipe. Enganaram-se uma vez mais quando, sem descendência, morreu D. Manuel II. Mas a ideia ficou, o sentimento de simpatia familiar do povo permaneceu inquebrantável, não obstante os poderosos tudo terem feito para que ao longo de décadas a nossa família real fosse exilada, censurada, minimizada e, até, ridicularizada. Mais de um século após a infame matança, eis que o Chefe da nossa Casa Real é um dos mais respeitados homens do país, de decência, patriotismo e desinteresse pessoal absolutamente inquestionáveis. O mistério da monarquia não tem mistério porque, afinal, o Rei também somos nós, portugueses aspirando à libertação, à partilha de tudo quanto dos une, ao bem que desejamos para esta terra. O Rei é todos num homem. Por isso não tem agenda, não tem partido, não negocia, não trai, não promete, não vive do contingente, não tem amigos na acepção comercial de um interesse. 

A evocação do regicídio deveria ser, afinal, a prova da imortalidade do sentimento monárquico. Há semanas, falando com SAR o Príncipe da Beira, jovem de 17 anos, pressenti o peso dessa responsabilidade que se herda e não se discute, o peso e a responsabilidade de vir a ser um dia aquilo que o Senhor Dom Duarte tem sido ao longo destas décadas de chumbo; aquilo que foi, desde 1143, a função dos nossos reis. A família real une e é respeitada porque é um símbolo nacional e porque lembra aos portugueses que há coisas que estão para além do nosso tempo. Os regicídios acontecem na proporção do ódio ou da estupidez daqueles que desconhecem o intrínseco carácter democrático e libertador da monarquia. 
Felizmente, vai-se dissipando lentamente a teia de mentiras, de preconceitos e ignorância fabricada pelos inimigos da ideia monárquica. Um dia, quando tomarem consciência do mal que fizeram a Portugal e se biografar a passagem  de Dom Duarte pelo nosso tempo, os mais honestos lamentarão o que perdemos todos por não se ter sabido aproveitar a dedicação de um homem que tem sido, em todas as causas que abraça, o que de melhor tem Portugal.

29 janeiro 2013

Não, não foram a Inquisição, o terremoto ou os franceses


Persiste a cómoda lenda de imputar à Inquisição, ao terremoto e aos franceses o atraso cultural e científico do país. Lenda bela, apaziguadora que não deixa melindres, impoluta para bons portugueses, aquietadora de fantasmas. Porém, há um véu espesso cobrindo a verdade histórica, há responsáveis facilmente enumeráveis, há actos deliberados, legislados até, que qualquer historiador honesto pode desvendar sem grande dificuldade. O descalabro de Portugal não aconteceu, como alguns ingenuamente repetem, quando Pombal - figura sinistra - ascendeu ao poder, como não aconteceu quando a corte rumou ao Brasil perante a iminência da entrada de Junot. O verdadeiro pesadelo aconteceu depois, no início da década de 1830, quando todo o país foi submetido aos "freedom fighters" de então, recrutados no Havre e em Bristol para libertarem Portugal da "tirania" e do "absolutismo". 

Não, Portugal de D. João V não era, como diz a historiografia oitocentista, um país bisonho, um "reino cadaveroso", "supersticioso" e fora das grandes correntes do pensamento ocidental do tempo. Para contrariar tais estórias, leia-se a obra de Henrique Leitão, que vai ano após ano lapidando as fanadas mentiras que se foram acastelando desde há mais de século e meio sobre aquele monarca a quem Lisboa deveu dois observatórios astronómicos e a mais persistente política de mecenato cultural, tecnológico e científico da nossa história. Portugal era, ainda no século XVIII e graças à Companhia de Jesus - verdadeira internacional de conhecimento - um país tocado pelas musas do engenho, do experimentalismo e da curiosidade.

O atraso, o desinteresse pelo estudo e pela leitura, o desprezo pela cultura e pela promoção pelo mérito das canseiras do espírito começou naquele fatídico 1834 com a confiscação por atacado dos bens das Ordens Religiosas, acompanhado pelo saque, queima e venda de um património riquíssimo em terras, alfaias, paramentos, aparelhos científicos, pintura, estatuária, cartografia e bibliotecas existentes em mosteiros e conventos que cobriam a geografia do país. O insuspeito Ernesto José Caldas (ver História de um fogo morto (...), Porto, Imprensa Moderna, 1903) afirmava: "livrarias a monte. Tudo roubo. Primeiro acudiam os que se tinham na conta de autoridades; depois os curiosos; por último a canalha rara que roubava para vender a peso. As mercearias encheram-se de missais, de breviários, de sermonários (...)". Nessa hecatombe perderam-se para sempre incunábulos, códices, arquivos, impressos, mas perdeu-se, até hoje, a quadrícula de ensino, a selecção dos mais inteligentes e das elites naturais que permitiam à sociedade portuguesa nutrir-se dos seus melhores, indiferentemente da sua origem social.

Paulo Barata publicou há anos um importante estudo intitulado Os livros e o Liberalismo (2003), verdadeira história de terror que deve ser lida, meditada e divulgada. Barata faz o inventário do colapso de um país e de uma sociedade, oferecendo copiosa safra de testemunhos arquivísticos - recitativo abracadabrante - que explica, sem devaneios, sem "teoria" e sem preocupações literárias o saque e destruição das livrarias conventuais portuguesas, política de quase terra-queimada e latrocínio que Portugal viveu ao longo da década de 1830. Tudo o que existia desapareceu num curto período. As elites locais foram privadas de poder e substituídas por "funcionários públicos" pagos por Lisboa, os centros de decisão local decapitados, os viveiros de gente letrada assassinados. Entre 1833 e finais da década de 1870, ou seja, durante meio século, a província regrediu, perdeu o contacto com o ensino, esqueceu-se das letras, das artes, foi culturalmente decapitada. O atraso da província data dessa época. Em Lisboa, uma nova elite (política, mas não social] passou doravante a mandar, mas o país deixara de ser, a liberdade proclamada nas constituições, nas leis e nas tribunas deixou de corresponder às gentes que, alheando-se, estupidificado-se, se remeteram ao cinismo, à acrimónia e à desesperança. Assim tem sido Portugal desde então, um desfiar de mentiras institucionalizadas, com os portugueses de costas voltadas, desconfiados e embrutecidos por um crime cometido contra a nossa terra pelos avós dos nossos bisavós.

28 janeiro 2013

Pressionar faz bem à saúde da Europa


Merkel e Hollande afirmam em uníssono que discutirão com os britânicos uma reforma profunda da torre de Babel em que se transformou a Europa regulamentadeira. Às vezes - corrijo, sempre - faz bem um bom aperto para resolver problemas e equívocos. Os britânicos são terra-a-terra, pragmáticos e bons oportunistas. Os continentais, sobretudo os alemães, são nefelibatas, enquanto os franceses sacrificam sempre a objectividade a uma cascata de palavras. Welcome to England, pois !

Não habia nexexidade


Avelino candidato. Não se trata de ganho, mas de incómodo. O CDS tem de começar a fazer os trabalhos de casa. A higiene começa sempre em nossa casa.

Arménio mostra o seu lado bom

A terapia para o ódio da estupidez teve os seus efeitos. Arménio desembrulhou-se, fez retratação pública [não muito convincente], mas está desculpado. Afinal, a carapaça estalinista mostrou o seu lado bom. Não sei se a tal foi obrigado, mas deu a mão à palmatória - coisa rara em Portugal - e, por mim, está perdoado mas não esquecido. Como dizia o velho Padre Américo, "não há maus rapazes".

Lembrar, lembrar sempre


Se um comunista lhe falar na PIDE, mostre-lhe este filme

27 janeiro 2013

O sindicalismo rasca


Razão tinha eu há meses para afirmar que o homem não possuía gabarito, educação e inteligência para dirigir uma central sindical. As grosserias hoje proferidas por Arménio-qualquer-coisa são instantâneo do calibre da peça, da falta de nível em que caiu certa oposição valetudinária, da inqualificável submissão da agenda golpista anti-governo a trogloditas da rua, não preparados, falhos daquele pingo de bom-senso e dos dois dedos de testa que fazem a diferença entre agitadores e líderes responsáveis. Se as afirmações de racismozinho de Arménio-qualquer-coisa tivessem sido ditas por um qualquer deputado da maioria, aqui d'El Rei que logo vinham pressurosos os vigilantes da Constituição, a matulagem do bloco e seus pina-maniqueiros de serviço, mais os periodiqueiros de faca em riste exigir imediata demissão do celerado. Mas não, trata-se de um comunista - os tais que ainda se atrevem falar da superioridade moral após o Gulague, Katyn, o genocídio da Ucrânia e os Processos de Moscovo - pelo que Arménio-qualquer-coisa, o tal que mal sabe juntar duas palavras, saíra incólume.
Ainda ontem dizia a uma colega minha que o pior que poderia acontecer a António Costa seria a vertigem da chefia do governo. O flatus vocis de Arménio-qualquer-coisa prova à saciedade que há na sociedade portuguesa uma subcultura canalha que requer atenção.