19 janeiro 2013

Gonçalnomics: a má-fé


Carvalho da Silva no Notícias 24, da TVI. Um filão interminável de palavras, ditas e repetidas em tom enérgico, como quem se habituou a mostrar força e testosterona nas assembleias sindicais, banalidades que se dão por explicadas, completa ausência de razoabilidade, o fazer de tolos aos que o escutam, um desdém quase vergonhoso pela legitimidade eleitoral do governo, o golpismo escancarado, a defesa de algo que morreu de morte natural - as "conquistas", o tal Estado Social que se faliu na espiral da ganância - mais o ataque permanente ao patrão-ladrão, aos bancos (se não houvesse bancos portugueses estávamos nas mãos da banca internacional); tudo num mau português, sem uma linha de pensamento, uma tímida proposta alternativa à fatalidade que sobre nós se abateu por culpa de 40 anos de Carvalhos da Silva e da lógica do gonçalnomics.
O reaccionarismo e a cronofobia de mãos dadas, em que não faltou o langage de bois do mais escorreito comunismo mas, sobretudo, o iletrismo roncante do self made agitador que vive no caldo do contestarismo remunerado desde a idade dos calções.

18 janeiro 2013

Aqui está um bom e sensato americano

Os números não mentem


Com o regresso aos mercados quase assegurado até ao verão, as exportações a atingirem 40% do PIB (contra 28% em 2009) e o défice a baixar para os 5% (contra 11% em 2010), não sei como poderá alguém minimamente responsável e honesto contestar a governação de Passos Coelho. Não fosse a proverbial tríade fatal que assola o carácter da generalidade dos portugueses (a inveja, a mesquinhez e a ingratidão), pechas que se resolveriam numa geração mediante a educação pela competição e pela promoção dos melhores e já alguém se teria atrevido colocar o Primeiro-Ministro no rol dos [poucos] estadistas que esta terra produziu nos últimos 100 anos.
Há uma diferença entre políticos e estadistas. Os políticos manobram em função do bom vento, acompanham o ritmo das marés e das correntes, manipulam, consensualizam, compram e submetem-se às paixões, às "indignações", aos lóbis e às pressões; os estadistas, esses, são extravagantes, determinam a ordem futura dos acontecimentos. Afinal, os "miúdos" do governo estão a fazer aquilo que tanto sábio, tanto grande senhor e tanto "histórico" não tiveram sequer coragem de iniciar. Depois dos rapapés de Hollande, deve andar por aí muito boa gente com um sopro no coração.

O palavrão blogosférico

Há quem julgue que o uso e abuso do palavrão reforça o timbre de incisão de uma sentença. Vejo aí pelos blogues florestas de calão e obscenidades que são instantâneo da queda da língua e da incapacidade de usar venenos e matracas de forma elegante. O domínio do português exige estudo, leitura, captação da inteligência da língua, coisa que se foi perdendo desde o século XVIII e logo substituída pela instituição do "falar difícil", do "falar académico" ou, para quem nem tal consegue, do falar rasca. No fundo, a blogosfera - ágora de todas as fúrias, indignações - substituiu às mil maravilhas a "cultura do café", outrora lugar para todas as raivas, maledicências e remoques. 
Há quem use a blogosfera para vazar ódio, há quem a tenha como sentina alternativa; há, ainda, quem nela consiga a supina ilusão de ser ouvido.

16 janeiro 2013

Irlanda e Portugal


A Irlanda prepara-se para dar por terminado o programa de assistência pedido ao FMI. A Irlanda está em vantagem sobre Portugal. Não teve uma revolução marxista que pôs em pantanas as instituições que alicerçam o Estado, não conheceu a cultura da rabujice e da indignação, não matou os industriais e os capitalistas nativos em nome de nacionalizações sacrossantas, não empandeirou a agricultura numa reforma agrária de terra-queimada, não usou os fundos europeus para jipões, montes alentejanos e férias nos trópicos, não teve uma constituição escrita por miudagem ignorante e radicalizada com vinte e tantos anos, não conheceu a fatal sucessão de Cavaco, Nogueira, Guterres, Barroso e Sócrates, não tem um PC e uma CGTP antediluvianos,  não tem um Estado que se confunde com os partidos, os amigos e as comanditas. Qualquer confusão entre a Irlanda e Portugal é mera coincidência.

15 janeiro 2013

D. Luís da Cunha, glória da diplomacia na Biblioteca Nacional


Do ponto de vista historiográfico, a história da diplomacia portuguesa é uma lástima. Excepção feita ao clássico Biker, ao esforçado Brazão, ao importante Borges de Macedo, assim como aos contemporâneos Isabel Cluny, António Vasconcelos de Saldanha e Abílio Diniz da Silva, tudo está por fazer, pois se estudos monográficos esparsos existem - sobre períodos, relações bilaterais e figuras - falta uma obra magna que permita uma compreensão latitudinal das constantes da nossa política externa, para lá das generalizações, da repetição de topos e da mera verbalização. O tentame de Soares Martinez é um nado-morto, pois nada acrescenta ao rememorar de actos diplomáticos há muito referidos com propriedade pela historiografia geral, de Fortunato de Almeida a Veríssimo Serrão. Quem trabalha em assuntos relacionados com a história das relações externas de Portugal, saberá do que falo. Para lá das excepções aludidas, o investigador tem de se debater com os caixotes das Necessidades, da Torre do Tombo e do Arquivo Histórico Ultramarino, dédalos de silvas jamais desbastadas. Como em tantas outras áreas das Ciências Sociais e Humanas, no caso vertente os trabalhos sobre relações internacionais são um oceano de "teorias", "conceitos", "escolas" - tudo regado a Nozik, a Hayek, Rawls, moda actual depois de esgotados Habermas e Foucalt - mas trabalho de mina (de biblioteca, de arquivo) nada.

No ano em que se celebram os 300 anos das Pazes de Utreque e das missões aí despachadas para entabular negociações com vista ao termo da Guerra da Sucessão de Espanha, nomeadamente as do Conde de Tarouca e de D. Luís da Cunha, a Biblioteca Nacional preparou uma exposição e um colóquio sobre o homem e a obra daquele que é, sem dúvida, o maior expoente da diplomacia portuguesa.. Visionário e inspirador remoto da ideia de um Portugal liberto do rectângulo peninsular - defendeu a transferência da capital do Reino para o Brasil - pensador ousado e reformista, adepto entusiasta do predomínio da aristocracia (que entendia como meritocracia), coube a este homem de excepção, ouvido pelas cortes, conselheiro e hábil defensor dos interesses da Coroa, transformar uma derrota militar numa vitória de Portugal em Utreque. Um exemplo inspirador para os dias de hoje.

14 janeiro 2013

Enfim, uma guerra legítima


Intervenção militar francesa em grande escala no Mali. Boas notícias, finalmente, após dois anos marcados pela inqualificável guerra sarkoziana ao povo líbio e pelo apoio à subversão terrorista jihadista na Síria. A França a puxar os galões da sua responsabilidade no Sahel, não mitigando o estatuto de potência projectando força externa, em contraciclo com a timidez desarmada e o embotamento da generalidade da Europa. Perante os destruidores de património insubstituível, os flageladores e lapidadores do mais sinistro islamismo, toda e qualquer intervenção é desejável à inércia. Não se trata nem de panache, nem de um acto gratuito. Estas exibições de força legítima da Europa são certamente um tónico e uma solene advertência a quantos se habituaram a ousar sem risco de retaliação. De parabéns, pois, François Hollande.