11 janeiro 2013

Carreirismo


Os carreiristas, isto é, os apoiantes de Carlos Carreiras à edilidade de Cascais, excedem-se em críticas ao governo e ao primeiro-ministro. A partidocracia tem coisas destas. O acessório sempre à frente do essencial, a manobrazinha de diversão tomada como fim, o ego de um qualquer fulano - "cidadão", pois claro - sobrepondo-se ao interesse da Cidade, o espertismo vende-mantas e a manha deliberadamente estudada para confundir o eleitorado - "cidadãos, pois claro - tudo compondo o terrífico quadro de um país com uma grossíssima casca de subdesenvolvimento. É evidente que o carreirismo, isto é, o campanário que se vê como mundo, é a moeda de troca que todos pagamos por um regime que nunca soube conciliar o interesse geral com as naturais aspirações microscópicas de "poder" e protagonismo e que agora que se abeira de um fim inglório (quarenta anos perdidos), exibe o manto de misérias que zelosamente ocultou da vista e narinas de um povo enganado e conduzido para o abismo.
Há quem se delicie com a politica, com a intriga e os culebrones da crónica de um tempo para esquecer. Os carreiristas - por sinal membros de uma ignota fundação que dá pelo nome de Sá Carneiro, outro mito - mostram quão impreparada, invertebrada e acéfala é a classe política sem classe alguma que nos tem tiranizado com habilidades. Passos Coelho é o cabeça de turco: ele é que tem culpa, ele é que nos trouxe a este baixio de naufrágio, ele é que conspira contra a felicidade, ele é que vive encarniçado na prática do mal. Do infantilismo à estupidez, tudo cabe na vidinha da micropolítica à portuguesa.

08 janeiro 2013

Quanto custa um doutoramento


Ontem entretive-me a reunir documentos, facturas e comprovativos de pagamentos referentes a cinco anos de preparação e redacção da dissertação de doutoramento em História das Relações Internacionais sobre as relações luso-siamesas, que tardo em defender. Entre viagens e deslocações, aluguer de um pequeno apartamento em Bangkok, estadia, livros, fotocópias, microfilmes, frequência de quatro níveis de língua thai, traduções, propinas e outros emolumentos, a coisa vai nos 85.000 Euros e ainda não acabou. Dado ter recebido uma bolsa de estudo de longa duração,  prescindi por três anos do meu vencimento como funcionário público, correspondendo a bolsa a 30% daquilo que  habitualmente recebo, pelo que durante os anos que passei na Tailândia fui forçado a desbastar o pé-de-meia que havia amealhado ao longo de anos.

Há quem goste de dizer mal dos bolseiros, há quem pense que a diferença entre um bolseiro e um turista é coisa ténue, que a investigação, os milhares e milhares de horas aplicados na leitura em bibliotecas e arquivos, a compilação de dados, a elaboração e a redacção que exigem sucessivas noites em branco e o sacrifício de fins de semana e férias, não merecem o esforço desenvolvido. Habitualmente, quem tais tais sentenças emite - satisfeito na escrevinhação de posts de blogue ou na cavaqueira da "cultura" de café, onde se emitem sem qualquer pudor cheques-carecas de infundada erudição - não se dá conta da diferença de escala e modo que separam a opinião da verdade, o palavrório do raciocínio, o improviso do método.

Porém, também há quem faça teses de mestrado e doutoramento como quem queima etapas, sem outra ambição que a de cumprir requisitos regulamentares e administrativos. Em Portugal, no domínio das Ciências Sociais e Humanas continua a praticar-se a "tese teórica", a monumentalidade das fachadas sem caboucos, o citar comboios de autores, o fazer filosofice mais ou menos atinada sem jamais entrar num arquivo, sem compilação, selecção e interpretação de dados. Começa-se pelo plano e não se chega a concluir o telhado. Vistas de cima, parecem imponentes, mas, depois, nada há para lá do magnífico plano mental ou sob o brilho das telhas, dos mármores e das madeiras odoríferas dos grandes portais.

A vida é breve, o tempo não pára e não se compadece da ligeireza dos desocupados ou dos falsos arquitectos-decoradores. Pergunto-me se vale o esforço, num mundo cada vez mais entregue a habilidosos, à "cultura do café" ou à torrente de opiniarismo que se vai lentamente transformando na "cultura do nosdo tempo". Já não estarei muito longe do calvinismo.

06 janeiro 2013

Raro exemplo de coragem: a paz e a reconciliação pela vitória


Importante discurso proferido hoje pelo presidente sírio, dois anos após o início dos ataques à soberania, paz e prosperidade de uma sociedade multiétnica e multiconfessional, exemplo de convivência e respeito pela diversidade. Tremendos foram os erros cometidos por algumas chancelarias ocidentais, induzidas pela miragem de uma vaga democrática que, afinal, escondia a face mais sombria do islão jihadista totalitário. Ao contrário da insistente propaganda veiculada pelas potentes máquinas de condicionamento, o presidente Assad, que está a operar a democratização do regime, tem procurado por todos os meios estender a mão à oposição não-armada e encontrar uma via negocial com os principais acicatadores da violência no país. 
Para ouvir na íntegra.