26 dezembro 2013

A revolução que não aconteceu: breve reflexão sobre o fim das revoluções


Os messiânicos de todos dos matizes aguardaram-na com impaciência durante décadas, asseverando o cataclismo com a certeza de uma fatalidade purificadora. A crença no colapso foi tão longe, que certas forças políticas e movimentos, considerando-se conhecedores da matéria não acessível a profanos, encheram-se daquela pistis dos escolhidos das catacumbas, dos perseguidos e dos indesejáveis, exultando com a marginalização a que eram sujeitos. A Europa das décadas da abundância encarregara-se de reduzir ao patético esses últimos crentes das teorias catastrofistas. Eram poucos, especializados numa literatura codificada, de semântica só por eles entendida, cultores de referências e textos por eles partilhados. Sonhavam com a É a Hora, com a revolução e com a Nova Era que surgiria quando as conjunções se operassem. No fundo, eram crentes, e os seus grupúsculos seitas, na acepção rigorosa do termo: a fé que haviam racionalizado com maior ou menor aparato erudito era o único agente recrutador desses movimentos que se digladiavam, entre-devoravam, colidiam e se apostrofavam na reivindicação de uma ideia de pureza quase religiosa.

De súbito, por volta de 2007, as conjunções realizaram-se. Um novo 1929, a derrocada do ímpio poder, o fim das ilusões dos alienados, a confirmação daquilo há muito anunciado. Contudo, após quase sete anos, a revolução não aconteceu. Não aconteceu pela esquerda new age, como não aconteceu pela direita do mito regressivo de um passado ante-histórico, "tradicionalista" na acepção de Evola. A Grécia, a Espanha, a França e Portugal não caíram na revolução das massas dirigidas por uma nova "estirpe" (cara aos tradicionalistas) ou por uma nova "vanguarda consciente". A teoria da decadência da democracia ocidental, mais as críticas realistas às suas perversidades funcionais, não conseguiu oferecer uma alternativa. As revoluções não se deram, como as rebeliões mostraram à saciedade - para desencanto dos revolucionários - que os mais expostos às devastações produzidas pela crise não reclamavam a revolução, mas o retorno aos tempos dourados do consumismo, do bem-estar e da despreocupação anterior à crise. A chamada classe média, uma invenção da sociedade de bem-estar, não reivindicou uma alternativa; antes defendeu o Estado Social, as políticas integradoras, a redistribuição, as conquistas históricas da educação para todos, da saúde universal, do emprego e das reformas e pensões garantidos. 

As democracias ocidentais, certamente muito diminuídas moralmente pela oligarquização de décadas, continuam a ser, sem oposição, o modelo mais exaltado e reclamado pelas sociedades europeias. Se a democracia falhou estrepitosamente enquanto força de afirmação da superioridade ocidental perante o mundo, se não conseguiu a universalização - vide exemplos do Iraque e do Afeganistão, as grandes cruzadas pela imposição do Ocidente no início do milénio - e se mostrou à saciedade as suas limitações e aspirações em galáxias civilizacionais que a confundiu com a forma mais simples de caucionar e legitimar o direito da maioria sobre as minorias - vide a chamada Primavera Árabe - e, por último, se tornou notória a capacidade do Ocidente em orientar os sonhos do mundo.

As críticas cerradas à democracia decorrem de um certeiro diagnóstico às doenças da democracia, conhecidas desde Aristóteles: horizontalização, embrutecimento, demagogia, favorecimento e, mais recentemente, partidocracia. Contudo, tal não implica o declínio da ideia democrática de igualdade perante a lei, direito à participação e à representação, respeito pela diversidade, direito à expressão da opinião. Pelo contrário, nunca como hoje, se pede maior transparência, maior justiça, mais espontaneidade e participação. A crise veio mostrar que, afinal, a democracia está para ficar.

1 comentário:

Freire de Andrade disse...

Absolutamente de acordo. A este propósito escrevi no meu blog (Será que os anjos têm sexo?), permitindo-me transcrever parte do seu artigo:
«Última oportunidade perdida
A crise em que vivemos desde 2007 é uma crise complexa, com numerosas facetas. Há quem lhe chame crise do euro, não tendo em conta que o euro, como moeda, continua de boa saúde. Como dizia Mark Twain, a notícia da sua morte anunciada foi grandemente exagerada. Também lhe chamam crise da dívida, aí, parece-me, com mais propriedade, talvez, ainda mais, seja uma crise das dívidas, seja das dívidas soberanas, seja das dívidas públicas ou ainda das dívidas das sociedades. Mais simplesmente há quem diga que é uma crise financeira, para alguns que deu origem a uma crise económica. Talvez seja afinal uma crise do capitalismo.

Se esta última designação parece justa, é surpreendente que a esquerda revolucionária, guiada pela sua fé nas previsões do Socialismo Científico, não tenha conseguido aproveitar nenhuma das ocasiões que desde 2007 se lhe ofereceram para criar situações que possam vir a provocar o aprofundamento da luta de classes com vista à revolução inevitável que, acabando com o capitalismo, acabe com a crise. Os grandes movimentos de massas, que entre nós tiveram a sua expressão máxima na grande manifestação de 15 de Setembro, não conseguiram manter o ritmo. Nem cá, nem em Espanha, nem nos Estados Unidos, com o movimento Ocupy Wall Street, nem noutras paragens. Ao contrário do que muitos previam, as manifestações foram tendo cada vez menos participantes e, embora incómodas, tornaram-se inofensivas para a sobrevivência dos regimes democráticos e do capitalismo. Como muito bem escreveu Miguel Castelo Branco, «As revoluções não se deram, como as rebeliões mostraram à saciedade - para desencanto dos revolucionários - que os mais expostos às devastações produzidas pela crise não reclamavam a revolução, mas o retorno aos tempos dourados do consumismo, do bem-estar e da despreocupação anterior à crise». E não parece que os movimentos revolucionários, apesar do estrebuchar que ainda consegem, consigam aproveitar esta oportunidade para chegarem aos amanhãs que cantam.»