03 novembro 2013

Um tal Herculano de Carvalho e Araújo


Media um metro e cinquenta e três, mas foi, sem dúvida, um dos grandes vultos da cultura portuguesa de Oitocentos. Do autor da Portugaliae Monumenta Historica, de A Voz do Profeta e do Bobo sobrevive - como o romantismo o esculpiu - a legenda de um homem sisudo e probo, entregue à paixão devoradora do estudo no silêncio do gabinete, do desapegado das mundanidades e do exilado de Vale de Lobos. O Liberalismo reconheceu-lhe os méritos e a tradição liberdadeira dele fez um santo laico. De quando em vez, já entrado nos anos, Herculano saía da sua voluntária reclusão e dardejava sem clemência a pequenez dos homens e das suas superstições; a sua voz ecoava então como oráculo de verdade e rigor, a sua imperturbável serenidade calava os exaltados, a sua clareza matemática estabelecia o critério.

Este é o Herculano da lenda. Há uns anos, num debate público, afirmei perante o estupor dos circunstantes, que esse Herculano jamais existira e que o verdadeiro Herculano era, talvez, um mentiroso, um faccioso e um cínico. Reuni alguns dados biográficos para corroborar as minhas provocações, mas o vozerio foi tamanho que me rendi ao silêncio. Acalento ainda poder um dia fazer a impugnação desse mito e demonstrar que Herculano foi, na mudança do Portugal Antigo para o Portugal que temos, um dos mais afincados carreiristas. Herculano tinha momentos de grande elevação - a sua face benigna - como quando defendeu os egressos, ou seja, os pobres monges das extintas ordens religiosas, obrigados a abandonar os mosteiros e reduzidos à miséria. Porém, neste particular, Herculano fora um dos milhares de cúmplices nesse tremendo como irreparável crime metódico praticado contra a vida provincial portuguesa, a rede educativa, a selecção da elite e até a estrutura da economia rural do país. Os mosteiros e as ordens religiosas eram, desde há séculos, o pilar da organização da cultura, do dinamismo económico e da vida local. Ao serem extintos, morreu a diversidade e a riqueza e o país ficou, desde então, reduzido a Lisboa.

Herculano era um rapaz de pouco mais de vinte anos quando abandonou o país para se juntar à causa pedrista. Aqui começa a lenda. Esteve em França, onde afirmou ter frequentado a biblioteca de Rennes e, depois, ter transitado para Paris, onde teria estudado ou frequentado a École des Chartes, instituição onde despontavam os estudos medievalistas. Contudo - e Vitorino Nemésio na sua Mocidade de Herculano não resolve esse mistério - não há na referida instituição o mais leve traço da passagem do jovem português. Na altura, para poder residir em Paris e frequentar as universidades, era exigida da prefeitura da polícia um documento que atestasse ser o estudante estrangeiro pessoa sem registo criminal e meios de subsistência. Ora, tais documentos não existem; logo, Herculano nunca esteve na École des Chartes.

Quando os liberais - ou antes, os famosos Bravos do Mindelo, seis mil e quinhentos mercenários ingleses, alemães, irlandeses, franceses, polacos, italianos, recrutados e pagos para combater uma guerra que não era sua - desembarcaram nas cercanias do Porto, Herculano era um dos raros portugueses que vinham nessa expedição paga pela banca da city londrina, graças aos bons ofícios do espanhol  Mendizábal, como se sabe causídico de todas as causas justas, que cobrava até ao último real. Mendizábal, autor da famosa desamortização que leva o seu nome, quiçá o maior roubo organizado perpetrado pelo Estado contra os bens fundiários pertencentes ao clero regular, logo levados a hasta pública e vendidos à nova oligarquia capitalista, estaria para o tempo como os actuais angariadores das "guerras justas".

Ocupado o Porto, o nosso bravo Herculano não foi enviado para a frente de combate. Deram-lhe um lugar de bibliotecário na Biblioteca do Porto. Ficou aboletado, com lenha, água, luz e cama, em casa de um rico comerciante. A guerra em que Herculano combateu foi agasalhada, sem percalços e com caldo servido em boa casa burguesa. Se bem que depois tenha escrito uma Elegia de Soldado, apenas terá empunhado a espingarda  por alturas da fracassada tentativa do exército real em tomar o Porto, bem como no combate de Ponte de Ferreira. Ali, conta, recebeu ferimento de que sobreveio a famosa cicatriz na face. Na altura, a generalidade dos combatentes apresentava cicatrizes faciais causadas, não pelo fogo inimigo, mas pela deficiente qualidade das munições que explodiam, causando queimaduras ou golpes nu atirador. Terá sido essa a cicatriz de Herculano?

Herculano, um sincero amante da documentação, parece ter usado os seus excelentes conhecimentos para os usar em causa imprópria. Terá sido um historiador na acepção regular do termo, ou um investigador ao serviço de uma causa, ocultando-a com roupagem de respeitabilidade? Na História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal, coube-lhe tecer a teoria da decadência, a lenda negra de Dom João III e Dom Henrique I, o desprezo pelos Bragança (ver Opúsculo V), tópicos que desde então têm sido os mais insistentes veículos do anti-monarquismo. Infelizmente, a nossa gente não tem hábitos de leitura. Cita, mas não lê. Ora, Herculano di-lo expressamente na introdução à História da Origem e Estabelecimento. Afirma que escreveu a obra contra a "reacção teocrática e ultramontana" e com uma finalidade prática, para servir um ideal político e não por especial interesse na matéria. Herculano historiador?

Na acidentada vida política do primeiro vinténio liberal, Herculano envolveu-se activamente. Opôs-se ao Setembrismo - onde campeva Garrett, esse um homem curioso - mas tal parece não ter afectado sobremaneira a sua carreira pública. Em 1837 (com vinte e sete anos) tomou conta do Diário do Governo, mas também foi director da revista Panorama - revista milionária na época - e dois anos depois ascendia a bibliotecário da rainha, vencendo 600 mil reis anuais, uma fortuna para o tempo. As funções de bibliotecário régio eram habitualmente confiadas a um literato idoso, pois o posto assegurava respaldo de sobrevivência. Herculano conseguiu-o aos 29 ! Nesse mesmo ano (1839), recebia a ordem de cavaleiro da Torre e Espada. Será lícito que nos interroguemos sobre a origem dessa distinção. Não o faremos, deixando ao leitor a faculdade de pensar. A quem estaria ligado, que cumplicidades manejava, quem o poderia promover?

Depois, lendo a abundante documentação existente na Biblioteca da Ajuda, resta-nos e espanto. Herculano, na sua correspondência particular, só abordava questões de dinheiro: a quem vender o vinho e o azeite,  pedidos para a intercessão de amigos na praça, crédito e empréstimos a baixas taxas de juro, etc. Herculano, um grande homem das letras? Sem dúvida, mas também um bom figurão.



9 comentários:

João José Horta Nobre disse...

Publiquei:

http://historiamaximus.blogspot.pt/2013/11/um-tal-herculano-de-carvalho-e-araujo.html

Contacto: historiamaximus@hotmail.com

António Bettencourt disse...

Não consigo perceber é como é que alguém que foge de Portugal em 1831, com a revolta de 21 de Agosto, e regressa em 1832, com os "Bravos do Mindelo", teve tempo de frequentar seja que curso for em Paris.

jose disse...

Não se aproveitará nada?Já temos tão pouco desde que as portas de Abril se fecharam aos reaccionários da nossa cultura e que eram todos menos os neo-realeiros.Camões será um espelho de virtudes?Ora,um defensor do imperialismo segundo as esquerdas.Agora só faltava a desanda à direita.Vai-se ver bem não sobra ninguém.Patriotismo...

Duarte Meira disse...

Caro Miguel Castelo Branco:

Precisará de mais do que argumentos de metro e meio para reduzir à sua justa medida aquele que " foi, sem dúvida, um dos grandes vultos da cultura portuguesa de Oitocentos". E não sei se a "imensa documentação", que alega, mesmo que trate só de negócios e mercearia, poderá diminuir algum centímetro à importância dos volumes (pelo menos seis) das cartas já publicadas, começando pela (justamente) famosa aos eleitores de Sintra.

Quando li o clássico nemesiano, não me lembra de algum pormenor que diminuísse a estatura moral e cívica do homem livre e português velho que foi Herculano. (Dos velhos de Almacave e do Restelo...)Pena que a obra se ficasse pela mocidade, até ao retorno do exílio. Mas sempre que se lhe referiu posteriormente, não notei que Nemésio não tivesse prosseguido a obra por escrúpulo de teor moral ou outro. Pelo contrário, sempre se lhe referiu positivamente.

O Miguel acaba de assumir aqui publicamente um compromisso com os seus leitores, os seus compatriotas e a sua consciência. Fundamentar as suspeitas que lançou, e desmontar o "mito". Pessoalmente, como português, estou muito interessado em saber se os meus compatriotas mais próximos de Herculano se enganaram ao pô-lo num túmulo de mais de "um metro e meio" em uma capela exclusiva, nos Jerónimos.

Mas, como historiador, o Miguel assumuiu também uma responsabilidade de peso: tem de ser obra digna, se não da estatura física do homem, da estatura intelectual da obra que Nemésio dedicou à mocidade do biografado (E onde encontrará tudo o que de mais plausível se pôde saber sobre a rixa que pôs o gilvaz no rosto de Herculano, em circunstâncias que nada têm a ver com as que refere neste apontamento.)Tem de ser coisa tão minuciosamente informada como largamente compreensiva das circunstâncias, como é a do açoriano. Não tive ainda o gosto de ler a sua tese sobre a presença portuguesa no sudeste asiático. Mas não faltam públicas indicações de que o historiador Miguel Castelo Branco até pode ser o homem que se precisa. Assim possa também controlar e pôr de remissa psicológica as suas manifestas antipatias anti-liberais. Isto se não encontrar, antes e depois de herculano, outros "mitos" em que, hoje, lhe valesse a si e a nós mais a pena e o trabalho de "desontruir".

Ficamos a aguardar.

João Pedro disse...

Não faço ideia se a cicatriz de Herculano terá sido por causa do próprio fuzil ou da metralha do inimigo, mas asseguram as crónicas da guerra que a batalha da Ponte do Ferreira foi um combate encarniçado e violento, que teve pouco de simples reconhecimento do terreno, e muito menos de "agasalhada e com caldo".

Saliente-se que Herculano estava longe de era um anticlerical, e que se referia à tal "reacção teocrática e ultramontana" por causa do ódio que sofreu por ter sido o primeiro a pôr em causa do milagre de Ourique, tido até aí como Graça divina fundadora da nação.

Além de que não se pode omitir o seu imenso trabalho na sua História de Portugal, nos primeiros romances históricos (o citado "o bobo", "Eurico, o Presbítero", o Monge de Cister")e da colectânea "Lendas e Narrativas", em que recuperou lendas e histórias populares que de outro modo se perderiam.

Combustões disse...

Duarte Meira
Nemésio não podia acrescentar, pois assinava com três pontinhos
.
. .
Fiz-me compreender ?

Pedro Marcos disse...

"Nemésio não podia acrescentar, pois assinava com três pontinhos"

Não diga mais nada.
Perfeitamente coerente e explica muita coisa.

FB disse...

Caro Miguel Castelo Branco,

Confesso que fiquei um pouco surpreendido por este seu texto. Li algumas obras de Herculano com a devida atenção e fiquei sempre com boa impressão do que li, no sentido em que sempre me pareceu que Herculano conhecia muito bem as matérias que tratava. Lembro-me em particular do estudo feito n' "Os Vínculos" em que qualquer pessoa que conheça a questão percebe que Herculano sabia muito bem do que falava...
Naturalmente que Herculano tinha uma posição ideológica (bem conhecida) como qualquer historiador tem. Creio que tal facto não é suficiente para, de alguma forma, tornar o trabalho de Herculano menos meritório ou suspeito.
Gostaria de lhe fazer uma pergunta sobre um assunto sobre o qual tenho curiosidade: a correspondência de Herculano que refere no seu texto é relativa a que período?
Deixo-lhe ainda uma nota. O ordenado de Herculano de 600 reis anuais era, sem margem para dúvidas, um bom ordenado. Mas seria uma fortuna? Creio que não. Tenho um antepassado sobre o qual fiz um pequeno estudo que era botequineiro em Guimarães. Esteve preso entre 1828 e 1834 e num "Libelo de Indemnizações" (datado de 1835) afirmava ganhar 1600 reis/dia, o que equivale a 584000 reis/ano. Na minha opinião o valor do dinheiro e a sua equiparação a valores de hoje é muito difícil de fazer. Um indivíduo que tivesse um património de 15 contos de reis poderia ser considerado "rico". Ao fim de alguns anos de trabalho e de poupança, seria possível juntar esse património com o salário de Herculano. Mas 600 mil reis para quem tinha que andar vestido diariamente de casaca e "tratar-se limpamente" não me parece grande soma e não sei se permitiria uma grande poupança.
Melhores cumprimentos,
Francisco Brito

FB disse...

Caro Miguel Castelo Branco,

Confesso que fiquei um pouco surpreendido por este seu texto. Li algumas obras de Herculano com a devida atenção e fiquei sempre com boa impressão do que li, no sentido em que sempre me pareceu que Herculano conhecia muito bem as matérias que tratava. Lembro-me em particular do estudo feito n' "Os Vínculos" em que qualquer pessoa que conheça a questão percebe que Herculano sabia muito bem do que falava...
Naturalmente que Herculano tinha uma posição ideológica (bem conhecida) como qualquer historiador tem. Creio que tal facto não é suficiente para, de alguma forma, tornar o trabalho de Herculano menos meritório ou suspeito.
Gostaria de lhe fazer uma pergunta sobre um assunto sobre o qual tenho curiosidade: a correspondência de Herculano que refere no seu texto é relativa a que período?
Deixo-lhe ainda uma nota. O ordenado de Herculano de 600 reis anuais era, sem margem para dúvidas, um bom ordenado. Mas seria uma fortuna? Creio que não. Tenho um antepassado sobre o qual fiz um pequeno estudo que era botequineiro em Guimarães. Esteve preso entre 1828 e 1834 e num "Libelo de Indemnizações" (datado de 1835) afirmava ganhar 1600 reis/dia, o que equivale a 584000 reis/ano. Na minha opinião o valor do dinheiro e a sua equiparação a valores de hoje é muito difícil de fazer. Um indivíduo que tivesse um património de 15 contos de reis poderia ser considerado "rico". Ao fim de alguns anos de trabalho e de poupança, seria possível juntar esse património com o salário de Herculano. Mas 600 mil reis para quem tinha que andar vestido diariamente de casaca e "tratar-se limpamente" não me parece grande soma e não sei se permitiria uma grande poupança.

Cumprimentos,
Francisco Brito