30 novembro 2013

Como o prosaico se transforma em arma


Tive hoje acesso a documentação vária existente no Arquivo Histórico Diplomático, tratando de questões ditas menores da política externa portuguesa no ano de 1967, momento particularmente sensível em que as posições defendidas por Portugal sobre o Ultramar eram objecto de crescente hostilidade por parte da comunidade internacional. Em Dezembro de 1966, uma moção aprovada pela Comissão de Curadorias da ONU reiterava prévias acusações contra Portugal pelo incumprimento da Carta das Nações Unidas a respeito do direito à autodeterminação dos povos das províncias africanas. Dessa decisão aprovada por maioria, desenvolveu-se na imprensa europeia e norte-americana intensa campanha, acompanhada de actos de protesto, seminários e abaixo-assinados exigindo o corte imediato da assistência militar a Portugal por parte dos restantes membros da OTAN. Em Março de 1967, informavam as embaixadas portuguesas em Londres, Paris, Bona e Washington que os argumentos portugueses já pouco acolhimento ganhavam junto das chancelarias, posto as opiniões públicas estarem convencidas que Portugal exercia a soberania sobre os povos africanos de forma atrabiliária, ali cometendo atropelos aos direitos humanos, negando a cidadania e praticando a segregação racial. Por todos os meios se tentou esclarecer, por comunicados e conferências de imprensa, que Portugal não era a África do Sul, que em Angola e Moçambique estava em curso uma profunda mudança envolvendo as populações dos territórios. Em vão, pois a imprensa não só boicotava tais iniciativas, como redobrava em ataques e denúncias.
Em Abril de 1967, realizou-se em Viena um dos mais mediáticos eventos musicais da época. Então, o festival da Eurovisão era seguido e discutido por praticamente todos os europeus. Tal espectáculo, que hoje já nada representa, gerava grande expectativa e a imprensa dedicava-lhe honras de primeira página. Para esse concurso, Portugal enviou o angolano português Eduardo Nascimento. Voz poderosa e grande simpatia pessoal, homem educado e poliglota, a sua prestação provocou um sismo. Escrevia para Lisboa um embaixador de Portugal que Eduardo Nascimento sobre o palco tivera tal efeito que, de súbito, se calaram todos os protestos e boicotes contra as nossas representações diplomáticas. Eis como uma simples cançoneta pode valer todas as campanhas de propaganda e todas as operações militares. Eduardo Nascimento fez nessa noite o que toda a nossa diplomacia não conseguira durante anos: demonstrou que a questão ultramarina portuguesa não era simples e que havia quem a soubesse defender com a sua voz. Nascimento merecia uma medalha, mas hoje ninguém dele se lembra.

6 comentários:

Nelson Marques disse...

Permito-me tentar juntar ainda algo ao que diz aqui, mais precisamente sobre futebol e, como não podia deixar de ser, Eusébio. Faço-o porque assisti já a várias peças televisivas da BBC onde se avança a razão pela qual, no Reino Unido, Eusébio causou tanta comoção em 66: foi o primeiro jogador negro a emergir com destaque de líder (Portugal eliminou o Brasil nesse campeonato, recorde-se, que o foi o primeiro com transmissões a cores). Esse facto - e só esse facto - elevou-o a um estatuto de símbolo para toda uma geração de jogadores, brancos e negros, que só viriam a maturar na década de 80. Se Eduardo Nascimento não tem o reconhecimento que merece, pelo menos Eusébio sim, o que sempre é um pensamento reconfortante num país tão precisado de heróis.

Cmpts

Pedro Leite Ribeiro disse...

Acrescente-se que foi o primeiro negro a pisar um palco do Festival da Eurovisão.

Maria disse...

Está enganado em parte, pelo menos por aquilo que imagino. Encontrei este cantor, cuja bela e potente voz empresta a esta canção e já passados tantos anos, algo de indefinível que ainda nos faz ouvi-la com bastante prazer, há uns largos anos quando havia ido assistir a uma aula de ténis da minha filha, ainda pequenina, no Jamor e cruzámo-nos com ele justamente quando se preparava para abandonar o recinto. E estava com muito bom aspecto.

Também revelou numa televisão em directo, já vão uns bons anos, que havia deixado as cantorias e que (nessa altura) estava ligado por trabalho a uma estação de rádio, se não estou em erro.

Uma coisa é certa, este rapaz possuia um timbre e uma potência de voz espectaculares, lá isso tinha. Pena não ter sido devidamente aproveitada.

João Pedro disse...

Não está assim tão esquecido: já apareceram algumas versões de "O Vento Mudou", e aliás o próprio apareceu ao vivo ao lado de grupos musicais que as cantavam.

http://www.youtube.com/watch?v=h2BcshCRKRs

Portugalredecouvertes disse...

Não encontro comentários segundo os quais como é que os deuses da guerra "prepararam" uma guerra civil longa sangrenta para os povos que tanta gente queria ver libertados de Portugal

João José Horta Nobre disse...

O Arquivo Histórico Diplomático tem muitos segredos lá bem escondidos...

Também já passei lá muitas horas de volta de telegramas e outra documentação.

Publiquei:

http://www.historiamaximus.blogspot.pt/2014/01/como-o-prosaico-se-transforma-em-arma.html

Cumpts,
João José Horta Nobre

Contacto: historiamaximus@hotmail.com