22 setembro 2013

Os fantasmas de António José de Almeida e de Benito Juaréz e a cegueira dos nossos populistas


Em 1861, o México recusou pagar à Grã-Bretanha, França e Espanha os juros da então astronómica quantia de 17 milhões de £ esterlinas devidas a sucessivos empréstimos. Um corpo expedicionário invadiu o país. No momento inicial da intervenção, antes que Napoleão III se decidisse pela mudança de regime no México e pela concessão da coroa a Maximiliano de Áustria, a troika franco-hispano-britânica contentou-se com a gestão das receitas angariadas pelo Estado mexicano em taxas sobre a importação de bens entrados nas alfândegas, bem como pelo imposto sobre a produção da prata mexicana. Como o México continuou a recusar os termos exigidos pelos credores, a intervenção resultou em ocupação e guerra.

Em 1922, para celebrar um século sobre a independência do Brasil, o presidente António José de Almeida realizou ao país-irmão uma visita de Estado. Zarpando do Tejo em finais de Agosto, o paquete Porto só chegaria ao Rio na segunda semana de Setembro, após inenarráveis acidentes motivados pela depauperada condição das máquinas e falta de carvão para alimentar as fornalhas. Contudo, algo de insólito iria atormentar a visita, de imediato exposta a contingências que os governantes portugueses haviam descurado. Portugal devia milhões e encontrava-se em incumprimento devido a obrigações com a toda-poderosa banca britânica. As autoridades brasileiras receberam instruções para que o Porto fosse notificado de cassação e penhora, passando a propriedade de uma asseguradora britânica. António José de Almeida regressou a Lisboa a bordo de um paquete de uma transportadora britânica, só podendo viajar após angariação de piedosa colecta reunida pela comunidade portuguesa no Brasil.

Os nossos demagogos e populistas - os tais que sonham com a denúncia do acordo ; aqueles que julgam possível "bater o pé" aos nossos credores, gente poderosíssima - não sabem nem lêem  história. Desconhecem que os modos da plutocracia que abraça todo o mundo têm a defendê-la disposições legais retaliatórias de alcance e efeito devastar, que Portugal - colocado nesta vergonhosa situação por décadas de má governação de um regime alcandorado na demagogia - seria de imediato alvo de medidas vexatórias. Se os funcionários do Estado, os pensionistas e os orçamentos ministeriais se esgotassem por falta de provisão, também companhias, bancos e até propriedades pertencentes ao Estado português fora de fronteiras (nomeadamente sedes de embaixadas e consulados) poderiam ser cassados. Mas nada disto parece afligir gente que vive da mentira, da propaganda e da exploração da ignorância colectiva. 

2 comentários:

João José Horta Nobre disse...

Publiquei:

http://historiamaximus.blogspot.pt/2013/09/os-fantasmas-de-antonio-jose-de-almeida.html

txticulos disse...

Ainda no ano passado o Libertad, navio escola argentino, ficou apresado num porto do Gana devido a questões ainda não resolvidas do default da Argentina.
http://www.bbc.co.uk/news/world-latin-america-20078320