27 setembro 2013

A mais estúpida decisão do governo


Decididamente, parece existir no governo um demónio disposto a inquinar a já difícil relação entre o executivo e a função pública. O governo precisa da função pública - da lealdade e esforço daqueles que dão execução às políticas dos ministérios - pelo que tudo quanto concorra para socavar a disponibilidade dos servidores do Estado, acaba por diminuir a eficácia da acção governativa. Tal como aconteceu no passado, tudo sugere que alguns ímpetos irreflectidos - uns ditados pelo preconceito, outros pelo fanatismo ideológico, outros ainda pela estupidez chã - decorrem da imaturidade de quem opina e determina medidas que inapelavelmente resultam na gratuita criação de inimigos e ressentidos entre pessoas que jamais alimentaram qualquer animosidade e reserva. 

O governo esmera-se em ofender aqueles que o servem, eis quanto depreendo da recente decisão em aumentar para oito horas diárias (acrescida de uma hora para almoço) a presença dos funcionários públicos nos respectivos postos de trabalho. Trata-se de medida que estimo inútil, malsã e perigosa. Depreendo que seja produto de elocubrações de pirralhos que nunca trabalharam (ou que pela primeira vez trabalham, tendo sido angariados nas sortes do recrutamento partidário), mas igualmente de ódio de natureza ideológica contra o Estado, produto de meia dúzia de leituras que satisfazem o diminuto horizonte das necessidades de mundo dessa gente. Quem tal medida desencantou, ou quer precipitar uma vaga de rescisões amigáveis, ou age por condicionamento e paixão sectária, esquecendo-se - tamanha a sua falta de experiência - que as rescisões vão afectar prioritariamente os quadros superiores, posto que os funcionários mais humildes e desclassificados se agarrarão em desespero aos seus lugares por mais insultos que recebam. Os fedelhos intoxicados de liberalismo pronto-a-vestir que tais medidas advogam esquecem-se que a generalidade dos funcionários do Estado trabalham num mês aquilo que eles não trabalharam toda a vida. Esquecem-se que o congelamento de admissões na função pública, a introdução da avaliação e objectivos, provocou a duplicação do expediente dos serviços. Esquecem-se que generalidade dos quadros do Estado não trabalham oito nem nove horas diárias, mas dez e onze horas para manter viva a máquina do Estado.
Medidas destas, a singrarem, anunciam a alienação definitiva da disponibilidade psicológica de meio milhão de pessoas. O resultado da aplicação da insana medida vai provocar resistência passiva, rancor e indisfarçável ânsia em ver o governo sair pela porta grande de uma derrota eleitoral.


1 comentário:

António Bettencourt disse...

Os meus parabéns. Demorou mas finalmente começou a perceber a natureza pirralha deste governo.

Uma cambada de meninos dos MBA para quem a vida das pessoas é um gráfico, um esquema, uma teoria aprendida à pressa.

Recuso-me a ver no meu país uma sociedade darwinista, à maneira das américas e de outras paragens infectas.