30 agosto 2013

E porque o Reino Unido ainda é um país livre e uma monarquia...


A Tony Blair, hoje transformado em caixeiro-viajante de todas as causas iníquas - aquelas que concorrem contra a liberdade dos povos, o jugo da alta finança rapinadora, o desprezo pelo Direito Internacional, o aventureirismo belicista - sucedeu David Cameron. Pensei, ingenuamente, que Cameron refreasse os ímpetos gangsterescos da clique do New Labour, cultivasse a Real Politik, o bom senso, a cautela; tudo atributos de um conservadorismo sem cruzadismos, e fizesse fincapé na autonomia da política externa britânica. Afinal, Cameron é, também ele, não obstante a sua remota ascendência real, um candidato a caixeiro-viajante da plutocracia que mutilou a extremos a plácida face das democracias ocidentais. Os últimos dez anos reservaram-nos indesejáveis surpresas. Para quantos pensavam que os EUA e os regimes que vigoram na Europa Ocidental estavam imunes aos demónios da governação atrabiliária e ao despostismo, eis que chegamos a este 2013 com a clara percepção do afundamento da mitologia democrática. Os EUA são, sem tirar, uma oligarquia plutocrática. Ali já não vigora a democracia e a legislação limitadora das liberdades caminha pari passu com a inimputabilidade e irresponsabilidade presidencial. Ali, manda-se matar, prender sem mandado, bombardear e até fazer a guerra sem fiscalização de qualquer instituição. 
Contudo, ontem na Câmara dos Comuns, o que remanescia da velha Albion fez recuar a maré da impunidade neo-con. Os deputados de S.M. - livres, porque eleitos uninominalmente - disseram não à mais acabada canalhice, à mais desbragada mentira e ao maior atentado ao Direito Internacional. Desde 1991 que a política ocidental - que tem a arrogância de se constituir em "comunidade internacional" - exibe todos os tiques das outrora potências totalitárias. Em nome da Liberdade e da democracia, povos são sujeitos a bloqueio económico, países soberanos são invadidos e submetidos à condição de protectorados, populações indefesas bombardeadas. O Ocidente transformou-se na caricatura de tudo quanto afirmava representar. Ontem, Cameron e a sua clique morderam o pó da humilhação no parlamento de S.M. Afinal, a democracia britânica - democrática porque monárquica - voltou a restituir a esperança a quantos já haviam desistido de justapor a bondade dos princípios e a mentira dos factos.

8 comentários:

Lionheart disse...

Não partilho da sua simpatia pelo regime sírio, mas entendo que o Ocidente não tem de ir a todas, porque muitas vezes não há condições no terreno para que a sua intervenção melhore a situação. Aconteceu isso no Egipto e na Líbia e pode muito bem acontecer o mesmo na Síria. Foi esse receio que levou ao desfecho que se conhece ontem no Parlamento britânico.

David Cameron tem tido uma postura "sôfrega", falando sobre tudo, desde suicídios por causa de redes sociais até sei lá mais o quê, querendo intervir em tudo, tentando assim demonstrar que é um líder. Mas tal soa a falso, banaliza a sua palavra, degrada o seu estatuto de Primeiro-ministro. É evidente que por detrás disto também está o receio do protagonismo francês e que a França tente substituir-se ao Reino Unido junto de Barack Obama (de quem se sabe ser um anglófobo) ainda para mais agora que a França tem um presidente de esquerda. Sarkozy já tinha tentado fazer o mesmo junto de Obama.

Mas paradoxalmente este voto pode até prestigiar o Reino Unido, dado o voto ser uma manifestação de soberania e mostrar como as suas instituições são autónomas e se levam a sério, além de que dá um óptimo pretexto para os britânicos ficarem fora disto sem ficarem (tão) mal vistos junto dos EUA. Não excluo ter sido esse o propósito final de Cameron - apesar do dano de curto-prazo na sua imagem - até porque ele não tinha de pedir "autorização" ao Parlamento...

Arun Mai disse...

May I remind the honourable gentlemen about the fact that Great Britain was a monarchy when HER MAJESTY´s government instigated and joined the Iraq war on false pretence, on the basis of “evidence” forged by HER MAJESTY´s secret service? What you present here is just the usual cum hoc ergo propter hoc fallacy, based on wishful thinking.
If I may add, it was Dominique de Villepin, foreign minister of the same French Republic, which you so much despise, who reminded with strong words the USA and its European satrapy about the inappropriateness of their war games.

And which other countries were member of the notorious coalition of the willing, that supported the illegal invasion of Iraq? I list the countries which still happen to be monarchies only, just to make sure the point becomes clear even to the deaf and blind:
Australia, Bahrain, Denmark, UK, Japan, Jordan, Qatar, Netherlands, Norway, Oman, Saudi-Arabia, Spain, Thailand, Tonga, and the United Arab Emirates. But of course there were some republics involved too, like Romania, Uzbekistan and Portugal…

The House of Commons is not filled by “deputados de sua magestade”, the lackeys of a feudal lord, but by representatives of the people in their constituencies, elected in order to defend the interest of the people against the executive branch.

And besides, the conservative party of Mr Cameron does not follow the model of New Labour (those did follow just the pseudo-neo-liberal ideology of the time), but pursues its longstanding tradition: bombing/policing, instead of preventing critical situations; and of course, not waging war without the prospect of material gains.

Carlos Velasco disse...

Caro Miguel,

A notícia é boa, mas faço outra leitura. Se prevaleceu o bom senso na Câmara dos Comuns, mais se deveu ao receio de parte dos plutocratas, que têm consciência de que se chegou ao limite na provocação à Rússia, do às virtudes do sistema representativo britânico.
Como prova disso, cito dois factos. O primeiro é o histórico das votações na Câmara dos Comuns. Em questões que têm consenso entre os plutocratas, as propostas dos governos são aprovadas sem dificuldade, ainda que a maioria da população seja contra.
Nesse caso particular, apenas 8% dos britânicos eram favoráveis à agressão. Contudo, a votação foi vencida por uma margem insignificante.
O grande responsável pela sabedoria demonstrada por parte dos comuns foi Vladimir Putin. Se esta guerra for cancelada e evitarmos uma guerra mundial, ficaremos a dever muito à firmeza desse estadista.

Um abraço.

Jose Catarino disse...

Fiquei a pensar se Cameron não será mais esperto do que julgamos: por, não querendo desagradar ao amigo americano nem envolver-se em tal trapalhada, decidir ouvir a Câmara dos Comuns. Para "ganhar perdendo".
E o Hollande demasiado estúpido, ao tentar substituir o Reino Unido nas boas graças americanas.
Provavelmente estarei errado. Mas a médio prazo Cameron sai a ganhar. Afinal, mostrou ser um democrata.

EJSantos disse...

Boa noite.
Concordo com o Carlos Velasco na sua análise.
Quanto ao ataque com armas químicas, nada me convence que os autores não tenham sido os próprios mercenários da Al-Qaeda, para forçar uma intervenção dos EUA.
Cumprimentos.
PS: excelentes textos. Gosto de ler o que escreve.

Alberto Lopes disse...

"...a democracia britânica-democrática porque monárquica-"
Essa afirmação dá-me vontade de rir porque não consigo entender como o regime monárquico é por si considerado superior ao regime republicano. Dá para entender?

Unknown disse...

"The Tsar did it".
No doubt.

Buíça disse...

Há uma luta sem quartel no planeta pelo acesso a todas as formas de energia que sustente tudo o resto, seja a manutenção do império Americano ou a emergência do império do Meio.
A potência dominante não olha a quaisquer limites para manter os mercados cativos e as fontes de energia que a mantiveram em total hegemonia nos últimos 100 anos ao pagar sempre entre 1/5 e 1/3 do preço da energia de todo o resto do mundo.
Bush, Obambi, Blair, Cameron, Barroso (ver por exemplo como a próxima líder do PSOE, tal como este, vai agora 1 aninho para os States, "dar aulas". Há de voltar já alinhada...) e tantos outros são apenas peões nesta guerra.
A "primavera Árabe" mais não é do que uma tentativa de interferência na manutenção de todo o médio oriente a preços (da energia) da idade média. A guerra na Síria mais não é do que a tentativa de chamar o Irão não alinhado para a luta e de fazer um pipeline de Gás do Qatar para a Europa, enfraquecendo os Russos monopolistas nesse fornecimento.
Os comunismos, fascismos, "democracias" mais ou menos pujantes de 2 partidos facilmente controláveis ou fracas de múltiplos partidos todos eles baratíssimos de comprar, são tudo sistemas de manter ou aumentar o essencial: energia barata (o motor de toda a concorrência real) e mercados cativos.
Os blocos Chinês e Russo têm um atraso tremendo e não se podem dar ao luxo de marrar de frente. Já sabemos que os donos do mundo não hesitarão em lançar todas as guerras, regionais ou mundiais caso se sintam ameaçados.
As pequenas vitórias de uma opinião pública ainda desproporcionalmente influenciada pelos media do império, pouco significam. Se anteontem era preciso a ONU para invadir um país, ontem já se fabricavam provas para conseguir isso e hoje se já nem com "provas" fabricadas se consegue um mandato, avançam sozinhos na mesma.
Veremos como (ou se) tudo acaba mesmo. Mas perante a ainda tremenda desproporção de forças, em caso de conflito generalizado só aliados do mais forte se safam.
O avançar de sistemas repressivos, nos media, nas patentes, nas liberdades dos cidadãos, do controlo obsessivo, são tudo sinais de regimes acossados, desesperados por manter o que é deles. Talvez as forças comecem a não ser tão desproporcionais... e no fundo, salvo a parte bélica, qualquer bloco que tenha a sua própria energia garantida só tem que provocar o colapso do dólar como moeda de referência e tudo cai como um castelo de cartas.