23 agosto 2013

Cultura e liberdade no Berghof


Descobri Knut Hamsun por volta dos 15 anos na biblioteca do meu pai. Li-o com paixão - Pan, Pão e Amor, disponíveis na língua portuguesa - e mais tarde Filhos d(a) Época e Pelos Atalhos Fechados, diário literário que escreveu nos últimos dias de vida. Hamsun foi nobelizado em 1920, atingiu os píncaros da fama e a sua vasta obra, produzida ao longo de mais de seis décadas de incessante busca da simplicidade literária, foi considerada a mais importante expressão das letras escandinavas na passagem de Oitocentos para o século XX. A rusticidade, a desafectação, o verismo das personagens, as histórias pequenas de gente pequena, o amor pelo povo e pela cultura verdadeira - aquela não tocada pelo academismo - fizeram de Hamsun uma excepção na era do intelectualismo torturado.
Como tantos homens notáveis, Hamsun sonhou com uma nova ordem europeia, imaginando que a Europa das nações, fiel às suas fundações, seria a resposta às convulsões que haviam precipitado a Grande Guerra que atormentou, dividiu e ensanguentou o continente, e no desfecho da qual nasceu o comunismo e se inciou a imparável ascensão dos EUA. Anti-burguês por carácter, anti-capitalista por repulsa ao poder do dinheiro e ao predomínio do mercado sobre o espírito, declarava-se um inimigo da modernidade, do individualismo, da uniformidade imposta pela civilização da máquina, da cidade onde os homens trocavam a liberdade pela servidão do conforto. Quando a nova guerra se iniciou, acreditou que a vitória de Hitler - que considerava  profeta de uma nova religião - seria o início de uma revolução antropológica e do renascimento da Europa.
Pensou ingenuamente que o novo senhor da Europa concedesse à sua Noruega natal um lugar de destaque no concerto das nações. Depressa se apercebeu que a Europa de Hitler não seria a de Estados irmanados por um comum propósito de paz e cooperação, mas uma constelação de protectorados e Estados vassalos submetidos ao jugo, à exploração económica e à subalternidade. Usado como importante trunfo da propaganda alemã, Hamsun passou os anos da guerra debatendo-se com a sua consciência de patriota e monárquico numa Noruega ocupada e dirigida por um Comissário alemão. Em 1943, foi levado à presença de Hitler e foi, talvez, o único homem que intentou precipitar uma discussão franca com o ditador. A Hitler disse que as promessas alemãs escondiam uma mentira, que o povo norueguês era monárquico, queria o seu Rei e não um governador-geral, que a unidade da Europa imposta era um insulto à diversidade do continente. Hitler ficou possesso perante a frontalidade do ancião e como não sabia nem estava habituado a debater, levantou-se e deu por encerrado o encontro, dizendo que o "mandassem embora e nunca mais o trouxessem à sua vista".
Este episódio parece datado, mas não é. Não será que Hamsun, no seu tempo, teve a coragem de dizer ao chanceler alemão o que ninguém se atreveu até hoje dizer a Merkel? A liberdade das nações requer momentos de verdade, mas nos tempos que correm, tempo de silêncio, subserviência e matérias indiscutíveis, todos se calam.

4 comentários:

Luís Palma de Jesus disse...

Knut Hamsun: uma dica de leitura que seguirei em breve.

Combustões: estarei atento às suas dicas de leitura sobre a "análise da Geopolítica" produzida pelos principais ministérios dos negócios estrangeiros no pré 2ªGuerra: algo incoerente com o salto para o pós 45.

luís p de jesus

Manuel Pereira disse...

boa tarde

para quando um novo post sobre a tragédia síria ? é que cada dia que passa, mais convencimento existe na chamada "opinião pública ocidental" sobre a necessidade de uma intervenção armada para "ajudar" o povo sírio.

Manuel

Combustões disse...

Manuel Pereira
Julgo que há um problema com a Síria, sim, pois a intervenção externa já começou há mais de dois anos.

mujahedin مجاهدين disse...

Caro Miguel,

faz muito bem em trazer à memória Hamsun.

Não foi o único a acreditar em Hitler. Milhões de voluntários de toda a Europa o fizeram na frente Leste.

Quanto à sua hipótese de que a Europa hitleriana seria uma constelação de estados-vassalos e protectorados, é apenas isso: hipótese. E, como tal, carece de demonstração; aliás impossível, pois a situação em tempo de guerra é, naturalmente, excepcional, e não pode ser extrapolada para tempo de paz. Ainda assim, que eu saiba, Portugal e Espanha não foram protectorados nem vassalos de ninguém - até agora.

O que é certo, sabido, e patente, é que a Europa democrática foi nisso mesmo que se tornou. A comunista e não-comunista.

Quanto à suposta falta de hábito de Hitler em relação a debates, não é surpreendente.
Mas atente V. no exemplo de Léon Degrelle, líder do movimento Rexista - creio que se o não pode acusar de falta de patriotismo ou nacionalismo - voluntário nas Waffen SS, em que atingiu o posto de Tenente-Coronel, salvo o erro, e foi o único estrangeiro que alguma vez recebeu a máxima condecoração militar alemã.
Degrelle falava em francês a Hitler e não consta que se submetesse. A sua personalidade e os seus feitos corroboram-no.

V. sente a necessidade de resgatar a reputação do homem, pondo-o em colisão com o alemão odiado.
Não sei se o "louco" Hamsun concordaria que a sua reputação necessitasse resgate. Sobretudo hoje em dia.