13 agosto 2013

"25 Anos de Portugal Europeu"


A privação compele cada um a anelar o que não tem; quem fala de comida tem fome; quem de dinheiro fala é pobre de cabedais [ou pobre de espírito, como o são os plutocratas]; quem de religião só fala debate-se em escruciantes dores por ausência de fé; quem estremece de raiva contra o próximo tem-se em baixíssima conta, etc. Há cerca de 40 anos, começou-se a falar de Europa, como se Portugal não fosse geográfica, civilizacional e etnicamente parte do continente. O tema, não sendo novo entre as nossas elites - Garrett escreveu Portugal na Balança da Europa e a maldita Geração de 70 elevou a Europa a ficção dirigente, metástase tardia da Lenda Negra - foi coroado pelos plumitivos e demagogos nativos como a solução para todos os males de uma sociedade que, num ápice, se viu privada do grande oceano, do império ultramarino e de quase todas as certezas que nos animavam desde Quatrocentos.

A Fundação Francisco Manuel dos Santos, que tem desenvolvido interessante actividade ao longo dos últimos anos, constituindo-se em pólo de reflexão e agitadora de ideias, realiza no próximo mês de Setembro um ciclo de conferências subordinado ao tema "25 Anos de Portugal Europeu". Pensei que para tal se mobilizassem oradores heterodoxos, inconformistas e provocadores que permitissem oferecer perspectivas diferentes daquelas a que o ramerrão da langue de bois nos subjuga. Contudo, para minha decepção, para falar de um grande fiasco, lá estão os sempiternos causídicos da Europa que falhou, da Europa que não nos interessa, da Europa que nos avilta e reduz a extremo ocidente deprimido, incompreendido e submetido ao crivo dos preconceitos anti-meriodionais da Europa loura, protestante, capitalista. Lá estão Daniel Bessa, Villaverde Cabral, Elisa Ferreira, Pacheco Pereira, Teresa Patrício Gouveia e demais repetidores do já dito e redito. A excepção, como sempre, é António Barreto, um dissidente cheio de coragem - odiadíssimo pela fulanagem instalada - mas uma andorinha não faz a primavera.

Portugal sempre foi Europeu, esteja ou não na falhada União, submeta-se ou não ao novo sestércio do Império sem cabeça e sem gládio, vá ou não às penitências das novas Canossa de Estrasburgo, Bruxelas ou Berlim. À Europa demos o Mundo, ao Ocidente as cristandades do Brasil, das Ásias e da África, ao Lácio demos 200 milhões de falantes exóticos. Quando ouço um burguesinho falar dessa outra Europa do dinheiro, do "conforto" e dos "indicadores sociais", desligo. Essa Europa não me interessa para nada, essa Europa nunca nos deu nada senão desprezo, incompreensão, atitudes neo-coloniais, arrogância tribal desconhecedora da extensão do mundo. Essa Europa é, sem tirar, reduzir Portugal a um Cantão.

Sem comentários: