02 julho 2013

Rui Ramos, no Expresso. Quando aqui o disse, iam-me matando

Rui Ramos in O Expresso

"Os professores — de todos os níveis de ensino — foram em tempos uma elite. O sistema, ao expandir-se sem qualidade, reduziu-os a uma plebe indiferenciada e desprestigiada, formada por levas de diplomados sem outras saídas profissionais. Várias 'regalias', a começar pela garantia de emprego e de promoção automática, compensaram a perda de estatuto e de autoridade, até ao momento em que o desespero orçamental obrigou o sistema a voltar-se contra os seus próprios filhos. Nesse momento, a massa docente estava destinada a seguir um sindicalismo cujo objetivo é manter os professores como o clero de uma religião para a qual o dinheiro nunca pode faltar, mesmo quando não há.
A escola não foi sempre a via de acesso a todas as atividades, que dispuseram tradicionalmente dos seus próprios meios de seleção e de formação (como os aprendizados). Não determinava o futuro profissional de ninguém. Um liceal medíocre podia, revelando as devidas qualidades, tornar-se um grande médico. Hoje, não. Universidades, corporações e empresas limitam-se em geral, para efeitos de admissão, a fazer eco do aproveitamento escolar. Por isso, a 'nota' é hoje tudo para os estudantes. E é a pensar na 'nota' que esperam encontrar no exame "Felizmente há Luar" em vez de "Mensagem": é mais fácil.
Acabamos assim a chamar 'educativo' a um sistema que compreende uma massa de professores só interessados em garantir o emprego e uma massa de alunos só interessados em obter a 'nota'. Para compensar a natural tendência do sistema para o despesismo e a facilidade, confiou-se numa burocracia centralizada, com a missão de alcançar 'objetivos' da forma mais económica. Autonomia e responsabilidade são, por isso, tabu.
Nogueira e a austeridade merecem discussão, mas não passam de subprodutos do sistema, e é este que deveria ser debatido. Os professores precisam de voltar a ser 'nobilitados', o que requer seleção e hierarquização. Temos de aprender a valorizar a educação académica em si, e não simplesmente como uma espécie de lotaria de empregos. E finalmente, há que perder medo à autonomia das escolas, e acreditar que professores, encarregados de educação e alunos serão capazes de formar comunidades responsáveis".

Recapitulando:
Nobilitar a vocação
Restaurar a autoridade
Hierarquizar pelo mérito, pela inteligência e pelo esforço
Acabar com os Mários Nogueiras e quejanda ganga

4 comentários:

Zephyrus disse...

Antigamente um liceu medíocre poderia ser médico pois não havia o sistema de avaliação que há actualmente. Toda a gente sabe aqui no Porto que quem frequenta o colégio certo tem mais facilidade em conseguir 19 ou 20 de média interna ara ingressar em Medicina. Um desses colégios privados chega a colocar 100 alunos por ano em Medicina. Conseguem boas notas nos exames, em parte, porque frequentam n explicadores. Há quem gaste 1000 euros por mês em explicações. Nas escolas públicas, por sua vez, muitos professores usam a avaliação da «participação» para inflaccionar as notas do baldas e baixar as notas dos bons alunos. Em muitos liceus do Estado dificilmente um bom aluno conseguirá uma média superior a 18. Ora em certos colégios privados é comum haver alunos com médias de testes 16 que terminam o ano com 19 ou 20. Consta que nos tempos em que Marcelo Caetano governava o acesso ao Superior era feito apenas com exames de admissão: assim não havia margem para estes esquemas perversos.

Pedro Leite Ribeiro disse...

Pelo que se pode concluir que a doutrinação do camarada Vital Moreira vingou na opinião pública, mesmo que para isso, por ignorância ou deliberadamente, se recorra ao falseamento dos factos, à mentira (como essa da progressão automática, argumento gasto já ao tempo da Maria de Lurdes Rodrigues). Ainda, é típico de povo com atrasos de muitos e muitos anos o desprezo pelos que dedicam as suas vidas a ensinar e educar. Dos poucos que todos os dias investem no futuro de Portugal. Ou alguém acredita que esse assunto está na alçada dos políticos e dos empresários?

Agnelo Figueiredo disse...

Isto é absolutamente verdade.
É como levar um murro no estômago.
Digo eu que sou professor.

Bmonteiro disse...

Há...os Professores.
Que a minha primária numa aldeia do interior e o que se segui, me levou desde cedo a pensar:
Os Professores, aquele grupo profissional que devia ser o primeiro em estatuto social, o primeiro e mais considerado da sociedade.