28 julho 2013

Cá, temos os Bernardinos

Festa grande na capital da versão orwelliana da Anita. Aquilo tem uma certa grandeza, não se desiludam quantos gostam de brincar aos deuses. Se uma pitada de megalomania faz a diferença entre a vida das abelhas e os sonhos de eternidade, os regimes totalitários sem ocultações - porque também os há, só que não dão pelo nome [e estão tão perto] - perdem a medida e precipitam-se no exagero. A Coreia do Norte é a Meca dos comunistas que conseguiram parar o relógio da História, dos cronófobos que em casa, no recesso familiar, ainda param, de lenço em riste, para limpar o retrato de Estaline - o tal "aliado" dos Aliados que matou dez vezes mais que Hitler, mas teve direito a capa da Times com ditirambos ao "vencedor da tirania" - e guardam para si a memória das valas a perder de vista, de Cuba ao Vietname, à China e à Sibéria, onde duas ou três gerações de "parasitas sociais", "inimigos do povo", "senhores feudais" e monges alienados foram conduzidos por uma teoria genocida que não era erro, mas estava já toda nos escritos de Marx.
Os espartanos de Pyongyang têm a sua graça, coisa que os nossos Bernardinos e Rosas - coitados, transformados em caricaturas do parlamentarismo que desprezam - nunca tiveram. Aqui, cultivam os tiques micro-burgueses da "micro-empresa", dos "direitos adquiridos ", das "regalias inegociáveis", das férias pagas e do ano de catorze salários, das "horas extraordinárias" e da semana das 35 horas. Aquela mole que hoje percorreu a Praça da Revolução, na capital norte-coreana, terá comido um copo de leite e um biscoito, treinou à chuva e ao sol durante meses, não tem horário de trabalho, não tem na pele outra roupa que a farda que enverga, não sabe o que é um computador, um telemóvel, nunca saiu daquela Disneylândia e pensa viver no melhor dos mundos.
Talvez Bernardino e os micro-revolucionários de fatiota à Rua dos Fanqueiros tirassem vantagem em saber marchar, perna bem levantada, como o fazem os coreanos. Esses, ao menos, não têm esse adereço burguês e ocioso que ofende os bons revolucionários: a barriga.

1 comentário:

José Domingos disse...

Os comunas burgueses, cá do burgo,os tais dos direitos adquiridos e afins, são muito democratas, quando são eles a mandar.Estariam melhor na Coreia do Norte.
A esquerdalha, está convencida, que o muro de Berlim, caíu devido ao mau tempo.