06 julho 2013

Bonaportismo ou o princípio do bem-bom


O país conheceu dias de comoção. Um homem, só na sua convicção de ser herói e senhor dos destinos do regime - síntese de romantismo e maquiavelismo - jogou tudo, quase perdeu tudo (até o carisma, coisa que depois de perdida raramente se recupera) e, finalmente, apaziguado na sua húbris e descomedimento, regressou à pequena condição de homem. Terá dito aos seus áulicos que teve uma visão, que um "vento lhe passou pela cabeça", que o demónio o tentara. Portas - grande Portas - é, talvez, o que nos sobra dos arroubos sebásticos, da tentação de tudo jogar numa qualquer Alcácer Quibir, no prazer de se sentar à mesa do casino e ali trocar anos de trabalho pelas fichas, a roleta e os dados. O bonapartismo, que se julgava sepultado nesta terra de aflições pequenas, de medos insignificantes e passos cautelosos - a terra em que tudo decorre fintando o risco - recuperou sob a forma de bonaportismo. No fundo, como ficou demonstrado, Portas é o homem mais importante do regime, o líder que não tem assessores e companheiros, mas tão só súbditos, a mente que desfaz sem contemplações a mantilha do conforto em que todos se querem agasalhar. Quanta cãibra não terá provocado a segundos, terceiros e quartos, ignotos, caladinhos membros das bancadas parlamentares da maioria, quanta ânsia não terá contrariado aos centos de putativos ministros, secretários de Estado e directores gerais que nas casas das famílias PS não estariam já em frenesim de telefonemas lembrando a disponibilidade para assumir as altas responsabilidades que a república pede?
Tenho-me rido como um preto desta interminável parada de praguejadores, de oráculos, de moralistas e contabilistas de ábaco em riste fazendo contas à nossa vida. Portas não tem de se desculpar porque é Portas. As desculpas que fiquem para os outros. Estão a imaginar o governo sem Portas? Aqueles homens a brincar às coisas sérias num regime que é o mais insignificante de quantos têm desfilado ao longo de quase nove séculos neste canto escalvado da Europa? E como são "sérios", como acreditam piamente na importância daquilo que julgam fazer, em tudo quanto deles dizem. Portas é um me ne frego, entende a política como saudável diversão - deve gargalhar às lágrimas com os cataclismos que lhe atribuem - e da actividade a que se entregou parece só querer o bem-bom. Se amanhã for Waterloo ou Austerlitz, tanto faz.
No fundo, está a ensinar aos bisonhos dos portugueses que a vida é um jogo, que tudo é risco, que não há amanhã assegurado.


3 comentários:

Conservador disse...

DEMISSÃO DE PORTAS em CONGRESSO por acção de centenas de militantes que não pertencem ao espectáculo, ou do ram ram politiqueiro.
ELEIçÔES: a ganga não sabe governar, nunca soube fazer porque nunca soube pensar.
SOCIEDADE CIVIL terá a opção, o risco e a responsabilidade em diante, sancionando condutas como estas.

Duarte Meira disse...


"Portas, o Grande", pouco conhecido por cá como o "homem mais importante do regime", está bom para voltar para os States a ser medalhado segunda vez por Rumsfeld.

Infelizmente para nós, o "grande homem" vai continuando por cá e, na próxima semana, lá vai continuar a fazer em audição parlamentar o que mais bem sabe: posar e mentir. Que não senhor, que o "Estado português", no caso Morales, não se dobrou mais uma vez, repugnantemente, às ordens da CIA.

Bonaparte disse...

Tal como tinha previsto há um ano.
Não sei é se este é o I se o II Bonaparte. Penso que deve ser o II.