20 junho 2013

Fascismo e socialismo: umas migalhas de esclarecimento para um sindicalista da CGTP


Na tv, um sindicalista da CGTP fazia há pouco uma violenta catilinária contra o governo, acusando o executivo de estar a recuperar o velho ódio fascista contra o ideal de uma "democracia avançada". Isto é recorrente. O sindicalista em questão, analfabeto como a maioria dos jornalistas que o entrevistam, parece esquecer que o ataque ao liberalismo o aproxima do fascismo que foi, aliás, durante muitos anos, o mais sólido interlocutor do comunismo.

A publicação de Compagno duce: fatti, personaggi, idee e contraddizioni del fascismo di sinistra, de Ivan Buttingnon, despertou uma vez mais o debate sobre a origem e permanência do socialismo enquanto trave-mestra do movimento fascista e do regime que governou a Itália durante o vinténio.
No início da sua carreira como agitador de ideias, raros eram os camaradas do futuro Duce que não se referiam ao fogoso jornalista e orador por Mus-Len (Mussolini-Lenine). Mussolini era, então, um socialista radical, grande admirador do exilado líder bolchevique, tinha por amigos Nicola Bombacci, futuro fundador do Partido Comunista, mas também Leandro Arpinati, sindicalista e militante socialista, assim como Pietro Nenni, fundador do Partido Socialista Italiano. Bombacci aderiria ao fascismo, bem como Arpinati, enquanto Nenni - que compartilhou a cela com Mussolini em 1911, por ambos se oporem à guerra de agressão contra a Líbia - se manteve opositor do regime fascista, mas sempre, a instâncias do seu velho amigo, benevolamente tratado pelo aparelho repressivo do regime.

Convém lembrar que a Itália de Mussolini foi o primeiro país europeu a reconhecer diplomaticamente a URSS (1924), que ao longo da década de 1930 as relações comerciais e de cooperação científica e tecnológica entre a Itália e a URSS foram relevantes, que os estaleiros italianos - então reputados fabricantes de submarinos - forneceram aos soviéticos todo o apoio na construção da sua frota submarina,  que a URSS foi o único país com assento na SDN a apoiar a invasão italiana da Etiópia (1935-36). A lista alongar-se-ia, mas permaneceria como mero reflexo do normal exercício de Real Politik se não fossem relevantes as marcas desta simpatia recíproca no domínio ideológico. A Carta Italiana do Trabalho, documento que regeu as relações laborais e o estatuto do trabalho, era por muitos considerado um texto marcadamente socialista, o "corporativismo avançado" de Bottai era inspirado por legislação soviética, como de marca soviética foram os planos quinquenais lançados pelo regime. O fascínio exercido pela URSS enquanto "sociedade sistémica" era alimentada pela crença que fascismo e comunismo constituíam a superação da velha sociedade liberal e ambos, não obstante se digladiarem e ofenderem por palavras, partilhavam a mesma crença da necessidade de uma sociedade nova, de um Homem Novo e de uma nova forma de religião política, alimento do Estado totalitário. Mussolini, entrevistado por Emil Ludwig, afirmava que as semelhanças entre fascismo e comunismo eram notórias, que os adversários do comunismo e do fascismo eram os mesmos (a democracia, o capitalismo e o individualismo). Bottai, ministro das Corporações e intelectual do regime, corrigia Mussolini nas páginas da sua revista Critica Fascista, preferindo à questão Roma ou Moscovo? o do entendimento Roma e Moscovo.

No que respeita à vida política italiana sob o fascismo, os comunistas - muito poucos e quase todos integrados nas organizações do regime fascista - faziam parte daquele jus murmurando (coisa murmurante) tolerada pelo regime. Os grandes intelectuais e criativos do pós-fascismo, sobretudo os escritores e cineastas que fariam do neo-realismo o manifesto de aspiração a uma nova Itália, foram todos, sem excepção, empregados do regime mussoliniano. Infelizmente, em Portugal, país absolutamente ausente da intensa investigação académica que vai tratando de estudar o século XX à luz de preocupações científicas, esta e outras matérias são ainda desconhecidas. Aqui fica, pois, para que deixemos de ser a Suazilândia académica da Europa, o conselho e sugestão a tantos centos de futuros mestres e doutores.

7 comentários:

João José Horta Nobre disse...

Excelente!

Publiquei:

http://historiamaximus.blogspot.pt/2013/06/fascismo-e-socialismo-umas-migalhas-de.html

Flávio Gonçalves disse...

Para a semana terei uma tiragem muito limitada da obra "Fascismo Revolucionário" do hispano-sueco Erik Norling dedicado a este tema.

José Domingos disse...

Se me permitem, quero felicitar flávio Gonçalves, acerca do seu artigo, no jornal "O Diabo", sobre a ilegalização dos partidos de direita. Históricamente, a esquerda, só consegue suportar alguma democracia, se forem eles a mandar, acompanhados, do dinheiro dos outros.
Os comissários politicos, encarregam-se de não permitir mais nada. A imprensa analfabeta, cá do burgo, ajuda, quero dizer, fazem o que lhe mandam.
Cumprimentos

Pedro Leite Ribeiro disse...

Creio que a principal diferença entre os dois regimes reside na questão da propriedade. Há também diferenças no que toca à religião.

Pedro Leite Ribeiro disse...

De repente, lembrei-me que Portugal e URSS mantinham relações económicas ligadas a negócios nos estaleiros navais de Viana do Castelo, cidade onde residiam, legalmente, engenheiros e técnicos soviéticos. Salazar, no entanto, talvez pela sua formação muito católica, não disfarçava o seu horror ao comunismo.

Edmundo Tavares disse...

Acrescentaria dois dados e uma pequena correção. Em "Breve Historia de Italia", de Harry Hearder, salienta-se a determinado passo que uma das últimas declarações políticas de Lenine foi de apreço pelo fascismo e Mussolini. Ainda mais um acrescento. Na sequência, refere-se que uma das primeiras tomadas de posição de URSS como estado membro da Sociedade das Nações (admissão tardia, em 1934) foi ter votado contra a condenação da Itália fascista pela invasão da Etiópia. Umas linhas adiante relata-se a irritação de Mussolini pelo facto da Grã-Bretanha se ter antecipado no reconhecimento da URSS, assim arrebatando-lhe a primazia em tal decisão. Enfim, são mais abundantes do que se possa pensar os factos ilustrativos de ambiguidade nas relações entre os extremismos de esquerda e de direita.

Pedro Leite Ribeiro disse...

Correcção ao comentário de 22 de Junho: Os trabalhos nos ENVC para a URSS só começaram a partir de 75 pelo que a primeira parte desse comentário não faz sentido.