07 junho 2013

Bilderberg


Confesso que me incomoda o simples facto de uns senhores se reunirem em discreta tertúlia para discutir questões magnas relacionadas com matérias de política internacional, dado existirem organizações mundiais, internacionais e regionais de carácter vário - político, financeiro, científico, cultural e humanitário - com suficiente aptidão e mandato para o realizar. Nas décadas de 70 e 80, as lideranças políticas nativas não deixavam, consoante a sua cor política, de ir em romagem às respectivas Romas e Mecas para ali receberem a confirmação das internacionais que as amparavam: Cunhal não comia um brioche sem auscultar as pitonisas do Kremlin, Lucas Pires e Amaral iam ao confessionário de Bona, Soares comungava na CIA e até Carneiro (desamparado) batia sem cessar à porta de um dos clubes, implorando que o deixassem pisar as alcatifas.
Custa-me - lamento, deploro, entristece-me - o facto do líder do PP, partido em que habitualmente voto, se deixar arrastar para o encontro dos bilderberg. Mais, se não fosse Portas aquele partido não existia, pelo que é dupla a responsabilidade por qualquer dos seus actos. Sei que Portas, ainda guardando umas migalhas daquela insaciável curiosidade de jornalista que foi, lá terá ido para saber como é aquilo por dentro; do que falam, o que engendram, como discutem. Contudo, não me parece que uma ida ao Clube lhe enriqueça o currículo, o favoreça aos olhos dos portugueses, o prestigie nas passerelles. Portas é inteligente, culto e arguto. Para mais, é o ministro dos negócios externos, líder de um partido da coligação governamental. Ali vai, pois, não como indivíduo singular, mas como ministro de Portugal, líder de um partido que se reclama dos valores do patriotismo e, porque não, como putativo futuro primeiro-ministro, pois cada vez me convenço - a acareação é estrondosa - que Portas parece um gigante quando comparado com as miudezas da vida política nativa. Portas sabe que aquilo não é uma ideocracia, uma qualquer Abadia de Thelema, um clube de diletantes. Não vai para discutir estética literária, história e arte. Aquilo é uma gente prática que vive do poder a uma escala que Portas nem imaginará. Ali se consagram e discutem lideranças políticas nacionais e internacionais, ali se decidem golpes de Estado, campanhas de difamação e santificação, ali se fabricam nobéis da paz, congeminam golpes financeiros, se decidem guerras civis, invasões, a vida ou a morte de milhões. Portas não precisa daquilo e daquela gente para nada. O seu trabalho é aqui, a sua obediência é Portugal e a sua consciência só deve responder pelo interesse nacional. 

4 comentários:

Maria disse...

O Portas é um oportunista-situacionista, no qual aliás acreditei durante anos, mas deixei de o fazer há algum tempo e ainda menos agora que se juntou ao mundialismo. Ambicioso ao máximo, o que ele sempre quis foi ascender ao topo do poder em Portugal (e ainda lhe falta atingir o seguinte e último degrau e foi nessa espectativa/promessa(?) que aceitou àvidamente o convite do clube negro), como de resto o almejam quase todos os políticos e só o atingindo os bafejados pela sorte - e nunca sem o consentimento do poder mundial, afinal aquele que efectivamente governa as 'democracias' e escolhe os seus dirigentes - mas ùnicamente dentre os que fazem parte do sistema. O resto é folclore para entreter as massas.

João Alves disse...

De facto é uma vergonha aceitar-se tais convites.
http://cartasdascaldas.blogspot.pt/2013/06/clube-com-nome-de-cerveja.html

Combustões disse...

Tenho o máximo respeito por Portas e ainda penso que lá terá ido para "espreitar". Contudo, ir lá uma vez e estar com aquela gentalha é perigoso e muito problemático, pois ali só se vai para lidar com matérias que são, no mínimo, dúbias.

José Domingos disse...

Não acredito em Paulo Portas, é demasiado ambicioso, para ver o que se passa ao seu lado. É capaz de fazer coligações com o be, se isso lhe der protagonismo, não faz a minima ideia que é ser de direita, ele não é, de certeza. Vagueia ao sabor do vento, afasta, quem lhe poder fazer sombra.
Assim a verdadeira direita em Portugal, não chega a lado nenhum.
Faz parte do sistema.