14 junho 2013

Um aluno por professor?


Debate rijo no Jornal das 9 da SIC entre António Filipe e José Eduardo Martins, sem dúvida uma das melhores cabeças ainda operacionais na triste vida política autóctone. O desassombro de Martins contrastando com o cinismo de Filipe, trincheira de todas as manhas e falácias que privilegiados de castas várias foram construindo ao longo de décadas. Dos militares aos juízes, dos médicos aos professores, transformaram lentamente o Estado em agente e protector de desigualdade. Quando sobreveio a crise, não esboçaram o menor gesto de interesse pela sorte do país, antes emparedaram-se na defesa dos respectivos interesses corporativos. Blindados na intocabilidade de legislação protecionista, acolitados no sindicalismo ou em leis orgânicas que servem interesses de grupo e não o Estado e suas funções, à força de tanto repetirem ladainhas aparentemente benfazejas, julgam que a razão e a verdade lhes assistem.

José Eduardo Martins não teme esses bezerros de ouro de beatífico incensamento das "nobres banalidades". Ataca-os por desconstrução, encontra-lhes a inteligência escondida por detrás dos mantras. Filipe não podia nem tinha capacidade para se lhe opor, pelo que - tipicamente comunista - quis empurrar o debate para um choque de emoções, pedindo ao seu adversário que "elevasse o tom". É assim. Em Portugal, quando alguém se atreve pensar um problema a partir de um racional que fuja ao cânone da verdade oficial, há sempre um procurador dos interesses acomodados tentando calar a voz iconoclasta. 

O nó do debate era, como não podia deixar de ser, o entendimento daquilo que é o Estado. Para Filipe, o Estado serve para dar emprego a centos de milhares. Para Martins, o Estado tem por função assegurar serviços considerados necessários aos interesses superiores da comunidade. Em 1973, Portugal tinha 150.000 funcionários públicos. Então, de Valença do Minho a Dilí, essa centena e meia de milhar cobria necessidades de 25 milhões de portugueses espalhados por 2 milhões de km2. Veio a revolução e importava inchar o Estado com toda a casta de clientelas, filiados, familiares, comanditas. Em vinte anos, o funcionalismo do Estado quintuplicou. Havia - e ainda continua a haver - gente que pensava ser absolutamente normal que metade da população de dezenas de concelhos se tornasse funcionária do Estado. 

Há, no caso vertente dos professores, quem julgue normal que 10.000 professores do secundário continuem a vencer com horário zero, ou seja, sem darem aulas. Para proteger o indefensável, o pieguismo, variante manhosa de estupidez, quer convencer os portugueses da justeza das reivindicações de quem não tem funções, mas quer continuar sentado à mesa do orçamento. A questão dos professores é muito simples. Em 1974, a taxa de natalidade em Portugal era de 3,01, em 1980 de 2,19, em 1990 de 1,43 e em 2010 de 1,35. O boom do ensino universitário escondia, afinal, a lenta inversão da pirâmide, o envelhecimento da população, o fim anunciado da população escolar do básico e secundário. Em 2010 nasceram 94 mil crianças, o que quer dizer que em 2021 só haverá 94 mil alunos a entrar no no ensino secundário. Com os duzentos mil que lá estarão, a população do primário e secundário nunca chegará aos 300 mil.
Cegos, indiferentes à catástrofe que se aproximava, governos sucessivos continuaram a contratar dezenas de milhares de novos docentes. Actualmente, entre os 100 mil docentes, há 35 mil professores considerados a mais no ensino. Em 2021, persistindo na defesa desses postos de vencimento, haverá três alunos por professor. Aqui está, sem florentinismos, a verdade a que os defensores do indefensável continuam agarrados.

10 comentários:

Jim Pereira disse...

Caraca! Muito bom!

José Lima disse...

Se José Eduardo Martins, na intervenção que o Miguel refere e que eu não vi, criticou também o saque que os interesses privados têm feito da coisa pública em proveito próprio pessoal com a conivência dos seus homens de mão nos aparelhos político -partidários (PPP’s, interesses rentistas, apoios aos usuários institucionalizados comummente conhecidos por banqueiros, etc., etc.), e as prebendas abusivamente gozadas pela “nomenklatura” partidocrática da qual ele mesmo faz parte, acompanho, ainda que com reserva, o Miguel no juízo que aqui e agora fez; caso contrário, não me resta outra alternativa que não seja a de considerar José Eduardo Martins um hipócrita que se olvida da mais chocante de todas as desigualdades criadas em Portugal no pós-25 de Abril - a da classe política face à de todos os restantes cidadãos.

De resto, terá este autêntico “apparatchik” (http://www.parlamento.pt/DeputadoGP/Paginas/Biografia.aspx?BID=1639) noção do que é efectivamente trabalhar na coisa pública? Que um funcionário público é algo bem diferente e distinto do funcionário de balcão que ele preconceituosamente imagina? De que são as pessoas que ele, pelos vistos, vilmente ataca - militares, juízes, diplomatas, médicos, professores, membros das forças de segurança e técnicos superiores do Estado - que continuam, muitas vezes em situações dificílimas e com recurso a muito trabalho extraordinário não remunerado, a fazer de Portugal um lugar com uma aparência minimamente civilizada? Parece-me que não… E, sublinhe-se bem, não foram os funcionários públicos que criaram a presente crise; esta foi originada pelos interesses que referi no parágrafo anterior. E se não foram, por que razão terão agora aqueles de pagar com língua de palmo por esta?...

Combustões disse...

Caro José Lima
Assino por baixo tudo o que diz a respeito da responsabilidade da classe política no descaminho que isto tomou. Sei, como muito bem diz, que os bons servidores do Estado lutam por mínimos de dignidade num mundo que se desmorona.

José Lima disse...

Eu sei que o Miguel sabe. Obrigado.

scheeko™ disse...

Convém dizer que nos anos 70 do século XX a quantidade de pessoas que andavam na escola em nada se compara com os níveis dos anos 90, 2000. E só isso teria impacto nos tais 150.000 funcionários públicos.

Em paralelo ao decréscimo da natalidade, houve o aumento da frequência escolar, bem como progressão nas carreiras académicas, com mais pessoas a irem para o Ensino Superior. Portanto não podemos usar só uma variável.

No entanto, isto não é desculpa. Assim como a natalidade é previsível, também os níveis de frequência escolar são minimamente computáveis, pelo que é certo e sabido que há professores a mais, vai continuar a haver no futuro imediato (ainda mais tendo em conta as tendências migratórias) e que isso é fruto da falta de preparação dos gestores públicos e governantes.

Por fim, resta dizer que também o sector privado (sociedade cívil?) não se portou melhor, nomeadamente no Ensino Superior. Face ao fluxo crescente de alunos nos anos 90/2000, para os quais o Ensino Superior Público não dava vazão, salvo raras excepções, a grande maioria das iniciativas privadas limitou-se a parasitar esse excedente, contribuindo pouco para a sociedade.

Pedro Leite Ribeiro disse...

Não assisti a esse programa nem conheço essas pessoas, o Filipe e o Eduardo. Aliás, cada vez conheço menos políticos. Há muito (desde o governo Sócrates) que mudo de canal logo que eles aparecem. Acho estranho porem um comunista a "defender" os professores. Já agora, porque não um ayatollah?
De qualquer forma, o importante é manter a lucidez e não nos afastarmos do essencial mesmo que isso choque com algumas convicções.
Quando lemos este artigo de Paulo Morais em http://www.jornaldenegocios.pt/economia/detalhe/paulo_morais_crise_foi_provocada_pela_corrupcao_nao_pelos_excessos_dos_portugueses.html, dificilmente não somos levados a nos questionarmos.

Pedro Leite Ribeiro disse...

O texto de Paulo Morais que referi anteriormente vem de encontro ao comentário de José Lima com o qual o Miguel parece concordar. Ao comentário de scheeko acrescentaria que nesta terceira república se assistiu a uma massificação do ensino que envolveu uma luta tenaz contra o abandono escolar e o alargamento da escolaridade obrigatória faseadamente. Primeiro ao 2.º ciclo, depois ao 3.º (9.º ano) e, recentemente, ao 12.º ano. No ano passado, justificadamente ou não, não é isso que questiono, assistimos à extinção de disciplinas e da co-docência. Os horários enviados pelas escolas ao ministério, eram exclusivamente constituídos por tempos lectivos, isto é, não contavam com os cargos que os professores têm que desempenhar (direcções de turma, coordenações várias e outros). Assim, do dia para a noite, surgiram os horários zero . Não faço ideia do que disse esse comunista do programa da televisão que o Miguel refere mas imagino-o a repetir os velhos e gastos chavões em torno do Estado Social. Já ninguém os ouve...
Um abraço!

munda disse...

“não bate a bota com a perdigota”
Vim dar a este «sitio» por mero acaso e por interposta pessoa. Não pretendo voltar! Não é meu hábito percorrer estes espaços!!
E porque comento?
1 - Fiquei um pouco perplexo pelo tom, logo inicial, dos considerandos do autor:
«O desassombro de Martins contrastando com o cinismo de Filipe, trincheira de todas as manhas e falácias que privilegiados de castas várias foram construindo ao longo de décadas. Dos militares aos juízes, dos médicos aos professores, transformaram lentamente o Estado em agente e protector de desigualdade…..», que derrota a perseguida neutralidade, imparcialidade e abertura de espírito, que se depreende do perfil: «Livre, sem lóbi, seita, loja, templo e partido, absolutamente indisponível para entrar em camarilhas, carregar malas e fazer de mainato.»
2- Fico um pouco baralhado com argumentações sobre a desfaçatez e sobranceria dos professores que se julgam uma casta (!) à parte dos outros funcionários públicos, no que à mobilidade especial e ao alargamento do horário de trabalho diz respeito, no entanto já são uma casta (!) à parte no que à luta pelos seus direitos concerne (estanha clarividência!?)!
Utilizem a nomenclatura que quiseram: castas, corporações, manhosos, intocáveis, mas, digam-me, em qualquer nível das interação social acham estranho que os atores sociais ligados por laços socioprofissionais, lutem por aquilo que crêem, justamente, lhe ser devido? Não seria, o contrário, isso sim , estranho?
Nunca ouviram dizer que as relações sociais são relações de interesse?
3 – Claro que sou professor!
Conheço professores que há longos anos entregam, na última aula do ano letivo, um teste de medida de atitudes e opiniões aos seus alunos para que expressem, anonimamente, o seu pensar sobre o desempenho cientifico, pedagógico, ético, etc, docente.
Conheço professores que pedem na secretaria para marcarem falta, em dia de greve, leccionando as aulas e não as sumariando.
Conheço professores que recebem, aos sábados e domingos, pelas 23h ou 23h30, emails dos coordenadores de departamento, com atas e/ou informações de reuniões realizadas na sexta feira anterior, quando não, com marcação de reuniões a realizar no inicio da semana seguinte.
Conheço professores que a qualquer hora da noite, estando nas variadas «redes sociais», esclarecem dúvidas solicitadas pelos alunos.
Posto isto, diga-me, não está enganado no alvo?
Não está atento aos gastos em farelos e descura o desperdício na farinha?
Não terão o requinte daqueles que surgem no seu perfil, mas aconselho-o a ver, brevemente, os filmes: Brazil e V for Vendetta!
A raiva que se lê no seu texto não terá explicação psiquiátrica?

PS Acredito que muitos destes professores abrirão, com o todo o prazer, as suas aulas (que desde o ano passado são compostas por vinte e sete alunos – mais alunos por turma menos professores, percebem?), à visita de quem o achar por bem!
…..

sitiodaanamiroma disse...

Muito mau.... se há quem tenha tempo para atirar pedras a tudo o que mexe....
contas bem feitas... o que me deixou a pensar como estou a ser enganada. bem me vão avisando que quando chegar o meu dia não vai haver reformas. Agora vejo que é verdade.... pelas suas contas em 2021 há metade dos alunos no secundário mas o número de professores mantém-se.... ninguém se reforma, ninguém morre, ninguém imigra.... a isto chamo opinião manipuladora e tendenciosa para enganar quem não está no meio. Também acredito que dos 100.000 professores 30.0000 andam por lá sem fazer nada. os outros 70.0000 são uns parvos. turmas com 30 alunos, reuniões, avaliações, exames e permitem que os tais andem por lá sem fazer nada.... e ainda lhes perguntam se querem um cafezinho.... por amor de deus.... tenham vergonha. Ainda alguém vai nesta conversa? As crianças e jovens contam o que se passa nas escolas.... as famílias estão informadas....

Pedro disse...

A conta é muito fácil de se fazer.
Os mais recentes dados da OCDE (Education at a Glance - disponível na internet) indicam que o rácio professores/alunos na OCDE é de 75 professores/1000 alunos.
Em Portugal há 100 mil professores do quadro para milhão e meio de alunos, o que dá um rácio de 67 professores/1000 alunos.
Portanto, se já estamos abaixo da média dos países da OCDE, porque é que há gente que continua a insistir na ideia de que há professores do quadro a mais e que a mobilidade especial é necessária?