30 junho 2013

A geração brutalizada


Sou do tempo em que todo o ensino servia escancaradamente para servir o pc. Da "poesia" de Amílcar Cabral e Agostinho Neto, as banalidades de António Aleixo e do gritante Ary, os discursos de Samora, o neo-realejo dos operários de peito em forma quilha minados pela tísica, mais a interpretação "anti-clerical" das peças de Gil Vicente e a "crítica anti-imperialista" da épica comoniana, os jovens que frequentaram o secundário na segunda metade da década de 70 e, depois, transitaram para a universidade, ficaram para todo o sempre marcados pela violência brutalizadora de uma visão infantil, maniqueísta, redutora da cultura, da história e da vida social. A geração que hoje conta entre quarenta e cinquenta anos de idade terá sido, talvez, a mais maltratada, abusada e condicionada do longo século XX português. Persiste nesta gente um quase medo reverencial pelos lugares-comuns da cartilha marxista. Por vezes, falando com indivíduos que se consideram abertos ao mundo, esbarro com esse enquistamento, essa alimentação à força, esse abuso de confiança que tratou de os impedir da saudável procura da liberdade, apanágio dos jovens. Gente do PS, do PSD e até do CDS não consegue montar o discurso, estabelecer um racional, encadear argumentos sem que assomem ressonâncias dessas longas sessões de doutrinação - que duravam um ano lectivo -  e que os forçavam a pensar ao serviço de um partido político, de uma ideologia arcaica, simplificadora e totalitária. Muito daquilo que continuamos a ouvir nas longas como inúteis explicações para a crise presente - um concatenar de banalidades santificadas pelos queixumes do "social" - carrega o fantasma dessa "visão do mundo" (pelintra, odiosa, invejosa) que os comunistas e seus companheiros de viagem semearam sem oposição ao longo daquela terrível década em que a escola foi, para eles, o agente de destruição da liberdade.

5 comentários:

João José Horta Nobre disse...

A ditadura marxista nas escolas e universidades ainda não acabou, antes fosse assim...

Publiquei:

http://historiamaximus.blogspot.pt/2013/06/a-geracao-brutalizada.html


Luís Lavoura disse...

Eu fui educado nessa época e não me considero nada condicionado por tal cartilha. À qual, aliás, só muito escassamente fui sujeito.

João José Horta Nobre disse...

Caro Luís Lavoura,

O condicionamento marxista em muitos casos é feito de forma insidiosa e subjectiva. Especialmente após a queda da União Soviética foi assim que passou a ser feito.

Daí que muitas pessoas não se apercebam das lavagens cerebrais às quais são regularmente sujeitas.

Este artigo do "Gates of Vienna" demonstra bem o problema:

http://historiamaximus.blogspot.pt/2013/06/politicamente-correcto-vinganca-do.html

Isabel Metello disse...

Pois, para além de outras :) (a) enfrentei uma no 2º 12º ano que fiz em áreas distintas numa aula colectiva de histórias da carochinha sobre as colónias e a criatura tão abrilista e democrática queria que eu fosse suspensa, só porque eu me levantei, educadamente (ultimamente, confesso que a tampa já me saltou, mas por outros motivos, que não deixam de ser os mesmos!!!:), e lhes disse que o que acabara de ser dito sobre escravizarmos as populações nativas era falso!; (b) outra, quando já estava a fazer o estágio profissionalizante e queria que a je, em vez de acabar de leccionar Os Lusíadas a uma turma de analfabetos funcionais, perdesse uma aula a passar o vídeo da Maria de Medeiros sobre o 25 de Abril- recusei, frontalmente, dizendo-lhe que: (i) pela minha gravidez de risco, tinha faltado uma semana e que tinha era de cumprir o programa; (ii) nunca passaria aquele vídeo que considerava e considero deter uma visão parcial sobre os acontecimentos e não estava ali para politizar alguém!; (c) outra, por razões humanistas, ônticas e anímicas, criatura institucionalizada e burocratizada até ao tutano, que até dá vontade de ingerir um Guronsan logo ali, que é muito marxista e defensora dos Direitos Humanos no palco das mundanidades e vaidades, mas adora o vil metal e é tão vil quanto ardilosa!; (d) outra que, pela mera circunstância de eu comparar numa aula dada na Fac a imagem de marca do Che Guevara ao Galo de Barcelos, deixou, num ápice, o tom maternal de protecção, transitando, noutro, para o de uma raiva incontida! Enfim, décadas de modelação subliminar, implícita e explícita, mas também já conheci Pessoas Autênticas que praticam o Que Defendem, mas na maioria, confesso, só perscrutei um egoísmo social, uma ausência de sentido democrático e uma incongruência nos bastidores de "bradar aos Céus", o que, para mim, só demonstra ausência de Carácter! E quero esclarecer que não sou nem de direita nem de esquerda, mas tão só do Altíssimo- não sou de lateralidades e muito menos de planos mais rasteiros, enquadro-me na Verticalidade e dela não saio nem que lancem uma bomba vulcânica de Lanzarote, aquela ilha que alguém queria que fosse só um feudo intelectual!

Carlos II disse...

Excelente texto e análise correcta. É habitual eu dizer para os meus amigos e próximos familiares que, tivemos a partir do 25 de Abril um regime de esquerda. Eles não compreendem.
Abraço