31 maio 2013

O Rei que foi atraiçoado por Churchill


No passado domingo, em cerimónia carregada de patriotismo, foi a enterrar em solo sérvio o Rei Pedro II da Jugoslávia, monarca que passou a vida em penoso e distante exílio nos Estados Unidos, onde faleceu em 1970, vítima de prolongada doença. O jovem Pedro II fora forçado a abandonar Belgrado em Março de 1941, por ocasião da invasão das forças germano-italianas, estabelecendo-se em Londres e dali lançando pela rádio um apelo à resistência contra os invasores. A proclamação foi de imediato cumprida pelo general Draza Mihailovic, homem de grande carisma e reconhecida competência que à data da invasão ocupava funções de comando no Estado-Maior Geral. O general pôs em marcha um temível movimento de resistência nacionalista, pelo que em Janeiro de 1942 foi nomeado pelo governo no exílio Comandante-em-Chefe das Forças Armadas no interior.

Ao longo de 1942, Mihailovic contou com o apoio incondicional dos aliados ocidentais, sendo festejado pela imprensa aliada como o maior líder da resistência na Europa ocupada. Porém, inexplicavelmente, em inícios de 1943, Londres resolveu retirar-lhe confiança e apoiar a guerrilha vermelha de Tito, chefe de um insignificante movimento comunista. Londres e Washington deixaram de fornecer armas à guerrilha monárquica, acusando Mihailovic de duplicidade e colaboração com os alemães. Mesmo despojado de apoio, Mihailovic manteve implacável luta contra o ocupante, não deixando sempre de protestar lealdade à Coroa. Ao finalizar a guerra, foi acusado de traição por Tito e fuzilado após um simulacro de julgamento. Ao longo de décadas, sobre o seu nome foi lançada a damnatio memoriae, mantendo-se a lenda do seu colaboracionismo com os nazis. Graças a teimosa persistência de David Martin, especialista em história jugoslava que ao longo de anos estudou as fontes documentais disponíveis nos EUA, na Grã-Bretanha, Rússia e Sérvia, sabe-se hoje que Mihailovic foi, tal como Sikorski - comandante do Exército Polaco - abandonado e trespassado a Estaline por Churchill. 

Desta infame barganha resultaram centenas de milhares de mortos, a entrega do país a Tito, a deposição de Pedro II e a longa ditadura comunista que levaria à guerra civil e dissolução da Jugoslávia. Pedro II perdeu o trono e os povos que, juntos, faziam da Jugoslávia uma entidade estabilizadora do velho e inextinguíveil cadinho de ódios balcânicos, traídos pelos arranjos da real politik. Não se duvide por um minuto da absoluta ausência de escrúpulos de Churchill em matéria de política externa -também inculpado da morte de Mussolini, com quem mantivera durante anos trato quase amigável - pelo que se enganam clamorosamente quantos persistem em ver no truculento Lord um dos símbolos maiores da ética democrática. Churchill terá sido, talvez, um dos homens mais violentos do século XX. Não sendo ditador, foi belicista, racista entusiasta, moveu e acicatou ao longo da sua carreira inúmeras guerras de agressão e a ele se devem grandes culpas na dissolução do Império Otomano e no nascimento desse aborto geopolítico que é o Médio Oriente contemporâneo. 

3 comentários:

Maria disse...

Subscrevo tudo quanto escreveu. Durante décadas Churchil foi reverenciado por milhões, tanto no seu país como no resto do mundo. Porém desde há algum tempo, com o deslindar de documentação preciosa revelando as suas manobras pouco patriotas (para dizer o mínimo) como estratega de dupla face durante a 2.ª Guerra M., cozinhadas primeiro com os supostamente aliados, logo depois e apunhalando estes pelas costas, aliando-se com a maior das descontracções ao inimigo da véspera,
Muito se irá descobrindo com o passar dos tempos sobre as manobras indignas travadas por este senhor e a traição cometida para com o seu Rei (foi-o por pouco tempo, é certo, mas aqui mais uma razão acrescida) a quem devia fidelidade absoluta, para com o seu próprio país e finalmente para com a Europa. Também a ele (e, porventura, principalmente) se ficou a dever a morte de milhões de inocentes, muitos destes seus leais compatriotas.

Passarão muitas décadas até que a verdade dos factos seja reposta sobre o verdadeiro papel desempenhado por este "grande herói" da 2.ª G.M. Sem contar com a muita que já é do conhecimento público.

Luís Lavoura disse...

inexplicavelmente, em inícios de 1943, Londres resolveu retirar-lhe confiança e apoiar a guerrilha vermelha de Tito, chefe de um insignificante movimento comunista. Londres e Washington deixaram de fornecer armas à guerrilha monárquica, acusando Mihailovic de duplicidade e colaboração com os alemães

Li o artigo sobre Pedro II na wikipedia lincado neste post.

Não vejo nada de "inexplcável". O grande exército que lutava contra Hitler era o Vermelho. Churchill sozinho não tinha hipóteses de vencer em tempo útil. Como tal, Churchill apostou numa aliança com Estaline e, nesse sentido, sacrificou o apoio aos monárquicos sérvios. Do ponto de vista da Grã-Bretanha, que era o que interessava a Churchill, fez todo o sentido.

Ademais, segundo concluo do artigo na wikipedia, a guerrilha monárquica na Sérvia gastou efetivamente mais energias a combater os partisans de Tito do que propriamente a combater os nazis, pelo que, efetivamente, pelo menos de um ponto de vista, ele traiu a pátria, ao dar prioridade a combater os seus compatriotas em vez de combater os invasores estrangeiros.

Quanto àquilo que aconteceu após a morte de Tito, o desmembramento da Jugoslávia, etc, é puro trabalho de adivinhação supôr que sob Pedro II tal não teria, mais cedo do que tarde, ocorrido.

mujahedin مجاهدين disse...

gastou efetivamente mais energias a combater os partisans de Tito do que propriamente a combater os nazis, pelo que, efetivamente, pelo menos de um ponto de vista, ele traiu a pátria, ao dar prioridade a combater os seus compatriotas em vez de combater os invasores estrangeiros.

Excepto que "os seus compatriotas" agiam sob influência estrangeira - eram, portanto, agentes de potência estrangeira; logo, traidores à pátria para começar.
Não vejo como possa ser traidor o que dá combate a traidores.

Além do mais, e tirando exemplo pela França ocupada, não é de crer que os invasores se demorassem mais que o estritamente necessário para o sucesso das operações militares. Já o mesmo se não poderia dizer daqueles sob as ordens dos quais agiam os "patriotas" vermelhos. Como se veio mais tarde a comprovar efectivamente.